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'É uma estrada longa, longa, irmão': como Ringo Starr encontrou nova inspiração em Nashville

O baterista dos Beatles celebra sua renascença na música country com o novo LP Long Long Road, certamente o melhor álbum já feito por alguém de 85 anos

6 abr 2026 - 08h57
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É bom saber que uma coisa neste mundo maluco nunca muda: Ringo Starr continua sendo o homem mais encantador do planeta. A lenda dos Beatles talvez seja a figura mais universalmente querida do mundo da música, mas mesmo aos 85 anos, ainda tem mais canções dentro de si. Enquanto gargalha, diz: "É como minha neta de quatro anos fala: 'Siri, toca Ringo!'".

Foto: Jason Kempin/Getty Images / Rolling Stone Brasil

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Ringo está se preparando para lançar seu novo álbum country, Long Long Road, com o single "Choose Love" disponível hoje. Ele o fez com o produtor T Bone Burnett, um ano após a aclamada colaboração deles em Nashville, Look Up. "Eu amo música country, então não foi difícil", diz Ringo. Mas ele recebe uma ajudinha dos amigos, incluindo jovens artistas de vanguarda como Molly Tuttle e Billy Strings, além de estrelas como Sheryl Crow e St. Vincent.

A vitalidade incansável de Ringo é um assombro, 60 anos depois de o homem ter cantado "Yellow Submarine". Quando você o vê no palco hoje em dia, ele é um turbilhão, em movimento o tempo todo. Isso levanta a pergunta: Ringo concordaria que ainda é o melhor dançarino do rock & roll? "Sim, eu concordo", diz ele. "Eu só sou, tipo, um cara que se mexe".

Ele é realmente uma inspiração: passa o show tocando bateria ou rebolando, quando provavelmente poderia se virar com uma poltrona. "Isso seria tão bom", diz ele. "A cadeira da bateria é como uma poltrona: 'OK, vamos lááá.' Não, você tem que ficar ereto e entrar na vibe".

Long Long Road mostra que Ringo continua na mesma pegada, como sempre. Ele surpreendeu todo mundo no ano passado com Look Up, seu primeiro disco country desde a joia solo de 1970, Beaucoups of Blues (1970). Mas ele soa revigorado ao fazer um álbum de Nashville que é legitimamente atual, com músicos na ponta. "É quem ele é", diz Burnett. "Ele tem sido um agregador há muito tempo, e um colaborador".

Em Long Long Road, com lançamento previsto para quinta, 24, ele toca com um elenco de novos renegados da palhetada, incluindo Tuttle, Strings e Sarah Jarosz. "Não é demais?", diz Ringo. "Molly foi tão incrível, e Billy Strings é sensacional. Que recepção maravilhosa eu tive quando fui a Nashville. Foi uma experiência ótima, então a gente simplesmente seguiu e fez outro".

https://www.youtube.com/watch?v=3iFVHH66ytI

O single "Choose Love" é uma versão com mais twang da faixa-título do álbum dele de 2005, em que Ringo canta a linha: "The long and winding road is more than a song". Essa frase ainda ressoa para ele. "É uma estrada longa, longa, irmão", diz ele. "É meio que a minha vida: sair de Liverpool, morar em Londres, chegar a Nova York, vir para L.A. Por isso eu quero chamar de Long Long Road. Eu nem ia chamar de 'It's a …' porque isso já dá a ideia de comprimento. Só Long Long Road pode seguir para sempre".

Ringo irradia toda a sua famosa sabedoria e alegria, além de sua risada que sacode paredes. (Como John Lennon lhe disse em A Hard Day's Night (1964): "Você é um chacoalhador de janelas, rapaz".) Hoje, a tela do Zoom dele tem como fundo uma praia tropical com palmeiras. "Gosto de deixar isso aqui", diz ele. "É um pano de fundo para o inverno. Aí, quando o verão chega, a gente coloca outra coisa". Ele solta provérbios ringosóficos como: "Eu só acordo de manhã, faço minhas coisas e faço minhas coisas".

No ano passado, ele estreou no Grand Ole Opry, a convite de Emmylou Harris. Ele cantou "Act Naturally", o clássico de Buck Owens que ele entoa no Help! (1965) dos Beatles. Ele também filmou o especial Ringo & Friends at the Ryman, com estrelas que vão de Brenda Lee a Rodney Crowell e Jack White, que cantou "Don't Pass Me By". (Tuttle ficou com "Octopus's Garden".) O especial do Ryman também teve uma homenagem de um velho parceiro, Paul McCartney, que entende de estradas longas e sinuosas. Como Macca disse: "Ele foi o primeiro cara nos Beatles a realmente nos apresentar à música country".

O novo álbum continua a Ringossance nashvilliana dele. "Gosto de pensar que fiz o movimento certo, virei na direção certa", diz. "Como aconteceu foi que fomos ouvir Olivia Harrison lendo o livro dela, Came the Lightning, os poemas dela para George. Tinha umas 50 pessoas lá, e uma delas era o T Bone, com quem eu já me esbarrei muitas vezes desde os anos 70". Ele pediu a Burnett que escrevesse uma música para ele, mas ganhou mais do que esperava. "Ele mandou uma faixa country. Eu disse: 'Beleza, então vou fazer um EP country agora?' Mas aí ele veio para a cidade, a gente sentou junto e eu pensei: ah, talvez ele pudesse produzir um álbum para mim. Eu disse: 'Bom, quantas músicas a gente tem?' E ele tinha no bolso: nove".

"Eu não consigo me segurar", admite Burnett. "Ele me convidou para escrever uma música para ele, e olha o que aconteceu. Eu escrevi uma longa boa música para ele". Mas depois do sucesso de Look Up, as músicas continuaram aparecendo. "É divertidíssimo escrever para a voz dele, para o espírito dele", diz Burnett. "Ele tem uma das vozes mais reconhecíveis do mundo, então a voz dele fica na sua cabeça a cada palavra que você escreve. Isso vira algo muito fácil. É como trilhos-guia que você só segue, descendo um caminho".

Ringo sempre teve country na alma. "Bom, se eu falo assim, é por causa de onde eu vim", diz ele, exagerando o sotaque liverpudliano. "Isso é country pra caralho, né? Mas, crescendo em Liverpool, a gente tinha sorte porque era um porto. Os navios iam para a América e voltavam, e traziam todos os discos, country e blues. Liverpool era como a capital do que está acontecendo agora na América. Os garotos traziam todos esses discos. E, depois de três dias, eles já tinham gastado todo o dinheiro, então vendiam os discos. Era assim".

Quando os Beatles se desfizeram em 1970, Ringo fez o álbum country Beaucoups of Blues (1970) com a lenda do pedal steel Pete Drake, que tocou no Nashville Skyline (1969) de Bob Dylan. Mas, em vez de uma viagem de superstar pelo country-rock, Ringo foi para a Music Row fazer do jeito deles. "Pete Drake era o cara country que montou tudo", diz Ringo. "A gente estava trabalhando no estúdio com George Harrison, e eu mandei meu carro buscar ele em Heathrow. Ele disse: 'Ei, esse carro é seu, hoss?' Ele me chamou de 'hoss!' 'Vejo que você gosta de música country', porque eu tinha um monte de fitas cassete no carro. 'Você devia ir para Nashville e fazer um disco country.' Eu disse: 'Um mês em Nashville, será que eu aguento isso?' Ele disse: 'O quê? Nashville Skyline (1969) levou dois dias!'".

E, de fato, os gatos de estúdio de Nashville gravaram Beaucoups of Blues (1970) rapidinho. "Eu cheguei voando e, na primeira manhã, escolhemos cinco músicas, gravamos durante o dia e terminamos à noite. No dia seguinte, mais cinco, primeiro a banda e depois eu. Então fizemos o álbum em dois dias. Hoje em dia, você leva dois dias só para ligar tudo na tomada".

Mas Ringo e T Bone tomaram cuidado para não transformar Long Long Road numa viagem retrô. Como Look Up, ele está cheio de sangue novo. "It's Been Too Long" traz vocais de Tuttle e Jarosz. "Ringo só cantou alguns poucos duetos na vida", diz Burnett. "Mas dois deles foram com Molly Tuttle. Eles soam lindos juntos. Eu amo Annie Clark, St. Vincent, de Dallas, ela é uma irmã de alma. Sheryl Crow, uma mulher incrível. Elas são artistas de verdade, e Ringo é um artista de verdade, então eu quis colocar outras pessoas com ele".

É assim que Ringo sempre preferiu operar, como alguém que joga em equipe. "Funciona para mim", diz ele. "Eu só amo tocar. Tenho muitos netos, e três deles são bateristas. Eu toquei em muitos discos de outras pessoas nos últimos 10 anos. Eu coloco minhas coisas, mando de volta e digo: 'Use-me ou perca-me!' Talvez não seja o que eles queriam, mas, enfim, não são muitos que me tenham 'perdido'".

Ele vai voltar para a estrada com a All-Starr Band, que segue em turnê com um elenco rotativo desde 1990. "O público e eu, a gente se conhece", diz ele. "Eu sei que eles me amam e eles sabem que eu os amo, então a gente pode se divertir. Eu digo para a banda: 'A gente tem que se manter firme.' E é isso que a gente faz".

A gente devia ter o nível de energia desse homem. "Bom, você tem que comer mais brócolis", diz ele. "Todas as coisas boas em mim, eu culpo o brócolis por isso. Então agora eu digo: paz e amor e brócolis".

A voz direta dele soa reflexiva em Long Long Road — é quase certamente o melhor álbum já feito por alguém de 85 anos. Ele foi gravado em Nashville e em L.A., com seis músicas de Burnett e três de Starr. ("Me dê um pouquinho de melodia e um acorde que eu consigo escrever canções", diz Ringo, orgulhoso.) Ele também faz uma canção vintage dos anos 1950 do pioneiro do rockabilly Carl Perkins, um dos maiores heróis dos Beatles, intitulada "I Don't See Me in Your Eyes Anymore". Ringo a canta com o senso estoico de destino que sempre assombrou o canto dele desde clássicos como "It Don't Come Easy" ou "Photograph".

Os quatro Fab Four estavam profundamente imersos em sons country. "Olha, os Beatles, se aparecessem hoje, seriam chamados de uma banda de americana", diz Burnett. "Do começo ao fim, George Harrison tocava uma Chet Atkins Country Gentleman, e tocava fingerpicking no estilo Carl Perkins, que tudo volta para Arnold Shultz, que ensinou Bill Monroe. Bill era o bandolinista na banda de Arnold Shultz, e o Uncle Pen dele era o violinista".

Mas Ringo era o mais twangful da turma. Antes mesmo de entrar nos Beatles, ele tocava numa banda de skiffle de Liverpool chamada Texans. "A levada de bateria dele tem muito de uma levada texana", diz Burnett, filho de Fort Worth. "É um swing no tempo de Milton Brown and the Brownies". Ringo sempre teve o som do Lone Star State, assim como muito de Nova Orleans. "Ele tem um tipo de intensidade parecida com a de Earl Palmer, o baterista que tocou em todos aqueles discos do Little Richard. 'Baby Don't Go', no novo álbum, tem muito de Nova Orleans, muito de second-line. Mas, do jeito que ele faz, sai completamente original".

Long Long Road volta a algumas de suas primeiras influências americanas. "Neste disco, a gente fez uma música do Carl Perkins", diz Ringo. "Eu não tinha ouvido 'I Don't See Me in Your Eyes Anymore' antes. Ele escreve do jeito que eu adoro cantar".

Cantar a música de Perkins foi o momento que fechou o ciclo de toda a jornada musical de Ringo. "As duas primeiras músicas que eu gravei com os Beatles eram ambas do Carl Perkins. E é tipo: voltamos para o Carl de novo. É assim. Quer dizer, eu não fico aqui fazendo um grande plano. Eu só digo sim para alguma coisa, e isso vai se desenrolando conforme a gente segue". Para Ringo, continua sendo simples assim.

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