Nedu Lopes fica em segundo lugar na final da Batalha Mundial de DJs
- Felippe Camargo
- Direto de São Paulo
O DJ mineiro Nedu Lopes participou pela terceira vez da final da Batalha Mundial de DJs - também conhecida como Red Bull Thr3style -, que neste ano aconteceu na última semana de setembro, em Chicago, nos Estados Unidos. Em entrevista ao Terra, ele comemorou o segundo lugar e disse que o americano Four Color Zack foi o vencedor. "Fiquei satisfeito porque meu objetivo era ficar entre os primeiros e até chegar lá são várias etapas. Então o fato de ter conseguido o segundo lugar dá uma grande credibilidade no mercado", revelou o DJ.
De acordo com o regulamento do campeonato, cada participante deveria fazer um set de 15 minutos e misturar pelo menos três gêneros diferentes. Os jurados avaliaram técnica, estilo, seleção musical, criatividade e carisma com a plateia. "Eu sempre coloco muito mais do que três gêneros no mesmo set. Por exemplo, em uma parte usei uma base de funk carioca com o vocal da Aretha Franklin. Além disso, também toquei uma música com uma percussão na linha de Timbalada e com o vocal do Soop Dog em cima", disse Nedu, que voltou pra casa com um troféu, fone de ouvido novo, camiseta e óculos escuros - que ganhou durante o evento.
Surgido em 2007 no Canadá, o Red Bull Thr3Style foi um evento exclusivo do país até o ano de 2009. A partir de 2010, a competição se tornou mundial e foi criada a fase de eliminatórias em 10 países, incluindo o Brasil. Na ocasião, o vencedor dos duelos por aqui foi o DJ Nedu Lopes, que ganhou o direito de representar o País na primeira final mundial, em Paris, na França. Ele terminou em segundo lugar. No ano seguinte, em 2011, ele também venceu as eliminatórias no Brasil e garantiu a terceira colocação na final mundial, em Vancouver, no Canadá.
Durante um papo descontraído, Nedu Lopes não economizou palavras ao falar sobre a repentina ascensão de DJs no Brasil. "Acho que a tecnologia veio pra ajudar todo mundo, inclusive os picaretas. Quem sabe tocar, vai saber usar a tecnologia muito bem. Mas, infelizmente, também vai ajudar quem não sabe tocar", comentou. Justamente criticando a postura desses "posers", que vivem apenas de imagem, ele completou: "Como hoje em dia o DJ é muito relacionado à imagem, é só a pessoa chegar lá na cabine e fingir que sabe o que está fazendo. Acho que é a única profissão no mundo onde uma pessoa pode ser considerada 'top' sem dominar a técnica".
Confira a entrevista completa:
Terra - Em primeiro lugar, qual é seu nome de verdade?
Nedu Lopes - É Nelson Duarte Lopes. Nedu é apelido de infância. A minha família que me chama de Nedu desde que nasci.
Terra - Como começou seu interesse por música?
Nedu - Até os 14 anos eu não me interessava por música. Ninguém em casa tinha interesse. Mas com essa idade eu ganhei meu primeiro rádio e comecei a escutar a 107 FM, uma rádio de Belo Horizonte que nem existe mais. Nessa rádio tocava house e comecei a gostar e me interessar espontaneamente. Então comecei a procurar e comprar discos de house e a frequentar matinês. Gostava de ficar do lado da cabine do DJ pra ver ele tocando. Comecei a fazer festinhas em casa de parentes e amigos. Aí fui comprando equipamento aos poucos.
Terra - E como você aprendeu a discotecar?
Nedu - Aprendi a tocar no método da tentativa e erro mesmo. Na época até tinha curso de DJs, mas era difícil de encontrar um bom curso. O primeiro toca-discos que eu tive, ganhei de presente de um padrinho. Depois ganhei um mixer e outro toca-discos. Aí comecei a tentar mixar. Pra aprender, também assistia vídeos com DJs tocando. Sempre gostei de DJs performáticos.
Terra - Já que você falou de DJs performáticos, o que você acha que não pode faltar em um bom DJ?
Nedu - Acho que a principal característica é feeling. Saber tocar a música certa na hora certa de acordo com a pista. Isso junto à técnica, que é saber fazer uma mixagem boa e criativa. Acho que essas duas coisas são as principais: feeling e técnica.
Terra - E se você tivesse que citar alguns DJs como referência? Quais seriam?
Nedu - Tem vários DJs, por vários motivos diferentes. Gosto muito do Zegon, que foi DJ do Planet Hemp. O Marky também é referência pra todo mundo. E tem outros que curto bastante, que são o Erik Jay e RM, DJ Craze, DJ Clever e Jazzy Jeff.
Terra - E essa final da Batalha Mundial de DJs que você competiu em Chicago? Como foi lá?
Nedu - Foram quatro dias de eliminatórias e 18 DJs competindo. No primeiro e segundo dia, quatro DJs competiram em cada. No terceiro e quarto, foram cinco DJs em cada. Eu competi com quatro DJs no terceiro dia. No total, seis DJs se classificaram e voltaram para disputar a grande final - um de cada eliminatória e mais dois de 'repescagem'. Eu não ganhei na minha eliminatória, mas fui um dos escolhidos na repescagem. Na final, o americano Four Color Zack ficou em primeiro lugar, eu fiquei em segundo e o chileno DJ Drummer em terceiro.
Terra - O que você tocou lá? Foi tudo preparado antes?
Nedu - Eu preparei dois sets. Se eu passasse na eliminatória, faria um set diferente na grande final. Procurei colocar sons que identificassem a cultura brasileira, mas não uma cosia muito 'batida' como o samba. Por exemplo, em uma parte do meu primeiro set usei uma base de funk carioca com o vocal da Aretha Franklin. Também toquei uma música com uma percussão na linha de Timbalada e coloquei o vocal do Soop Dog em cima. No set da final, comecei com trap, que é um estilo que está bombando lá fora. Também toquei um remix usando a voz do Emicida e uma base de rap americano. Em quase todas as músicas que eu toquei, fiz uma edição pra elas se adequarem ao set.
Terra - Então esses sets foram pré-produzidos por você?
Nedu - O trabalho que eu tive foi editar as batidas de uma maneira que encaixasse no set. Mudei o BPM, a ordem das baterias e sincronizei as batidas. E as 'Acapellas' com os vocais eu coloco na hora. Assim os jurados percebem que estou executando e improvisando na hora do set. Mas como lá é uma cidade muito ligada à criação do house, também toquei algumas coisas que puxaram mais pra esse lado.
Terra - E quantas músicas você conseguiu colocar nesse set de 15 minutos?
Nedu - Se for contar com as 'Acapellas' e todas as bases dá uma média de 25-30 músicas. Muitas vezes tá rolando a base de uma música e a 'Acapella' de outra. Aí eu tiro a base, deixo a 'Acapella' rolando e mixo com outra base em cima. E assim vai indo...
Terra - Mudando um pouco de assunto, o que você gosta de escutar e tocar?
Nedu - Eu toco vários estilos. O que escuto em casa é aquilo que eu toco. Ao mesmo tempo em que ouço uma música pra curtir, estou sempre pensando em aplicar isso pro meu trabalho. No momento, o que eu mais tenho escutado é um estilo que chama 'Trap'. É uma mistura de rap com dubstep. O BPM é lento, na média de 70. Tem uma dupla nesse estilo que eu curto bastante, que chama Flosstradamos.
Terra - Escutei suas músicas próprias e percebi muita influência de breakbeat, electro e techno. Como você produz suas músicas?
Nedu - Não tenho uma rotina muito definida. Uso o Ableton Live pra produzir já faz uns quatro anos. Normalmente quando vou produzir, fico uma semana criando direto. Se eu paro no meio do processo, depois não acho mais graça nenhuma naquilo que estava fazendo.
Terra - O que você pensa sobre essa ascensão de DJs no Brasil hoje em dia?
Nedu - Isso aconteceu por causa da tecnologia dos equipamentos. Acho que ela veio pra ajudar todo mundo, inclusive os picaretas. Pra quem sabe tocar e entende de música, vai saber usar a tecnologia muito bem. Mas, infelizmente, vai ajudar quem não entende também. Como hoje em dia o DJ é muito relacionado à imagem, é só o cara chegar lá e fingir que sabe o que está fazendo. Acho que é a única profissão no mundo onde a pessoa pode ser considerada 'top' sem dominar a técnica da profissão. Por exemplo, o Tiesto, que já foi considerado o melhor DJ do mundo várias vezes. Já vi ele tocando ao vivo e ele não sabia aplicar nenhum efeito do mixer. Então, como alguém pode ser considerado um DJ 'top' sem dominar uma função básica de efeito? É uma farsa.
Terra - Quais são seus projetos para o futuro?
Nedu - Agora que terminou o campeonato de DJs, pretendo investir mais em produção. O campeonato dá um retorno em questão de divulgação e credibilidade. Mas produção, hoje em dia, é quase um cartão de visita do DJ.
Terra - E você tem algum hobby além da música?
Nedu - Gosto de pedalar e de jogar bola.