Além de Anitta, cinco artistas independentes traduzem a espiritualidade em música
Da fé íntima à ancestralidade afro-brasileira, artistas de diferentes regiões fazem da música um espaço de cura, memória, transformação e autoconhecimento
Além do pop mainstream de Anitta, a espiritualidade move a cena independente brasileira em diversos gêneros. Nomes como Bárbara Grando, Chandra Lacombe, Alessandra Leão, Myrella Nascimento e Raiane Castro transformam fé, ancestralidade afro-indígena, tradições orientais, autoconhecimento e misticismo em arte. Transitando entre a MPB, o soul e a música meditativa, esses artistas mostram que a busca espiritual é transversal, atuando como ferramenta de cura, identidade e transformação interior.
Anitta colocou fé, ancestralidade, espiritualidade e autoconhecimento no centro de EQUILIBRIVM. Mas essa aproximação entre música e busca interior está longe de ser uma exclusividade do pop mainstream. Na cena independente brasileira, artistas de diferentes gerações e linguagens vêm transformando experiências espirituais em matéria-prima para canções que atravessam o pop, a MPB, o soul, as tradições afro-brasileiras e as sonoridades meditativas.
Mais do que um tema ou gênero específico, a espiritualidade aparece como uma linguagem artística transversal. Em comum, Bárbara Grando, Chandra Lacombe, Alessandra Leão, Myrella Nascimento e Raiane Castro usam a música para abordar questões como fé, cura, ancestralidade, sagrado feminino, boas energias e reconexão consigo mesmo — cada um a partir de uma vivência própria.
No pop eletrônico de Bárbara Grando, cantora, compositora e multiartista paranaense, a fé surge de forma pessoal e contemporânea. Em "Dizendo Sim Pra Mim (Pra Deus)", seu lançamento mais recente, a artista transforma fé e autoconhecimento em uma declaração de liberdade interior. A canção parte da ideia de dizer "sim" à própria essência e, simultaneamente, a Deus, propondo uma relação menos rígida e mais íntima com a espiritualidade.
A faixa aproxima o pessoal do transcendente para falar sobre escolhas, entrega e a coragem de seguir um caminho que faça sentido. Não é uma ruptura com sua trajetória: desde o EP de estreia, Tapetum Lucidum (2024), Bárbara constrói uma obra interessada em encontrar luz mesmo nos períodos de escuridão. Em músicas como "Nova Era", parceria com Gavi, e "Voilà", a artista desenvolve temas ligados a renascimento, transformação e descoberta interior, consolidando uma identidade que conecta pop, elementos eletrônicos e reflexão existencial.
Com uma trajetória construída entre música e espiritualidade ao longo de décadas, Chandra Lacombe leva às composições referências das tradições orientais, da medicina sul-americana, do yoga e dos mantras. Seu trabalho solo — assim como sua história com o Udiyana Bandha, grupo que ajudou a fundar — entende a música como um instrumento de autoconhecimento e expansão da consciência.
Em projetos como Estação Bhakta e no trabalho da Fusão Divina, kalimba, percussões e elementos meditativos constroem uma experiência que ultrapassa a ideia convencional de entretenimento.
Na obra de Alessandra Leão, cantora, compositora e percussionista pernambucana, a espiritualidade está diretamente ligada à ancestralidade afro-indígena e afro-brasileira. Indicada ao Grammy Latino em 2019 pelo álbum Macumbas e Catimbós, a artista construiu uma discografia atravessada pelos saberes dos terreiros, pelos tambores e pelas tradições populares.
Seu trabalho mais recente, o single "Irôko em Montevideo", lançado em 2026, dá continuidade a essa pesquisa sobre memória, território e espiritualidade. Alessandra também integra EQUILIBRIVM como uma das convidadas de Anitta, reforçando uma ponte entre esse repertório de matriz ancestral e o debate que ganhou novo alcance no pop brasileiro.
Já a paulistana Myrella Nascimento aproxima espiritualidade, soul pop e MPB. Com mais de 25 anos de carreira independente e mais de 40 músicas lançadas, a cantora, violonista e compositora incorpora em sua identidade artística referências ao misticismo, ao sagrado feminino, à natureza, à astrologia, ao tarot, aos orixás e a diferentes manifestações de fé. A própria artista define sua sonoridade como uma mistura de soul pop e MPB "com uma pitada de misticismo", transformando experiências pessoais e conexões espirituais em parte central de seu repertório.
Para Raiane Castro, a música é um canal de leveza, amor, paz e conexão. Iniciado com "Eleva", lançado em 2025, seu atual projeto autoral nasceu, segundo a cantora, de uma espécie de chamado espiritual. "Tão Simples" dá sequência a essa proposta, ao lado de outras faixas previstas, reunindo autoconhecimento, boas energias e sentimentos positivos como eixos de criação.
A intenção é compartilhar mensagens capazes de tornar o cotidiano mais leve e empático.
Entre o pop eletrônico, a MPB, o soul, os ritmos afro-brasileiros e a música meditativa, os cinco artistas mostram que a espiritualidade não corresponde a uma única estética, religião ou tradição. Na música independente, ela se manifesta como ferramenta de identidade, fé, ancestralidade e transformação — abrindo espaço para novas formas de escuta e de conexão.
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