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Crítica: Elvis, Ramones e Beatles abrigam a rebeldia do rock

No 1º disco, Elvis uniu as raízes do gênero; os Ramones inauguraram o punk-rock e o Fab4 se tornou religião

12 jul 2019
03h14
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Recebi uma "missão" esta semana: Me pediram para citar os três discos primordiais do rock. Citar só não, né? Mas dizer o porquê, claro. Sabe como é, opinião é opinião. Então o que pode ser para mim, pode não ser para você. Então, pensei em quais discos realmente mudaram o curso da história do estilo. Aqueles realmente essenciais.

Sendo assim, acho que tudo aquilo que foi sendo gerado durante anos para evoluir ao que passamos a chamar de rock and roll, culminou no primeiro disco de Elvis Presley em 1956. Acho que podemos rastrear as origens do rock até os anos 20, nos campos de algodão, no canto daqueles que, escravizados, amenizavam um pouco do sofrimento através das canções passadas como herança cultural entre gerações. Quando começaram a descobrir novas maneiras de se tocar o blues, acelerando o ritmo e eletrificando o até então essencialmente formato acústico, o rock and roll foi começando a tomar forma. O surgimento do jump blues, do boogie-woogie e swing, no final dos anos 30 e durante os anos 40, originaram o rhythm & blues e daí para o rock and roll, foi só uma questão de nomenclatura. Deus abençoe Alan Freed!

Paul, Ringo, John e George. Depois dos Beatles, o rock-n’roll atinge um novo status e se torna mais do que um estilo musical, um estilo de vida
Paul, Ringo, John e George. Depois dos Beatles, o rock-n’roll atinge um novo status e se torna mais do que um estilo musical, um estilo de vida
Foto: REPRODUÇÃO / Estadão

Todo esse período de evolução musical até chegar ao rock and roll, culmina em Elvis Presley. Ele não é o rei por acaso. Elvis foi o artista que mais deu visibilidade ao então recém-nascido estilo. Não apenas por ser branco e pelo grande talento, mas pelo carisma e pela capacidade de levar as plateias à loucura. Elvis foi rejeitado nas "rádios brancas", por tocar rhythm & blues, e nas rádios que tocavam música negra, por ser country music, música branca. Esse paradigma precisava ser quebrado. Quando Alan Freed, que citei acima, já famoso apresentador de rádio então trabalhando em Nova York, anunciou Maybellene, de Chuck Berry, dizendo: "Você pode chamar isso de race music (como era chamada a música negra na época), mas eu chamo de rock and roll", o paradigma que já estava abalado, caiu por terra. Todo esse período dos anos dourados do rock, termina com a ida de Elvis para o Exército em 1958 e com a morte de Buddy Holly, Ritchie Valens e o Big Bopper em fevereiro de 1959. A partir de 1960, Elvis começou a se dedicar cada vez mais ao cinema e, na maioria das vezes, seus discos traziam as músicas de seus filmes, ao mesmo tempo em que as rádios diminuíam a execução do rock and roll clássico e o mercado experimentava uma mudança no gosto do público americano.

"Os quatro garotos de Liverpool", que cresceram ouvindo tudo isso que citamos acima, se tornaram uma banda realmente empolgante e lançaram seu primeiro disco, Please, Please Me, em 1963. E mudaram o rock pela primeira vez. E mudaram o mundo. A moda. O comportamento. Por isso, são a banda mais importante de todos os tempos. Depois dos Beatles, o rock atingiu um novo status. Mais que um estilo musical, um estilo de vida. Uma religião.

A próxima ruptura que atingiu o rock and roll, foi o punk-rock. E, na opinião desse locutor que vos escreve, o punk-rock começa no primeiro disco dos Ramones, em 1976. Talvez The Great Rock'n' Roll Swindle, dos Sex Pistols, seja até mais emblemático, pela repercussão que teve a banda na época ou o London Calling, que acaba de completar 40 anos, do The Clash seja o álbum definitivo. Mas a verdade é que o recado já vinha sendo dado pelos Ramones, desde a sua formação em 1974. Os anos 70 foram de virtuosismo e um certo marasmo para o rock. Discos e shows cada vez mais longos e elaborados de bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd, afastaram um pouco do espírito rebelde e contestador do início do rock, que o "faça você mesmo" do punk-rock resgatou, reciclou e regurgitou com nova energia. Os Ramones ainda são a banda perfeita para fazer um garoto querer se juntar a outros para tocar rock. Em tempos em que esse espírito rebelde e contestador cada vez mais é suplantado por um conservadorismo que invade o mundo e o rock, resta sempre a esperança de que um garoto ou garota, descubra um disco dos Ramones, dos Beatles ou de Elvis e entenda a mensagem.

Estadão
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