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Quebrada Queer lança EP de estreia e questiona presença LGBT no rap

Projeto com cinco faixas traz parcerias com Gloria Groove e Hiran; 'Quebrada' é o primeiro grupo de rappers formado exclusivamente por LGBTs no País

30 nov 2018
18h02
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A cena musical brasileira assistiu nos últimos anos a uma explosão de artistas LGBTs. De Pabllo Vittar a Johnny Hooker, passando por Liniker e tantos outros, esses artistas garimparam seu espaço no mercado e ganharam visibilidade. Mas o sexteto paulista Quebrada Queer foi além e se tornou o primeiro grupo de rap do País formado apenas por homossexuais. Nesta sexta-feira, 30, eles lançaram nas plataformas digitais seu EP de estreia com cinco faixas e as participações especiais de Gloria Groove e o rapper Hiran.

O trabalho batizado de SER - Sobre Existir e Resistir traz nas letras a vivência de cada um dos integrantes do grupo — ?Guigo, Harlley, Lucas Boombeat, Murillo Zyess e Tchelo Gomez ?— e a quebra de padrões que eles estabelecem no cenário do rap. Negros, LGBTs e da periferia de São Paulo, todos os rappers do 'Quebrada' ? já tinham carreira solo antes de formar o grupo.

O que uniu os músicos, no primeiro semestre deste ano, foi a ideia de produzir uma canção que falasse sobre suas experiências de luta e aceitação. O som, que carrega o mesmo nome da banda, Quebrada Queer, foi lançado no dia 4 de junho nas plataformas digitais e, em pouco tempo, viralizou na internet. "Logo de cara, nós entramos no 'top 50' de virais do Spotify e começamos a receber contatos para fazer shows. A gente percebeu que o resultado era muito bom para ficar apenas em uma música. E aí decidimos criar o grupo", conta Harlley.

Para o segundo single, Pra Quem Duvidou, os cinco rapazes sentiram a necessidade de chamar uma produtora que fosse mulher e também LGBT. A DJ Apuke topou o desafio e se tornou o sexto elemento da banda. "É muito difícil encontrar uma referência feminina na produção musical. Então fiquei muito honrada em poder participar do projeto", ela afirma. No início de setembro, o clipe foi lançado no YouTube e ganhou milhares de compartilhamentos nas redes.

O grupo já soma quase 4 milhões de plays com as duas músicas e tem feito uma média de cinco a oito shows por mês. "Mas até hoje, temos dificuldades financeiras. Porque todos nós largamos nossos trabalhos e estamos vivendo apenas disso", diz Tchelo.

Novo EP. O primeiro trabalho de estúdio do Quebrada já está disponível nas plataformas de streaming, como Spotify e Deezer. "E cada música ganhou um miniclipe para o YouTube", conta Guigo.

As canções trazem todas o trap como base e a mescla de outros ritmos em cada uma das músicas. Do reggae dub em Templo (Hold Up) ao R&B incorporado ao som da faixa Quem?, os sons do novo projeto de estreia do Quebrada buscam se conectar com as inspirações musicais dos rappers do grupo.

Capa do EP 'SER'
Capa do EP 'SER'
Foto: Quebrada Queer/Divulgação / Estadão

E é na parceria com uma dessas influenciadoras, Gloria Groove, para a música Sem Terror, que a sequência de músicas ganha uma carga dançante, ainda não vista nas músicas anteriores. A batida de funk, com direito a passinho e refrão chiclete ('Quebrada / sem terror, / pode chegar mexendo o drink') traz uma nova versão do grupo e mostra que nem só de protesto e resistência vive o 'QQ'. O primeiro grupo LGBT no rap nacional também querem tocar nas playlists de bailes funks e colocar os fãs na pista de dança.

O disco ainda traz um feat com o rapper Hiran, na faixa Arruda. Baiano e gay, o cantor é mais um a comprovar o crescimento do segmento LGBT logo no nome do seu álbum de estreia, Tem Mana no Rap, lançado em março deste ano. "Nossa intenção ao fazer música é mostrar que pessoas como a gente podem ocupar os lugares que quiserem. Não só na música, mas em qualquer espaço", ressalta Guigo.

Dificuldades. Antes da música, os integrantes tiveram as mais diversos profissões, de bibliotecário em faculdade a bicos no telemarketing, mas foram nas rimas do rap que encontraram voz para enfrentar o preconceito. Ainda que com as dificuldades de encontrar espaço em um ritmo musical dominado por homens heterossexuais. "Se você buscar as line-ups de todos os eventos de rap, você vai perceber que nós não estamos em nenhum. E não é porque não somos bons. É porque nós somos gays. O 'Quebrada' tem números mais expressivos que boa parte da galera que está nas programações", opina Guigo.

Apesar da descrença no próprio universo do rap, o grupo recebeu críticas positivas de nomes como Pabllo Vittar e Linn da Quebrada, que acenaram para possíveis parcerias no futuro. "Eu precisei ver um artista LGBT na cena musical para entender que eu também poderia ocupar aquele espaço. No meu caso, a principal influência foi o Rico Dalasam. Depois de ouvir, criei coragem para fazer o meu som", diz Murillo.

O Quebrada Queer já passou por capitais brasileiras como Salvador e Brasília, e, no último dia 20 de novembro encheu a Praça das Artes, no centro de São Paulo, durante a Feira Preta. Na setlist das apresentações, estão os dois singles lançados até o momento e músicas da carreira solo de cada um dos integrantes.

Em suas letras já lançadas e também no futuro projeto, o 'QQ' não deixa de lado uma forte mensagem política. "Nós estamos vendo crescer o ataque à população LGBT, então nosso objetivo é atingir todo mundo. Dentro e fora da nossa bolha. Para mostrar que as 'bichas' podem tocar no rádio, que elas podem fazer rap e que merecem respeito acima de tudo", comenta Lucas. Nos últimos versos da primeira música do grupo, a principal mensagem que o sexteto quer passar: "Amor não é doença, é cura // Não é só 'close', é luta // Então vê se me escuta // Aceita, atura ou surta!".

Estadão

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