Jack Johnson: "o público brasileiro tem a maior energia que já vi"
- Bruna Carolina Carvalho
Com a mesma singeleza e tranquilidade que transmite em suas músicas, que falam de panquecas de bananas e bicicletas desenhadas com flores, o cantor Jack Johnson conversou com o Terra por telefone sobre sua carreira e sobre os shows que fará no Brasil entre 21 de maio e 6 de junho. Sua primeira apresentação no País será no festival Natura Nós, em São Paulo, seguindo para Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Florianópolis e Rio de Janeiro.
Bem-humorado, Jack elogiou o público brasileiro, tido por ele como o "com a maior energia" que já viu, e prometeu fazer no palco alguns covers, que podem ir de White Stripes a Jimi Hendrix, passando por Sublime.
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Apesar de desmentir que se encontraria com a presidente Dilma Rousseff e comentar que "não participa muito de política", Jack não é um músico alheio. Mantenedor da fundação Johnson Ohana Charitable Foundation, ele doará todo o lucro de sua turnê para ONGs que promovem a educação e ajudam a manter o meio ambiente. "Eu não era capaz de fazer isso. Havia um tempo em que o dinheiro que nós conseguíamos nas turnês era para as nossas famílias. Nós temos muita sorte de poder contar com o apoio dos nossos fãs. A gente consegue se manter com a venda de CDs".
Jack foge do estereótipo do astro que gosta de badalação, festas e mulheres, e parece preferir estar em sua casa no Havaí do que estar em qualquer outro lugar no mundo. Durante a conversa, ele falou de sua mulher e seus filhos. "A principal inspiração está no que acontece na vida, dia após dia. As músicas de amor são para minha mulher, para tentar fazê-la rir", disse o cantor sobre Kim, com quem está junto há 17 anos.
Confira a entrevista na íntegra:
Terra - Do que você mais lembra do último show que fez no Brasil em 2006?
Jack Johnson - Além do show, que foi bastante memorável, eu lembro que a plateia tinha muita energia. Em alguns lugares é assim, mas nós já tínhamos ouvido dizer como os brasileiros realmente cantam junto e participam. Nós ficamos impressionados com a energia que a plateia nos deu. Honestamente, o público brasileiro tem a maior energia que já vi. Eu lembro também que, durante a nossa passagem no Brasil, fomos a uma loja de baterias em São Paulo e foi muito legal. Tinham muitos instrumentos de percussão feitos à mão. A banda toda teve um dia muito legal, o dono da loja nos mostrou tudo e nos deixou tocar os instrumentos. Foi uma dia memorável para mim também.
E o que podemos esperar de diferente nesse show agora?
Nós temos mais três álbuns agora, se você incluir o Curious George (trilha sonora do filme George, o Curioso) desde o último show. Então, temos algumas músicas novas, alguns covers novos. Também, o pianista, em 2006, era novo na banda. Aquele foi um dos primeiros shows que ele fazia com a gente. Ele continua na banda, e, com certeza, incorporou algo de sua energia ao nosso set list. A nossa banda é formada pelos mesmos integrantes desde 2001 e nos tornamos cada vez melhores.
Que covers vocês vão fazer por aqui?
Ainda não sabemos. A gente muda isso de show para show. Às vezes, tocamos Sublime, ou White Stripes, até Jimi Hendrix. Pode ser qualquer um. Ainda não tenho certeza.
Você vai doar 100% dos lucros dos seus shows aqui no Brasil para ONGs. Já faz isso há muito tempo? Fez em outros países?
Em 2008, nós começamos a doar 100% dos nossos rendimentos para caridade. E fazemos isso em vários países do mundo. Geralmente funciona assim: enquanto estamos em turnê, nós doamos para os grupos dos lugares onde estamos tocando. É um pouco mais fácil para nós estabelecermos isso nos Estados Unidos, por conta da maneira que as organizações sem fins lucrativos funcionam. No Brasil, também vamos doar dinheiro da nossa turnê para fundações. O dinheiro que sobra colocamos em um fundo que é também revertido para a caridade no final do ano. É uma espécie de fundação permanente que começamos e espero que possamos ajudar para sempre.
Pode-se dizer que o dinheiro não é o que te motiva a trabalhar?
Ah, você sabe, nós temos sorte. Eu não era capaz de fazer isso. Havia um tempo em que o dinheiro que conseguíamos nas turnês era para manter nossas famílias. Temos muita sorte por poder contar com o apoio dos nossos fãs. A gente consegue se manter com a venda de CDs. Essa, aliás, é uma das razões que nos mantêm em turnê. Eu comecei a ficar confuso sobre por que ir para a estrada. Tem momentos em que gosto, mas em outros, eu preferiria ficar em casa. Só que percebo que essa é uma grande oportunidade de ajudar todos esses grupos e também é uma grande oportunidade para as nossas famílias viajarem, conhecerem lugares novos.
Saiu nos noticiários que você teria pedido para encontrar a presidente Dilma Rousseff. Isso é verdade?
Isso foi um boato. Eu não disse isso, mas gostaria de conhecê-la e parabenizá-la, pois ouvi dizer que ela é a primeira mulher presidente do Brasil. Na verdade, nunca disse que queria conhecê-la, mas eu não me oporia a dizer um 'olá'. Não participo muito de política. É só um boato.
Nesse novo álbum, To The Sea, nós podemos notar, logo na primeira música, um pouco mais de guitarra elétrica do que estamos acostumados a ouvir de você. Como artista, acredita que em algum momento de sua carreira será necessário se renovar? Você tem vontade de fazer algo completamente diferente do que já fez?
Eu acho que é muito importante para qualquer compositor se cobrar cada vez mais pelo seu trabalho. A música que fazemos é muito tradicional, é meio acústica, feita em casa. Eu acho que nas vezes em que quis experimentar algo, fui lá e fiz. Nesse último álbum, nós não queríamos tocar só violão e isso aconteceu de maneira perfeitamente natural. Mas eu não acho que (nossa música) vai ficar muito mais diferente que isso. Provavelmente, voltaremos a fazer algo mais acústico no próximo álbum.
Suas músicas geralmente tratam de temas bem singelos e ligados ao dia a dia. Quais são suas fontes de inspiração e suas principais influências?
A principal inspiração está no que acontece na vida, dia após dia. As músicas de amor são para minha mulher, para tentar fazê-la rir. Já as músicas sobre separações são inspiradas em meus amigos que, de tempos em tempos, terminam seus relacionamentos. Eu e minha mulher estamos juntos há 17 anos, então as canções sobre separações não são baseadas nas minhas experiências pessoais. Agora, falando de músicos... um músico que me inspirou foi Greg Brown. Ele é um compositor que influenciou muito meu estilo. Ele faz algo parecido com folk, meio blues, com guitarras acústicas. Ele fala sobre as coisas simples do dia a dia que são muito pessoais para ele, mas ao mesmo tempo, são muito amplas. Eu acho que é mais ou menos isso que acontece com as minhas músicas. Elas são inspiradas em experiências pessoais, mas as pessoas se sentem conectadas a elas.
Você tem planos para o futuro? Algum álbum a caminho?
Não, nenhum álbum. Nós temos uma turnê na Europa depois da passagem pelo Brasil e, então, vamos voltar ao Havaí por um tempo, para ficar com a família.
Você é cantor, faz filmes (Jack já fez alguns documentários sobre surf, como A September Sessions) e surfa. Quando não está fazendo nada disso, o que gosta de fazer?
Quando não estou fazendo tudo isso, estou com meus filhos. Qualquer pai sabe o quanto os filhos nos mantêm ocupados. No meu tempo livre, geralmente estou com eles e surfo também. Gosto de usar meu tempo livre para surfar.
Conhece alguma praia no Brasil?
Eu ouvi falar bastante de Florianópolis.
Pretende surfar por aqui?
Nós teremos alguns dias de folga e eu pretendo surfar. Mesmo no dia em que tivermos show, espero que a gente consiga surfar também. Nós não precisamos passar muito o som, porque estamos nessa turnê há algum tempo e a banda já toca junto há muito tempo.
As pessoas geralmente costumam rotular sua música como surf music. Esse tipo de rótulo te incomoda?
Na verdade, não ligo para como as pessoas chamam (minha música). Eu acho que é um tipo de música completamente diferente da tradicional surf music, como o The Beach Boys, por exemplo. Acho que é mais um folk. Talvez por eu ter crescido em uma comunidade de surf e por surfar, as pessoas fizeram essa conexão.