Ronnie Wood dispensa os Rolling Stones e mostra tudo que o rock deve ser em show despojado em SP
Guitarrista britânico de 79 anos fez raro show solo neste domingo, 1º, no Espaço Unimed, em São Paulo
Em turnê solo para promover a coletânea Fearless, Ronnie Wood apresentou-se em São Paulo com um show enérgico e despojado. Longe do peso da estrutura dos Rolling Stones, o guitarrista de 79 anos comandou uma banda de apoio estelar, com destaque para as cantoras Imelda May e Chanel Haynes. O repertório passeou por clássicos dos Stones, faixas de sua antiga banda Faces, covers de blues e soul, e canções autorais, entregando uma celebração autêntica e orgânica de mais de seis décadas dedicadas ao rock.
Ronnie Wood no palco como líder de uma banda. Algo raro de se ver. O guitarrista dos Rolling Stones há 50 anos dispensou os seus colegas - ao menos por um curto período - para se dedicar à carreira solo. Em julho, ele começou uma turnê a fim de promover a coletânea Fearless, lançada no fim do ano passado, e na intenção de continuar ativo já que os Stones entraram em hiato da estrada por questões ainda não totalmente esclarecidas.
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Fearless compilou diferentes fases da trajetória do roqueiro inglês de 79 anos. Ele começou tocando baixo no The Jeff Beck Group, que tinha, além do virtuoso Beck, um iniciante Rod Stewart como vocalista. Em seguida, acompanhou Stewart e Ronnie Lane na banda Faces, antes de se juntar aos Rolling Stones, em 1976, a convite de Mick Jagger e Keith Richards, que procuravam um substituto para Mick Taylor. Antes disso, ele já havia colaborado com Jagger na composição da música It's Only Rock 'n Roll (But I Like It).
E foi justamente com esse clássico stone que Wood escolheu abrir seu show no Espaço Unimed, na zona oeste de São Paulo, neste domingo, 1º, véspera de feriado.
"Estou feliz de estar de volta!", falou o veterano, de cabelo espetado, vestindo camiseta amarela, uma camisa azul por cima, e ostentando felicidade, antes de esmerilar sua Gibson Les Paul, instrumento mais usado na noite.
Desde os primeiros acordes, Ron demonstrava estar muito à vontade longe da máquina dos Stones: sem telões gigantescos, sem Mick Jagger rebolando à sua frente e sem a preocupação de acompanhar os riffs do velho Keith, com quem desenvolveu um entrosamento extraordinário. O clima era despojado até demais, como se o show em território paulistano ocorresse em um pub londrino.
A obra dos Stones foi acionada em outros momentos. Hey Negrita, tema obscuro do LP Black and Blue (1976), trouxe o reggae à baila, enquanto Country Honk, canção country de 1969 irmã do hit Honky Tonk Women, e Can't You Hear Me Knocking, petardo de Sticky Fingers (1971), colocaram os stonemaníacos para cantar - ainda que estas duas tenham sido escolhas um tanto sem sentido pelo fato de Wood não ter participado das gravações originais.
A discografia solo do guitarrista, elaborada por meio de sete discos de estúdio, é comum, mas conta com momentos interessantes, alguns deles reproduzidos no espetáculo. Caso da balada Mystifies Me, da fofa You're So Fine e das surpresas do setlist, Breath On Me e I Can Feel The Fire. Todas intercaladas por ótimos covers, de grandes nomes do blues, Aretha Franklin e mais.
"Essa música o Bob Dylan me deu", disse Wood com uma naturalidade incompatível com a frase dita, ao introduzir o rock suingado Seven Days. Nesta faixa, abusou de sua voz fanha, que remete à do trovador de Minnesota. Ele também apresentou a canção no histórico Bobfest, show que celebrou os 30 anos de carreira de Dylan, em 1992, no Madison Square Garden, em Nova York. O evento reuniu diversas estrelas e deu origem a um álbum ao vivo e a um DVD.
A banda de apoio demonstrou atenção às orientações do astro, seja para acompanhar a fluidez dos solos mais improvisados, seja para encerrar as canções no momento certo. A segurança do conjunto vinha, sobretudo, da cozinha americana formada pelo baixista Willie Weeks e pelo baterista Andy Newmark. Ambos têm currículos respeitáveis: Weeks, por exemplo, participou de diversos discos de George Harrison, enquanto Newmark emprestou sua batida a gravações de John Lennon, Pink Floyd e Sting, entre outros artistas.
Duas mulheres roubaram a cena. Imelda May e Chanel Haynes, cantoras com distintas influências e características, dividiram as vozes com Wood e enriqueceram o repertório. May, irlandesa, evocava sensualidade e cadência jazzística. Haynes, negra de Nova Orleans, desfilou toda a sua potência R&B. Um dos pontos altos foi sua interpretação de River Deep Mountain High, famosa na voz de Tina Turner. Haynes já viveu a própria Tina em um musical encenado no West End londrino.
Grupo que merecia ter tido mais atenção no passado, o Faces foi lembrado em três execuções. Primeiro, com o single de estreia, Flying. Depois com Ooh La La, disparada a melhor composição de Wood, cujo registro original conta com seus vocais (foi também usada no encerramento do filme Rushmore, de Wes Anderson). E, por fim, com o único sucesso do conjunto, Stay With Me.
Esta última, responsável por encerrar a apresentação que ultrapassou duas horas, foi precedida por um memorável medley conduzido no slide guitar em sua Zemaitis preta, com trechos de Black Limousine, dos Stones, Plynth, do Jeff Beck Group, e Gasoline Alley, de Rod Stewart.
Após uma exibição que mostrou tudo que o rock n' roll deve ser - folk, blues, R&B, gospel, country e o que mais você quiser - não há muito mais a dizer sobre este senhor que dedicou mais de seis décadas de sua vida a um gênero orgânico que resiste em tempos de música sintética. É apenas rock n' roll - e nós gostamos.
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