Pitty lava a alma e celebra a liberdade em novo álbum 'Pitty'
Cantora baiana explora fim de seu casamento, sexualidade aos 49 anos e relação conturbada com sua mãe em coleção catártica de músicas
Em seu novo e confessional álbum homônimo, Pitty celebra a liberdade e reflete sobre transformações recentes, como o divórcio após 19 anos de relação e o luto pela mãe. Explorando o desejo e a vulnerabilidade sob uma ótica madura e franca, o trabalho se destaca por contrapor letras densas a arranjos dançantes e com a tradicional energia do rock. O resultado é uma obra catártica e emocionalmente complexa, que dialoga com veteranos fãs ao abordar recomeços aos 49 anos com leveza e autenticidade.
Se o álbum de inéditas anterior de Pitty, Matriz (2019), parece ter saído em outra vida, é consequência de tanta coisa que aconteceu desde então — seja no Brasil numa dimensão maior ou com a cantora baiana em particular. E em Pitty (2026), seu novo disco lançado nesta sexta-feira, 16, ela faz um apanhado do que passou e sentiu desde a última vez que se manifestou artisticamente.
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O resultado é um dos trabalhos mais emocionalmente complexos da sua carreira até agora. Um que talvez não ressoe com gerações mais jovens por conta dos temas sendo discutidos de maneira tão franca. Por outro lado, pode haver um impacto considerável para o público que acompanha seu trabalho há mais de 20 anos, desde sua estreia, Admirável Chip Novo (2003), devido às reflexões sobre mudanças de vida de quem cresce e aparece.
O tema principal do disco Pitty é desejo. Já na abertura, "Sobremesa", a cantora começa a explorar as facetas dessa sensação na vida de alguém — desde aquela pessoa até um assunto que fica preso na cabeça — com a vontade insuportável de sucumbir aos impulsos. Mesmo assim, há determinação de se valorizar:
"Não ofereço banquete
Pra quem me dá migalhas
Inegociável, não precisa enquete
Anote esse bilhete
Não me curvo, não quebro
E, principalmente, não imploro"
https://www.youtube.com/watch?v=zax68RhLsAE&list=RDzax68RhLsAE&start_radio=1&pp=ygUQcGl0dHkgMjAyNiBhbGJ1baAHAdIHCQlHDAGHKiGM7w%3D%3D
Em "Armadura", ela aborda mais o desejo de poder expressar vulnerabilidade. Escolher proteger a si próprio acaba criando a metáfora principal da música. O gancho principal da letra diz tudo ao afirmar ser "mais difícil abrir o coração que as pernas".
Mas de onde vem isso tudo? Algumas notícias públicas dão um mapa para quem quiser se aventurar na função de detetive. Em 2024, Pitty passou por uma cirurgia de emergência misteriosa. No ano seguinte, divorciou-se do baterista do NX Zero, Daniel Weksler, após 19 anos de relação e 15 de casamento. É de se esperar que uma cantora conhecida por seu estilo lírico confessional tenha algo a dizer, mas o aspecto curioso de Pitty é: o álbum soa alegre apesar disso.
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As guitarras de Martin Mendonça continuam pesadas, mas o maior destaque reside no trabalho de baixo e bateria, cortesia de Paulo Kishimoto e Nico, respectivamente. Os arranjos em geral são dançantes sem abrir mão da pegada rock tradicional de Pitty, dando às músicas uma leveza que contrabalanceia os temas espinhosos explorados.
Seja as ramificações do divórcio ("Álbum de Casamento") ou sua sexualidade nascente agora que está solteira aos 49 anos ("Pileque de Poeta"), ela não parece fugir de assuntos. Até mesmo quando não a fazem parecer a heroína da história, como é o caso de "Cuidada". A canção aborda o relacionamento da cantora com sua mãe, Laurita, os embates entre as duas durante a juventude da artista e sua admissão — vinda da experiência dela própria ter uma filha de 10 anos, Madalena — de ter dado muito motivo para preocupação.
https://www.youtube.com/watch?v=fij8tJif2oo&list=RDfij8tJif2oo&start_radio=1&pp=ygUQcGl0dHkgMjAyNiBhbGJ1baAHAQ%3D%3D
Esta, contudo, não é uma música feliz. Dona Laurita faleceu antes de haver uma resolução dessas feridas antigas, aparentemente. Portanto, Pitty resolveu fazer pazes através da arte, oferecendo o carinho que ela agora vê como algo buscado pela mãe em vida:
"Hoje eu entendo
O que eu não tinha como
Tantas vezes eu atrapalhei seu sono
Escuta, desculpa
Ouça agora a voz da sua filha
Você sobreviveu a tanto, a tudo e muito e todo, e merece ser
Cuidada
Você está cuidada
Vem no meu colo escutar
Você é cuidada"
https://www.youtube.com/watch?v=CEQsA_ipAyk&list=RDCEQsA_ipAyk&start_radio=1&pp=ygUScGl0dHkgMjAyNiBjdWlkYWRhoAcB
Por fim, a experiência de escutar o álbum Pitty é similar a reencontrar uma velha amiga após muito tempo. A conversa é franca e as lições oferecidas — adquiridas às duras penas — são catárticas para quem está disposto a prestar atenção. E, acima de tudo, a música continua boa.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/7oJsUbfVjaOxKFYTurScsT
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