Harry Styles faz um retorno triunfal na estreia da turnê em Amsterdã
'Eu envelheci e o palco ficou maior', diz o cantor enquanto sua Together, Together Tour começa em Amsterdã
Por fim, as palavras que o mundo esperou três anos para ouvir: "Boa noite — meu nome é Harry. É um absoluto prazer estar aqui com vocês esta noite. Esta é a Noite Um da Together, Together Tour". Harry Styles está de volta, e com tudo. Seu estouro de sábado à noite em Amsterdã inaugurou oficialmente a primeira temporada de shows do Harry desde que a recordista Love On Tour terminou em julho de 2023 — uma pausa impensavelmente longa para o maior esmagador de multidões do mega-pop. Como ele brincou logo no começo: "Eu envelheci e o palco ficou maior".
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Harry celebrou o início de sua enorme nova jornada Together, Together diante de uma multidão de 56 mil fãs frenéticos. Ninguém poderia dizer que esse garoto não fez falta. Andando por Amsterdã nos dois dias anteriores, dava para perceber quem estava na cidade por causa do show do Harry só pelos olhos. Eles estavam saindo da jaula — e sedentos por sangue.
E Harry também. Ele transformou a noite em um triunfo de retorno. Era impossível não notar o quanto ele estava faminto por voltar ao palco, cara a cara com seu público. Foi o tipo de espetáculo pop que deixa penas espalhadas pelo chão e uma histeria pairando no ar. Ele se concentrou nas músicas do seu novo álbum Kiss All The Time. Disco, Occasionally. Essas canções foram feitas para o ao vivo — ouvi-las num salão gigante cheio de desconhecidos é o jeito que elas sempre deveriam ser vividas. A banda cresceu: agora tem metais, dançarinos, backing vocals e — em algumas músicas — uma seção de cordas, com quase 20 músicos no palco.
"Nenhuma dessas músicas existiria se não fosse sobre estar aberto às coisas e deixar as coisas entrarem na sua vida", ele disse à plateia. "Às vezes, largar o celular e sair para uma noite pode mudar sua vida. Parece até bobo, mas é verdade. Mudou a MINHA vida. E VOCÊS mudaram a minha vida, de novo e de novo".
Se alguém precisava de prova, um dos inúmeros picos do show foi: "Treat People With Kindness", uma música que ninguém viu chegando, mas que explodriu em um coro coletivo jubiloso — o hino que fez os fãs na pista jogarem bolsas e casacos num monte para poderem dar as mãos e dançar em círculo, meio bruxo, ao redor. Harry transformou isso num mash-up oitentista com o clássico do Talking Heads "This Must Be The Place (Naive Melody)", cantando o primeiro verso inteiro. ("Less we say about it the better / Make it up as we go along" — existe sentimento mais Harry do que esse?)
https://www.youtube.com/watch?v=hvBnnGDgmMQ
A banda elevou a música a um groove global, cheio de soukous da África Ocidental e mbaqanga sul-africano, enquanto os metais sopravam o riff de "You Can Call Me Al", do Paul Simon. Foi o resumo da ambição meio doida do Harry e da sua calorosidade — obra de um maluco que mal podia esperar para voltar ao palco e começar a se exibir.
Era o começo de uma sequência de 10 noites na Johan Cruijff Arena, em Amsterdã. A turnê de 67 datas tem Harry fazendo residências em sete cidades pelo mundo, até o fim de 2026. Depois de Amsterdã, vem Londres (12 noites no Wembley Stadium), São Paulo, Cidade do México, Nova York, Melbourne e Sydney. As únicas datas nos EUA são sua temporada de 30 noites no Madison Square Garden, em NYC, onde ele já tem uma faixa pendurada para comemorar a última passagem por lá, com 15 shows esgotados.
Ele passou boa parte da noite desenvolvendo o conceito de KissCo, inspirado em dançar até o amanhecer nos clubes eletro de Berlim. "A razão de estarmos nessa turnê", explicou no começo, "a razão de eu ter feito esse último álbum, é sobre estarmos juntos, compartilharmos momentos juntos, nos divertirmos juntos. E é isso que queremos fazer aqui esta noite. Eu desafio vocês a se divertirem tanto quanto eu vou me divertir".
O palco gigantesco tinha uma passarela no meio, mas também uma bem mais longa, que se estendia por toda a pista, para ele ficar perto do público em cada canto do lugar. Apesar do nome, a Johan Cruijff Arena é um estádio de futebol colossal. (O time da casa é o AFC Ajax, então uma faixa do lado de fora declarava: "Ajax All The Time, Disco Occasionally".) A vastidão desse palco deixava claro por que ele está fazendo residências em vez de levar tudo de cidade em cidade — em tamanho, é comparável ao Wall of Sound do Grateful Dead.
Harry passou metade do show na passarela — a quantidade absurda de corrida que ele fez a noite inteira foi comparável às maratonas de Berlim e Tóquio somadas. No final, em "As It Was", depois de já ter dançado por duas horas, ele fez três voltas extras correndo ao redor do estádio inteiro. (Seu amigo de Runner's World, Haruki Murakami, ficaria orgulhoso.) Em turnês anteriores, as passarelas do Harry tinham degraus para ele subir — uma cena cômica, porque ele sempre ignorava as escadas e simplesmente pulava por cima. Mas essas passarelas não têm degraus — nada para desacelerá-lo.
Harry vestia uma camisa azul com uma gravata caleidoscópica e calça social preta, e, no começo, uma jaqueta de couro vermelha. A noite começou com o novo tema de entrada: a versão de 1972 do Elvis Presley de "Bridge Over Troubled Water". Foi o primeiro tributo a Paul Simon da noite, mas definitivamente não o último. Era uma escolha apropriada, já que uma das inspirações centrais de KissCo foi tocar seus favoritos de infância, Simon & Garfunkel, para uma amiga que nunca tinha ouvido, e ver a alegria dela lembrá-lo de quando ele se apaixonou por música pela primeira vez. Isso levou a um vídeo em que ele caminha sozinho no jardim, enquanto uma voz feminina pergunta ao telefone: "Harry, você vai sair hoje?" Ele entrou no palco com a nova "Are You Listening Yet?" e deixou a plateia assumir o canto nas linhas "If you must join a movement, make sure there's dancing" — um lema para a noite.
O show foi habilmente ritmado, com vários hits logo de cara para dar o tom — o rush coletivo de serotonina bateu de verdade quando ele pegou a guitarra na segunda música, o hino ensolarado da Fine Line "Golden". O "Ato Um", como ele chamou, teve certezas como "Adore You", "Music For a Sushi Restaurant" e "Watermelon Sugar". A primeira metade foi basicamente a parte Kiss All the Time — depois veio a disco. Era uma mistura da intimidade calorosa dos shows de Fine Line com o brilho de pista de dança da turnê de Harry's House.
Ele sentou ao piano para a balada arrebatadora "Coming Up Roses", com a seção de cordas, deixando o público carregar o canto sem palavras do final. Isso abriu caminho para uma versão orquestral de uma das surpresas mais mata-plateia da noite: a balada de coração partido "Fine Line". É uma favorita dos fãs que ele deixou de lado na maior parte da era Harry's House, trazendo de volta apenas nos dois últimos meses da Love on Tour.
https://www.youtube.com/watch?v=CbhKuuJDG3I
"Essa é uma música que eu costumava tocar no fim do show", disse Harry antes de "Fine Line", segurando seu violão acústico azul "galaxy". "Porque parecia uma música sobre o fim de alguma coisa". Isso foi o bastante para provocar suspiros altos de dor de pessoas que, de repente, perceberam o que vinha. (A fã na minha frente disse à amiga: "Ele é TÃO maldoso!") "Mas, na verdade", acrescentou Harry, "estar em lugares assim, eu estou mais esperançoso do que nunca, e parece o começo de alguma coisa. Então isso vai terminar o que a gente gosta de chamar de 'Ato Um'. E aí a gente vai começar a dançar", completando: "Aqui vai uma música para quando você chegar em casa". Mas quando ele deu a primeira batida em "Fine Line", foi como despejar sangue fresco numa piscina de tubarões.
A festa do Ato Dois passou por boa parte do novo álbum, queimando energia de "queremos dançar com todos os nossos amigos". Se você é um dos muitos fãs que tiveram dificuldade de se conectar com KissCo, de longe seu álbum mais divisivo, as músicas explodem ao vivo — especialmente pancadas como "Ready Steady Go" e "Pop". "Italian Girls" é uma jam instrumental nova, em estilo techno, que flui para "American Girls". "Taste Back" trouxe o sabor rave dos anos 1990 com um trecho do clássico "Born Slippy", do Underworld (lager-lager-lager).
"Dance No More" começou com uma coreografia intrincada para Harry e dois dançarinos, desfilando pela passarela ao som da introdução de "Rapper's Delight", do Sugarhill Gang. "Carla's Song" (inspirada na amiga da vida real a quem ele apresentou Simon & Garfunkel) virou um medley com "Satellite", destaque de Harry's House — um par perfeito. Ouvir "Aperture" decolar com a banda ao vivo, com 56 mil vozes cantando o pulsar do sintetizador "ah-ah-ah-ah" em uníssono — não poderia ser uma declaração de missão mais concisa de tudo o que ele está tentando dizer nessas músicas.
https://www.youtube.com/watch?v=YVB4v5_1Hy8
O público usava mais gravatas do que boas de penas, embora houvesse muitas delas também. (Também havia algumas camisetas do Liam Payne, uma visão comovente.) Muitos vestiam camisetas com "Sted Sarandos", o pseudônimo que Harry usou para correr a Maratona de Berlim no ano passado. Ele continuou brincando com os fãs, com seu costumeiro papo e interação, ajudando uma pessoa a localizar a mãe perdida. ("Mãe da Theresa, você está aqui?") Melhor cartaz de fã: "Um pássaro acabou de cagar na minha cabeça no caminho pra cá, posso ter um setlist?" Tomara que tenha ganhado um.
Para um astro que anda tímido com entrevistas, ele adora discorrer sobre a premissa filosófica de KissCo e do espetáculo Together, Together. "Eu acho que a gente vive num tempo em que às vezes não parece muito legal tentar", ele disse. "Mas eu acho que tentar é a coisa mais legal que você pode fazer. Quando eu estou nesses lugares com vocês, eu vejo como vocês tratam uns aos outros e como vocês TENTAM uns com os outros — vocês dançam com um amigo, vocês dançam com um estranho. É disso que se trata. É sobre estar aberto às pessoas, estar aberto com seus amigos, estar aberto com estranhos".
Ele bateu nessa tecla repetidamente — a importância da música como experiência comunitária. "Eu quero dizer obrigado a todos os meus amigos que me levaram pra dançar nos últimos dois anos", ele acrescentou perto do fim. "E a todos os estranhos que tiveram que dançar comigo". O público sentiu essas palavras fundo. "Eu acho que, num mundo onde a gente é cercado por tanto barulho, seja onde for — na internet ou na sua vida — isso acontece com todos nós e afeta todos nós". Mas ele completou: "Eu quero que vocês sintam o que é isso, estar nessa sala com um monte de gente que ama vocês esta noite, e lembrar que a única coisa a fazer é viver e existir com sua integridade, seu respeito e sua dignidade".
Ver Bruce Springsteen e Harry Styles na mesma semana é uma revelação do poder da música ao vivo. Dois shows muito diferentes, com humores muito distintos, mas duas noites inspiradoras que provam que não há substituto para o entusiasmo humano — quanto mais ridículo, melhor. Ambos demonstraram os milagres que só podem acontecer numa sala cheia de fanáticos por música, no confronto cara a cara entre artista e público, quando ambos estão igualmente possuídos por essa fome inextinguível, irracional, apaixonada e perigosíssima por música. Ver esses dois showmen trabalharem de forma absurda para provar isso a noite toda — e ver o público estar à altura desse desafio e ainda mais — é um lembrete oportuno de por que, mesmo na nossa era de febre do pontinho azul e monopólios de ingressos de barões ladrões, a música ao vivo continua sendo um êxtase humano que sempre vale a pena.
https://www.youtube.com/watch?v=StfOCeya5K8
Para o bis, a seção de cordas voltou para "Matilda", em um novo arranjo exuberante. É sempre tão comovente ver o impacto dessa música numa plateia, com grupos de amigos se juntando para chorar, cantar e se abraçar. (O guitarrista Mitch Rowland contou à Rolling Stone EUA que nunca conseguiu tocar "Matilda" de frente para o público, porque a emoção é intensa demais para testemunhar — e ele ainda não consegue.) Ele encerrou de vez com "Sign of the Times", a balada glam-soul ao piano que abriu sua carreira solo depois do One Direction e apontou seu futuro. "As It Was", seu maior hit, foi o final inevitável. Então por que Harry sentiu necessidade de fechar a música correndo três voltas extras ao redor de todo o piso? ("Porque ele é insano" é uma resposta aceitável.)
O show acabou, mas ninguém queria ir embora, mesmo depois que as luzes da casa acenderam. A música de saída já estava tocando: num verdadeiro movimento de poder oitentista, era uma faixa menos conhecida dos lendários do synth-pop Orchestral Manoeuvres in the Dark, "Of All The Things We've Made". Isso emendou com o clássico do piano-jazz que costumava servir como tema de entrada por muito tempo, "Peace Piece", de Bill Evans, de 1958. Ainda assim, todo mundo continuou ali, aplaudindo ou só ouvindo — alguns, sem dúvida, esperando que ele voltasse para tocar "Kiwi", seu antigo encerramento (sempre liberando o caos mais violentamente maravilhoso de moshpit), mas a maioria simplesmente absorvendo o clima comunitário. Depois de três anos, foi um banquete de algo que todo mundo estava faminto, mais do que a gente percebia. A noite inteira foi um retorno há muito aguardado tanto para Harry quanto para seu público. E os dois exageraram para fazer valer a espera.
Setlist
"Are You Listening Yet?"
"Golden"
"Adore"
"Watermelon Sugar"
"Music for a Sushi Restaurant"
"Taste Back"
"Coming Up Roses" (com cordas)
"Fine Line" (com cordas)
"Italian Girls"
"American Girls"
"Keep Driving"
"Ready Steady Go"
"Dance No More"
"Treat People With Kindness"/"This Must Be The Place"
"Pop"
"Season 2 Weight Loss"
"Carla's Song"/"Satellite"
"Aperture"
Bis:
"Matilda"
"Sign of the Times"
"As It Was"
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