'Foreign Tongues' é mais um capítulo vencedor na carreira dos Rolling Stones
Sequência espiritual de — e ligeiramente inferior a — 'Hackney Diamonds', novo álbum da lendária banda traz guitarras em primeiro plano, conteúdo lírico sofisticado e Mick Jagger em altíssimo nível
Em 2023, os Rolling Stones surpreenderam ao anunciar e lançar Hackney Diamonds, seu primeiro álbum de inéditas em 18 anos. Não é como se a banda estivesse parada nesse tempo todo: além de incontáveis turnês, eles disponibilizaram um disco de covers de blues (Blue & Lonesome, 2016) e as canções soltas "Doom and Gloom" e "One More Shot", como parte da coletânea GRRR! (2012).
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Aliás, os Stones nunca pararam — nem mesmo em períodos de briga entre o vocalista Mick Jagger e o guitarrista Keith Richards, únicos membros originais remanescentes. Mas um álbum cheio de novas composições tem sabor diferente. É um atestado de que um artista segue criativo, mesmo nos estágios mais avançados de sua carreira. De forma justa, o ótimo Hackney Diamonds recebeu aclamação crítica e comercial, com direito a chegar ao topo das paradas de 20 países.
https://www.youtube.com/watch?v=uIM6FotLWuA
Ainda naquela época, Jagger, Richards e o também guitarrista Ronnie Wood avisaram: um novo disco seria feito e lançado pouco tempo depois. Muitos não acreditaram, mas de fato eles voltaram a unir forças com o produtor Andrew Watt (44 anos mais jovem que o "novato" do grupo, Wood) e conceberam outra obra.
Não do zero. Foreign Tongues, que chega a público nesta sexta-feira, 10, guarda inúmeras semelhanças com Hackney Diamonds. A depender do gosto, soa como uma continuação natural ou seleção de sobras do disco anterior. Ainda assim, o novo trabalho apresenta alguns diferenciais importantes.
O primeiro está na retomada de Darryl Jones. Baixista "não oficial" em estúdio e turnês desde 1993, o americano esteve fora de Hackney Diamonds, já que o instrumento foi assumido por Watt, Richards e Wood. Agora, ele se faz presente em quase todas as faixas e contribui de forma substancial para o saboroso tempero pop/R&B de "Jealous Lover" e a veia disco music de "Never Wanna Lose You".
https://www.youtube.com/watch?v=0IOL-vfkpJM
Além disso, Foreign Tongues traz presença maior de guitarras, uso mais discreto dos convidados especiais — exceto por Steve Winwood, subestimado ícone do Traffic e Blind Faith responsável por teclados e órgãos de nove faixas — e um conteúdo lírico mais ácido. Exemplos?
- Na despojada "Mr. Charm", que seria muito interessante de se ouvir ao vivo, Jagger cita diretamente o "magnata enlouquecido" Elon Musk;
- "Divine Intervention", com seu refrão pegajoso e decisiva participação de Robert Smith (The Cure) na guitarra, reflete sobre "bilionários todos se apressando, correndo desesperados para seus refúgios nos céus";
- por sua vez, a country/folk "Ringing Hollow" faz o cantor admitir uma paixão pelos Estados Unidos do passado que não se mantém na atualidade. "A Estátua da Liberdade está de cara feia", constata o inglês de 82 anos, por 19 deles residente de Nova York.
https://www.youtube.com/watch?v=i6co9VNzHDM
Mick Jagger, aliás, é o destaque individual de Foreign Tongues. Não apenas pela lucidez de suas letras: ele ainda canta uma barbaridade. Os falsetes de "Jealous Lover", sua condução enérgica na no blues rudimentar de abertura "Rough and Twisted" (no qual Steve Jordan também chama atenção), a capacidade de interpretação demonstrada em "Mr. Charm"... e o que dizer da versão para "You Know I'm No Good", de Amy Winehouse? Os vocais em alto nível no tom original da canção se mostram tão interessantes quanto seu solo de gaita emulando os metais.
Os demais envolvidos não ficam tão atrás. Como destacado, este álbum traz presença mais pulsante das guitarras. Keith Richards segue uma potência nos riffs bluesy e ainda assume vocais na balada "Some of Us", enquanto Ronnie Wood oferece solos, licks e arranjos até mais inspirados que os escutados em Hackney Diamonds. Darryl Jones fez a diferença e Steve Jordan mostrou-se, novamente, capaz de ocupar a vaga que um dia foi de Charlie Watts — baterista falecido em 2021 e ouvido na visceral "Hit Me in the Head", quase um garage rock.
https://www.youtube.com/watch?v=Oy7qysvQKLM
Comparado por Wood a Jimmy Miller, Andrew Watt assume o baixo da faixa citada, além de guitarra em outras sete canções. É o tipo de produtor que se envolve bastante com a obra e, segundo relatos dos próprios Stones, não tem medo de dar bronca em ninguém. Se peca um pouco em masterização e outros aspectos mais técnicos, Watt acerta — e muito — no trabalho de pré-produção e na seleção do repertório.
Esta última, porém, é a única pequena fragilidade de Foreign Tongues na comparação com Hackney Diamonds. O novo álbum perde força em seu terço final, após a releitura de "You Know I'm No Good". Mesmo "Covered in You", com baixo muito bem gravado por Paul McCartney, soa deslocada devido aos vocais majoritariamente rap de Mick Jagger. Ao menos o número derradeiro — uma versão para "Beautiful Delilah" (Chuck Berry) à base de voz e violões blueseiros — retoma a consistência das nove primeiras faixas.
Não seria maluquice esperar outro disco dos Rolling Stones após Foreign Tongues. Nunca se sabe. No entanto, Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood sabem que, a essa altura, planos de longo prazo são ineficazes. A ideia é retomar a agenda de shows em 2027, possivelmente em temporadas de residente, para reduzir viagens e desgaste do trio. Mas que seria delicioso ter mais álbuns como Hackney Diamonds e este, seria, sim.
https://open.spotify.com/album/6jfU2DEetUUo8nmxrzwkhc
Rolling Stones — Foreign Tongues
Tracklist:
1. Rough and Twisted
2. In The Stars
3. Jealous Lover
4. Mr. Charm
5. Divine Intervention
6. Ringing Hollow
7. Never Wanna Lose You
8. Hit Me In The Head
9. You Know I'm No Good
10. Some Of Us
11. Covered In You
12. Side Effects
13. Back In Your Life
14. Beautiful Delilah
Músicos:
- Mick Jagger - vocais (faixas 1 a 9, 11 a 14), vocais de apoio (1 a 12), guitarra elétrica (1, 2, 4, 5, 7, 8, 11, 14), gaita (1, 8, 9, 11), violão (2, 5, 6, 11), percussão (4, 5, 7, 12)
- Keith Richards - guitarra (todas as faixas), vocais de apoio (faixas 2, 4, 6, 11, 12), violão (4, 9, 10), piano (8), vocais principais (10, 14)
- Ronnie Wood - guitarra (faixas 1 a 13), baixo (1, 2), vocais de apoio (4, 10)
- Charlie Watts - bateria (faixa 8)
Músicos adicionais:
- Steve Jordan - bateria (faixas 1 a 7, 9 a 13), percussão (4, 9)
- Andrew Watt - guitarra (faixas 1 a 4, 9, 11, 13), vocais de apoio (1, 2, 5, 7, 9, 10, 12), percussão (2, 8, 11 a 13), violão (3, 12, 13), piano (3, 4, 9), sintetizador (3, 5, 7, 12), baixo (8)
- Matt Clifford - piano (faixas 1, 2, 11), órgão (1), sintetizador (3, 11), piano Rhodes (9, 11)
- James King - saxofone tenor (faixas 1, 5, 9, 13), saxofone alto (5, 13), saxofone barítono (9)
- Ben Waters - piano (faixa 1)
- Benmont Tench - órgão (faixas 2, 10)
- Darryl Jones - baixo (faixas 3 a 7, 9, 10, 12, 13)
- Steve Winwood - órgão (faixas 3 a 6, 9, 12, 13), piano Rhodes (3, 7), piano (5 a 7, 10, 12, 13)
- Naarai Jacobs - vocais de apoio (faixa 4)
- Robert Smith - guitarra elétrica (faixa 5), vocais de apoio (7), sintetizador (7)
- Ron Blake - trompete (faixas 5, 9, 13), flugelhorn (13)
- Bruno Mars - cowbell (faixa 7)
- Paul McCartney - baixo (faixa 11)
- Chad Smith - bumbo de concerto (faixa 14)
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