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O impacto positivo do primeiro concerto da Osesp aberto ao público

Fortalecia-se em mim a impressão de que a ideia era de fato enterrar um passado (ainda presente) triste e anunciar um novo tempo

16 out 2020
12h03
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Protocolos rígidos de segurança sanitária marcaram, no fim de tarde/noite da quinta-feira, 15 de outubro, a chegada, depois de oito meses de jejum absoluto, dos primeiros 480 espectadores à Sala São Paulo. Um punhado de felizardos segurava seus smartphones com os ingressos (digitais) que lhes davam direito a assistir ao primeiro concerto da Osesp em praticamente oito meses de pandemia.

Corredores delimitados encaminhavam cada um aos vários passos de segurança: a verificação da temperatura, álcool em gel. Ao chegar ao amplo átrio da Sala São Paulo, a primeira surpresa: mesas esparsas, distanciadas entre si, demarcavam o atendimento só feito nestas poucas mesas. Tudo muito distante do burburinho pré-concerto dos tempos normais.

Havia quem mora fora de São Paulo, mas fez questão de vir a este concerto, apesar dos temores. Uma senhora de seus 80 anos disse que venceu o medo, porque a vontade de voltar a ouvir a "sua" orquestra era grande demais. E me alertou: "Você também faz parte do grupo de risco e está aqui". Verdade.

A entrada na Sala era encaminhada, um a um, por atendentes mascaradas. Sentei-me e minutos depois duas senhoras comemoravam rindo alto porque foram levadas para os mesmos lugares previstos em suas assinaturas pré-pandemia.

Os primeiros compassos da pungente Für Lennart in memoriam foram impactantes. De repente, como postou na própria quinta-feira, 15, à meia-noite, um espectador, estávamos todos, músicos e público, "de volta à magia". Foi extraordinário perceber, em segundos, quanto perdemos de música durante estes meses em que fomos obrigados a nos alimentar espiritualmente apenas com música online. A opulenta, embora solene, obra escrita para cordas de Arvo Pärt nesta peça de 2006 composta a pedido do presidente de seu país, e estreada no serviço fúnebre de Lennart, funcionou como uma catarse. Tomara que tenha sido um serviço fúnebre à morte da pandemia. Ao menos nos soou assim.

Aplausos tímidos foram cerceados pelo excelente maestro alemão Alexander Liebreich. Fortalecia-se em mim a impressão de que a ideia era de fato enterrar um passado (ainda presente) triste e anunciar um novo tempo. E nenhuma sinfonia talvez seja mais adequada do que a primeira de Brahms. Afinal, ela caminha para o grand finale a passos firmes.

Sua história é conhecida. Brahms levou 14 anos para completá-la - e foi incompreendido na estreia em sua homenagem a Beethoven citando o tema da Ode à Alegria da Nona. Mas também tinha consciência, como escreveu, de que qualquer um, depois de Beethoven, teria de adotar um caminho diferente. Longe de ser, como foi apelidada, "a décima de Beethoven", ele caminhou com suas próprias pernas. O rico contraponto cromático do movimento inicial, tão bem realizado pela Osesp neste concerto, está surpreendentemente próximo do Bach da "Paixão São Mateus": mais do que um tema, são vários, o ascendente dos violinos e violoncelos em contraponto ao descendente das violas e madeiras. Minúsculo exemplo entre tantos outros que denotam seu novo caminho. Com um número menor de músicos, sente-se de modo mais claro o encontro dos timbres. Deste início extraordinário ao maravilhoso toque de trompas alpinas no final, uma certeza: a magia voltou mesmo.

Talvez por causa dos músicos mais distantes entre si e obrigados a reaprenderem seu ofício, ou quem sabe pela sala com pequeno público, o fato é que não me lembro de ter ouvido de maneira tão cristalina os vários timbres se fundindo e misturando-se, porém mantendo suas individualidades.

Numa conversa informal pré-concerto no saguão com Marcelo Lopes, diretor da Osesp, ele ressaltou que, mais distanciados entre si, cada músico torna-se mais exposto e, portanto, mais alerta em relação ao conjunto. É verdade. Em Brahms o rico tecido sinfônico se construía e envolvia a todos. Uma sensação difícil de descrever.

Colaborou muito para este resultado a performance do maestro Liebreich. Mais do que preciso, ele conseguiu transmitir o que desejava aos músicos (mesmo usando máscara, o que lhe deixava apenas as mãos e os olhos para se comunicar com eles). Desde o movimento inicial, Un poco sostenuto - Allegro, ficou claro que cada músico estampava o prazer de recuperar seu ofício. E os aplausos finais foram talvez não tonitroantes como em concertos normais, com casa cheia, mas profundamente significativos de uma comunhão palco-plateia que se estabelece apenas em ocasiões especiais. Muito especiais, como este primeiro concerto pós-pandemia. Que seja o primeiro de muitos.

Cotação: excelente

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Estadão
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