Ravyn Lenae rompe fronteiras em 'Blue Island'
O disco aponta com clareza para o futuro — um futuro em que a cantora de Chicago surge como líder óbvia no pop, R&B, alt-qualquer-coisa e em tudo mais que ela decidir reivindicar
Ravyn Lenae volta para casa em "Never Let Me Go", um destaque bluesy de seu terceiro álbum, Blue Island. A gravação que ocupa o último minuto da faixa mostra a cantora em conversa com seu avô, a quem ela cumprimenta carinhosamente como Papo. "Eu estava ligando para a vovó porque precisava de ajuda com um verso desta música", ela diz a ele. Todo o calor e a familiaridade que vêm com o retorno a um porto seguro ficam evidentes na voz de Lenae enquanto ela fala, com cada palavra se moldando ao seu sotaque de Chicago. Papo pergunta sobre o processo do álbum, e ela garante que tudo está indo bem. "Estão vendendo bem"? ele pergunta sobre seus dois primeiros LPs, Hypnos (2022) e Bird's Eye (2024). "Sim", responde Lenae. "Bom, esse último está indo muito bem."
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Lenae voltou à casa dos avós no South Side durante a produção de Bird's Eye para poder "refazer meus passos e reviver os momentos que me fazem ser eu", como ela disse naquele ano. O disco a levou para longe de casa, colocando-a em turnês e palcos de festivais impulsionada pelo sucesso de seu hit de crescimento lento "Love Me Not". O single alcançou o quinto lugar na Billboard Hot 100 mais de um ano após o lançamento. Um álbum tão profundamente enraizado em suas origens foi a apresentação perfeita para seu novo público. Mas agora, em Blue Island, Lenae volta sua percepção para fora. O disco se constrói sobre a clareza e a compaixão que só podem vir de um apetite insaciável por explorar.
"Never Let Me Go" se desenvolve em torno de uma interpolação do single soul "Love of You", de Charles Jackson, do álbum Passionate Breezes (1978). Existem alguns uploads da gravação espalhados pelo YouTube, mas, fora isso, ela é inacessível nos serviços de streaming. Lenae a usa como trampolim para uma ode deslumbrada a viver e amar no presente. O amor é sua maior preocupação ao longo de Blue Island. Amor que faz o tempo parar e, depois, correr rápido demais. Amor que permanece na pele, nos ossos e nas memórias. Amor que, como ela canta no single principal e faixa de abertura do álbum, "é como um deslizamento de terra". Aos 27 anos, ela se entrega a isso por completo. "Sei que talvez eu seja mais do que você consegue aguentar", canta Lenae. "Quando tudo desabar, só existe um jeito de descobrir."
Lenae acolhe uma curiosidade aventureira sem ser dura demais consigo mesma quando o coração acaba no cadafalso. "Sou um perigo para mim mesma/Andando na corda bamba ultimamente", ela canta em "In & Out", uma faixa indie-pop pesada de baixo e deliciosamente grudenta. "Apertando o cinto/Uma falsa sensação de segurança." Ela busca alívio para a tensão crescente de "Barriers" e "Saturday Night", escolhendo, no fim, a cabeça em vez do coração. Seus pontos de ruptura vêm com uma ponta de humor, como quando ela para de engolir palavras em "Bobby" e admite: "Suas histórias podem ser chatas/Eu não consigo fingir mais um orgasmo com você."
Blue Island mantém seu senso de clareza mesmo quando se embaraça em dúvidas e contradições. "O que quer que a gente tenha dito naquela época não me machuca/No incomum eu estou encontrando paz/Estou deixando ir agora, me deixe ir", canta Lenae em "Wish You Well". A faixa percussiva recua as súplicas que ela derrama algumas músicas antes em "Never Let Me Go" e "Familiar Dreams", sobre se reconectar com um antigo amor depois de oito anos (e duas semanas, para ser exato). "Para onde vai todo esse amor? Escapou pelas mãos do tempo? Os sentimentos estão escritos em pedra"? ela pergunta. "Isso me atingiria do mesmo jeito duas vezes? Ou talvez você siga seu caminho e eu siga o meu."
Nos meses que antecederam Blue Island — e até mesmo desde que "Love Me Not" estourou —, Lenae tem rebatido com firmeza as expectativas restritivas de quem a enxerga como nada além de uma artista de R&B. "É realmente um desserviço às mulheres negras pensar que precisamos ser de um jeito ou de outro", ela disse à Rolling Stone EUA. Embora seus outros discos também transitem por linhas de gênero, Blue Island é especialmente ambicioso e expansivo. "Potential" se apoia em melodias doces que desabam em um estrondo industrial de distorção eletrônica. Em seguida vem "Sew Me Back Together", que mistura funk e blues com o melhor do R&B dos anos 90. Lenae se une à convidada Doechii no "Babygirl" com clima de Fugees e a Dominic Fike em "Reputation", um dueto acústico e tranquilo.
Lenae não precisava provar nada com Blue Island, e seu alcance nunca deveria ter sido motivo de debate. A assinatura mais consistente em seu catálogo crescente é a autoconfiança como intérprete. Ela pode não saber tudo quando se trata de amor, mas sabe do que é capaz quando entra no estúdio. Ainda assim, está comprometida em descobrir o quão grande pode ser a rede que ela lança. A intenção não é encerrar debates idiotas sobre que tipo de música ela "deveria" ou "não deveria" fazer, nem sobre qualquer suposta traição a gêneros negros que tenha sido projetada sobre ela — e sim expandir a linguagem musical que usa para traduzir suas experiências em canções.
Em alguns momentos, Blue Island soa um pouco como um álbum-irmão do disco de estreia de Olivia Dean, The Art of Loving. Os dois compartilham um interesse intenso e quase antropológico em investigar como tratamos a nós mesmos e aos outros no amor, com nuance e empatia. O fio se torna mais forte entre "A Couple Minutes", de Dean — que traz o argumento fundamental do álbum, de que "amor nunca é desperdiçado quando é compartilhado" — e "Find It One Day", de Lenae. "Se você acha que não foi real/Logo tudo vai ser revelado/E você sabe que eu ainda te amo", canta Lenae.
Há pedaços do passado espalhados por todas as 14 faixas de Blue Island. O disco também aponta com clareza para o futuro — um futuro em que Lenae é uma líder óbvia no pop, R&B, alt-qualquer-coisa e em tudo mais que ela decidir reivindicar. Ela soa em casa em todos eles.
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