'Mentalidade old school': Nova Twins explicam mescla de gêneros e paixão pelos palcos
A dupla britânica se apresentou na primeira data do "Rock in Rio" e no festival paulista "É Tudo Delas", evento que reforça a discussão sobre o espaço de mulheres nos palcos de festivais
Em estreia no Brasil com shows no Rock in Rio e no festival É Tudo Delas, o duo britânico Nova Twins falou sobre sua mistura de rock, metal e hip-hop com produção orgânica ao vivo. Amy Love e Georgia South destacaram os desafios enfrentados como mulheres negras em um cenário dominado por homens brancos e celebraram o avanço da diversidade nos festivais. Empolgadas com a energia dos fãs brasileiros, as artistas também confirmaram que já trabalham no desenvolvimento de um novo projeto musical.
Pouco antes de pisarem em solo brasileiro pela primeira vez, a dupla Nova Twins conversou com a Rolling Stone Brasil sobre a trajetória de mais de uma década, a resistência que enfrentaram nos primeiros anos de carreira e a ansiedade para as apresentações no país. O duo, formado por Amy Love e Georgia South, estreou no Brasil em 4 de setembro, no primeiro dia de Rock in Rio 2026, no Palco Mundo.
🎧 Do universo de fã ao universo da música: tudo que você ama em um só lugar. Siga @terrasonora
Protagonistas femininas de uma das datas dedicadas ao rock, o duo ocupou o espaço ao lado de Rise Against, The Hives e Foo Fighters. A apresentação antecedeu a apresentação como headliners no evento É Tudo Delas, no Cine Joia, em São Paulo, no dia 6 de setembro. A programação da noite no festival paulistano também contou com a carioca MC Taya, criadora do estilo "Metal Mandrake", que mistura funk, rap, rock pesado e hardcore, além do quarteto paulistano The Mönic.
Formada em Londres em 2014, a dupla construiu uma sonoridade que atravessa rock, metal, hip-hop, R&B e música eletrônica. As garotas construíram uma rede de fãs poderosa, que inclui nomes como Amy Lee (Evanescence), Tom Morello (Rage Against the Machine, Audioslave) e Elton John. À Rolling Stone Brasil, as musicistas explicaram que a sonoridade única foi construída organicamente. "Nunca foi algo deliberado, essa mistura de gêneros. Meio que aconteceu por causa do nosso amor por tantos gêneros e estilos diferentes de música", afirmou Love. "A gente nunca se colocou limites, nem entendia direito o que era um limite até formar a banda e as pessoas começarem a dizer que a gente precisava ser mais R&B e hip-hop. E a gente pensava: não, a gente ama tudo isso."
Ver esse post no Instagram
Com 11 anos de estrada, Nova Twins também comentaram sobre o desafio de ocupar espaços historicamente dominados por homens brancos dentro do rock. Nos primeiros anos, o duo se via frequentemente como as únicas mulheres negras em determinados lineups de festivais. "Sempre sentimos que precisava dar nosso melhor show e simplesmente mostrar para todo mundo. Existe uma comunidade inteira por baixo do radar que está arrasando", relembra South.
Para a banda, o público sempre representou uma grande rede de apoio, e as barreiras enfrentadas sempre foram impostas pelos próprios espaços: "Sempre sentimos que era mais a indústria que ficava controlando quem entrava nesses lineups de festival. Mas sempre quisemos dar 110% de energia e performance e mostrar pros descrentes do que a gente é capaz".
A participação da dupla como as únicas headliners femininas na primeira data do Rock in Rio ecoa dados concretos sobre a disparidade de gênero nos palcos ao redor do mundo. No Brasil, eventos como Coala Festival, realizado no Memorial da América Latina, alcançaram grandes taxas de participação feminina. Segundo dados do levantamento Mulheres nos Festivais: diversidade de gênero e raça nos festivais brasileiros, conduzido pela pesquisadora Thabata Lima Arruda, os festivais de carnaval e música popular, respectivamente, alcançaram 73% e 50% de mulheres em seu lineup em 2024.
Entretanto, na pesquisa de 2020 da União Brasileira de Compositores (UBC), o próprio Rock in Rio foi descrito como um "Clube do Bolinha", com apenas 25% de mulheres no Palco Mundo, e a versão brasileira do Lollapalooza como ainda mais desigual, com apenas 8% de artistas femininas no Palco Budweiser. Felizmente, o cenário se encontra cada dia mais nivelado: na edição de 2026, o festival carioca registra 31,5% de atrações femininas, além de 75% da programação do Palco Mundo liderada por mulheres na data de encerramento (13 de setembro). Já o Lollapalooza Brasil teve nesse ano sua edição mais feminina da história, com cerca de 40% de artistas solo ou bandas mistas com liderança feminina no lineup global. O evento também registrou 55,5% de mulheres como headliners (5 dos 9 nomes principais do festival). "É incrível ver que hoje tem mais diversidade nos festivais. Óbvio que ainda tem um caminho longo, principalmente com mulheres sendo atrações principais", reforçou South.
Ver esse post no Instagram
O exemplo mais radical do movimento de igualdade de gênero vem de um dos nomes principais no mundo da música pop internacional. No dia 22 de junho, a cantora Olivia Rodrigo anunciou o Daisy Chain Fields, festival de estreia com lineup inteiramente feminino, reunindo Chappell Roan, Doechii, Mitski, Garbage, Bikini Kill e Die Spitz, além das convidadas especiais Stevie Nicks, Karen O e Sarah McLachlan. O evento de 29 de agosto em Irvine, na Califórnia, destinou 100% da renda líquida a organizações voltadas para causas femininas, como Planned Parenthood e o National Women's Law Center. O festival inspira-se diretamente no histórico Lilith Fair, criado por McLachlan nos anos 1990 como um dos primeiros grandes festivais itinerantes formados exclusivamente por artistas mulheres.
Foi justamente para furar a bolha de festivais liderados por homens que as Nova Twins toparam integrar o É Tudo Delas. O evento foi pensado para promover discussões musicais entre talentos femininos e ocupar um espaço historicamente negado a mulheres (sobretudo racializadas) dentro do universo do rock. A presença de MC Taya no lineup reforça esse recorte racial da discussão, já que a cantora carioca é frequentemente destacada por representar mulheres pretas dentro de um gênero musical que segue sendo um dos mais brancos e masculinos.
Para o repertório em São Paulo, a dupla trouxe um recorte generoso de sua discografia, misturando faixas de Parasites & Butterflies (2025), Supernova (2022) e Who Are the Girls? (2020), com a inclusão de sucessos como "Fire & Ice" e "Antagonist" no set. "Vocês podem ver e esperar 110% mais Nova. Estamos tão animadas e sentimos que isso vai realmente se traduzir através da nossa música. A gente sempre dá 100%, mas às vezes em shows específicos, quando você está muito animada e é algo que você está esperando há muito tempo, isso te dá aquele 10% extra", exalta Love. "Estamos animadas por fazer um dos festivais da nossa lista de desejos, fazer pela primeira vez um show como headliners [no evento] em São Paulo, e só, claro, animadas para conhecer o público e a plateia brasileira", confirmou a vocalista.
Love também destaca a popularidade do brasileiro como plateia, e a felicidade em poder conhecer esse público em primeira mão: "A gente já ouviu tantas vezes as pessoas dizendo: 'Quando vocês vêm pro Brasil, quando vocês vêm para o Brasil?' E a gente sempre respondia que ia tentar o nosso melhor pra chegar lá", afirma a cantora. "Finalmente a oportunidade apareceu, e a gente consegue se conectar com algumas das pessoas que estão acompanhando nossa jornada há um tempo. E obviamente, uma plateia completamente nova também. Então, e a gente sabe, já ouviu tantas vezes que o público brasileiro é uma das melhores plateias. Então mal podemos esperar para chegar e tocar!" Sobre a energia do público esperado, South fez questão de destacar a segurança dos fãs e a comunidade amorosa desenvolvida: "Sinto que nosso público é tão legal. Tem moshpit para todo mundo. É um moshpit muito gentil, cheio de amor."
Ver esse post no Instagram
A conversa também passou pela estética sonora que já é marca registrada da dupla, construída sobre pedais e efeitos manipulados inteiramente ao vivo, sem faixas pré-gravadas de baixo ou guitarra. "Acho que acabamos saindo um pouco da caixa, mas na verdade éramos apenas nós sendo engenhosas como uma dupla. Porque tem tanto espaço que você pode explorar com duas pessoas, e você precisa que soe tão amplo que pareça tem cinco pessoas ali quando só tem a gente. Então foi mais pensando tipo, 'como a gente faz isso soar tão amplo e espalhado?'", explica a baixista South. "Então nesses festivais e coisas do tipo, parece que tem um monte de gente ali em cima, e a gente ama tantos tipos diferentes de música, seja música eletrônica e hip-hop até rock e punk. Então tudo isso foi parar nos efeitos e como pode soar como se estivesse sendo produzido, mas ao vivo manualmente, em pedais e coisas assim."
"Não tem baixo nem guitarra gravados nas faixas, tudo é ao vivo. Então qualquer coisa pode acontecer durante o show, o que deixa tudo mais emocionante", reforça South. "A gente tem uma mentalidade meio old school nesse sentido, onde a gente não depende de faixas gravadas assim. Isso só deixa o show mais emocionante, tudo fica na corda bamba e sapateando." Love afirma que o fenômeno do improviso é ainda mais especial em festivais, onde apresentam seu material para um público que talvez desconheça o repertório: "A gente gosta muito de mudar os arranjos, geralmente adicionando novos breakdowns, às vezes versos novos, tudo novo. Estamos muito, muito animadas para trazer isso pra vocês."
As artistas aproveitaram a conversa para confirmar que já estão trabalhando em material inédito. "Estamos trabalhando em música nova no momento. Então definitivamente estamos organizando isso. A gente não sabe datas específicas, então não queremos prometer nada, mas definitivamente estamos trabalhando em direção a um projeto, o que nos deixa animadas", revelou South.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.