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Pianista Fou Ts'ong morre aos 86 anos

Ele ficou conhecido por ser o primeiro músico chinês a obter premiação em um grande concurso musical europeu

30 dez 2020 16h32
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O pianista chinês Fou Ts'ong morreu nesta segunda-feira,dia 28, vítima da Covid-19 aos 86 anos, em Londres. Ficou conhecido aos 21 por ser o primeiro músico chinês a obter premiação em um grande concurso musical europeu: em 1955, foi terceiro lugar no Concurso Chopin de Varsóvia, e ganhou medalha pela melhor interpretação das mazurcas. Dois anos antes, em Bucareste, na Romênia, havia vencido o Concurso Georges Enescu. Dois prêmios em países então comunistas. Cinco anos epois, já morando em Londres, casou-se com Zamira, filha do violinista Yehudi Menuhin. Dez anos depois, em 1965, três dos maiores pianistas do nosso tempo - Martha Argerich, Leon Fleischer e Radu Lupu -- juntaram-se para homenageá-lo tocando no LP "A Arte Pianística de Fou Ts'ong".

Talvez por suas características - era muito pessoal em suas interpretações não só de Chopin, mas também de Mozart, Schumann e Debussy -, destoou dos demais músicos chineses que alcançaram fama na Europa e Estados Unidos, pouco originais (se você pensou em Yo-Yo Ma, lembre-se: seus pais eram chineses, mas ele nasceu e cresceu em Paris e depois nos EUA). Numa extraordinária entrevista à jornalista inglesa Jessica Duchen, em 1994, a propósito de seus 60 anos, Fou diz que Jean-Christophe, o amazônico e fascinante romance de Romain Rolland baseado na figura de Beethoven, ensinou-lhe, e também aos chineses, a importância do indivíduo, da subjetividade, na vida. E diz que até hoje os chineses ainda tentam aprender esta lição. Às vésperas do Concurso Chopin, ele escreveu ao pai reclamando da solidão que sentia. "Ele me escreveu de volta: 'Você nunca poderia estar sozinho. Você está convivendo com as maiores almas da história da humanidade o tempo todo'. Agora é assim que me sinto, sempre".

Para entender este grande músico que se manteve austero e fiel a seu credo artístico, você precisa conhecer sua história. Seu pai foi um dos grandes intelectuais chineses nos anos 1930/60. Traduziu Jean-Christophe - o livro mais vendido na China no século 20, desde os anos 1930 - e tudo que Balzac escreveu, o que não é pouco. Previu o desastre que aconteceria na Revolução Cultural da década 1966-76. Enquanto o filho escapava, da Polônia para a União Soviética, e de lá para Londres, graças a amigos como o pianista Julius Katchen, que pagou sua passagem, e a estratagemas como o de marcar um recital de piano na véspera de Natal, quando o aparato de segurança soviético estava de folga, e embarcar no dia anterior. Os pais permaneceram em Xangai. Foram pressionados de tal modo por Madame Mao, a líder da Revolução Cultural, que acabaram se suicidando.

Um patêntese: a morte deste notável porém pouco conhecido pianista hoje em dia me chamou a atenção porque li há pouco Beethoven in China, de Jindon Cai e Sheila Melvin (Penguin, 2016). Somente a partir da leitura deste livro de 100 páginas se entende o que é a música clássica ocidental na China. A Filarmônica de Xangai teve de aumentar de 80 para inacreditáveis 1.200 concertos anuais para acompanhar o mote de aumento de produtividade no Grande Salto concebido por Mao Tsé-tung em 1958. Outro exemplo: um maestro ousou reger uma sinfonia de Beethoven, então proibido, num concerto, e ainda defendeu-o publicamente do pódio. Mao estava na plateia. O regente foi executado nas semanas seguintes. Último detalhe: Beethoven é onipresente na China desde o início do século 20. Foi considerado burguês, revolucionário, socialista, capitalista, onforme a ordem-do-dia. Vale muito ler Beethoven in China.

Horas após a morte de Fou Ts'ong, começaram a pipocar posts de outros músicos. Um deles, entretanto, foi ligeiríssimo. Mais do que depressa, o festejadíssimo pianista chinês Lang Lang postou no seu blog rapapés ao "compatriota": "Mestre Fou era um grande artista, que sempre respeitei muito". Ora, Fou teve uma vida e carreira inteiramente opostas às de Lang Lang. Ao contrário deste último, "garoto-propaganda do regime chinês", nas palavras do indignado jornalista inglês Norman Lebrecht.

DNA próprio. Virtuosismo, pirotecnias, malabarismos - em geral, aplicam-se estes adjetivos a outros grandes pianistas chineses. Como Yuja Wang. Ela é de fato uma pianista notável, mas privilegia malabarismos e escolhe o repertório tecnicamente mais exigente só para embasbacar o público (além de das ousadíssimas fendas de seus vestidos). Lang Lang agora quer dar uma de grande músico amadurecido - logo ele, o maior exemplo de pianista sem DNA algum. Seu recente registro das Variações Goldberg faria Glenn Gould rir: pomposo, num gestual estudadíssimo, mas oco, que você pode conferir em vídeo no youtube.

Se Lang Lang ouviu Fou T'song, não deve ter aprendido nada com um pianista que é rigorosamente seu oposto. Não privilegia a técnica pela técnica, por exemplo, nas suas celebradas interpretações das mazurcas, usa bastante o pedal de ressonância para criar ambiências sonoras inesperadas. Não é amadorismo, mas opção consciente. Mozart é sua paixão da plena maturidade, compositor que ainda não amava em 1972 quando gravou burocraticamente, em raro lance de marketing, o pouco representativo Concerto no. 7 para três pianos, ao lado de Vladimir Ashkenazy e Daniel Barenboim, com a Orquestra de Câmara Inglesa.

Um passo em falso agora bastante citado positivamente na mídia porque os parceiros eram superstars. Ele com certeza jamais se importou com isso. Apenas com a música. Por este motivo, mesmo preferindo as fulgurantes leituras de Antonio Guedes Barbosa, de 1983, das mazurcas, ainda assim encontro motivos sempre renovados para voltar a escutar as leituras instigantes de Fou T'song. Este é o maior gesto de respeito e admiração que se pode ter em relação a um grande músico.

Estadão
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