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Conheça 'Endless', o álbum esquecido de Frank Ocean

Lançado um dia antes de Blonde, para cumprir o contrato com a Def Jam, o projeto visual de 45 minutos está entre as obras mais introspectivas e subestimadas da música contemporânea

19 ago 2026 - 10h04
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Em 19 de agosto de 2016, enquanto o mundo aguardava ansiosamente o segundo álbum de Frank Ocean, o artista lançou algo que ninguém esperava: um projeto visual de 45 minutos, exclusivo para assinantes do Apple Music, no qual aparece construindo uma escada de madeira em um armazém, filmado em preto e branco, enquanto 18 faixas de R&B experimental, ambient e trap tocam ao fundo. O projeto se chamava Endless — e foi amplamente ignorado no dia seguinte, quando Blonde (2016) chegou e roubou toda a atenção.

Frank Ocean
Frank Ocean
Foto: Jason Merritt/Getty Images / Rolling Stone Brasil

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Ignorado, mas não esquecido. Com o passar dos anos, Endless ganhou vida própria entre os fãs mais dedicados de Frank Ocean, aqueles dispostos a ouvi-lo como a obra merece: sem pressa, sem a sombra de Blonde pairando sobre tudo, com fones de ouvido e atenção total. Nesse espaço de 45 minutos, há algo que poucos álbuns conseguem oferecer: uma obra genuinamente experimental, feita de canções inacabadas, texturas sonoras que escorregam de um gênero a outro e momentos de beleza vocal que rivalizam com qualquer coisa que o artista já gravou.

A história de Endless é, ao mesmo tempo, a história de uma manobra jurídica brilhante, de uma declaração artística radical e de um dos projetos mais mal compreendidos do R&B contemporâneo. Dez anos depois, é hora de entender o que ele realmente é.

https://www.youtube.com/watch?v=tYW0hrpgCJY&t=851s&pp=ygUTZW5kbGVzcyBmcmFuayBvY2Vhbg%3D%3D

O contrato que precisava ser cumprido

Frank Ocean lançou Endless para cumprir um contrato de dois álbuns com a Def Jam Recordings — e, ao fazer isso, liberou os direitos sobre o lançamento seguinte, Blonde, garantindo que aquele disco lhe pertencesse integralmente. Ao entregar Endless à gravadora como o segundo álbum do contrato, Ocean se libertou para lançar Blonde de forma completamente independente, por sua própria gravadora, a Boys Don't Cry.

A relação de Frank Ocean com a Def Jam já era complicada havia algum tempo. Após o sucesso de Channel Orange (2012), o artista ficou em silêncio por quatro anos, período no qual a gravadora, que não tinha novos lançamentos para explorar comercialmente, via Ocean construir uma base de fãs cada vez maior, sem conseguir monetizar essa relação como desejava. Ocean orquestrou os lançamentos de Endless e Blonde para se desvincular da Def Jam de vez: obrigado, por contrato, a entregar mais um álbum ao selo, ele prometeu exclusividade ao Apple Music e lançou Endless, projeto que, ao contrário de Blonde, saiu sob o nome da gravadora.

Na prática, a Def Jam ficou com Endless — um álbum experimental, sem singles comerciais, lançado exclusivamente em uma plataforma de streaming —, enquanto Frank Ocean ficou com Blonde, o disco que todo mundo esperava. Em retrospecto, foi um dos movimentos mais inteligentes da história recente da indústria.

Após o lançamento duplo, fontes disseram à Billboard que a Universal Music Group poderia ter base legal para processar Frank Ocean — afinal, lançar um novo álbum completo fora do contrato 24 horas depois de cumprir as obrigações com a gravadora era, no mínimo, controverso. Mas nenhuma ação legal foi tomada. Fontes anônimas ligadas à Def Jam descreveram a relação com Ocean como um "casamento ruim": "Ele não queria estar em um selo. Ele queria fazer o que queria".

Como o álbum foi lançado

A semana que antecedeu Endless também foi importante. Em 1º de agosto de 2016, Frank Ocean iniciou uma transmissão ao vivo em seu site mostrando um armazém vazio, onde aparecia construindo algo de madeira, sem músicas completas, apenas texturas sonoras e imagens enigmáticas. A internet entrou em polvorosa, sem entender exatamente o que estava vendo. Uma semana depois, ele voltou à transmissão com músicas completas, com vocais, enquanto a escadaria de madeira começava a tomar forma.

Na madrugada de 19 de agosto, Frank Ocean disponibilizou Endless exclusivamente no Apple Music como um "álbum visual": um vídeo de 45 minutos filmado em preto e branco no mesmo armazém das transmissões. O Apple Music confirmou à Rolling Stone (via TechCrunch) que mais novidades viriam naquele fim de semana. O que veio foi Blonde, no dia seguinte.

Endless ficou disponível apenas como vídeo exclusivo do Apple Music por mais de um ano. Em 27 de novembro de 2017 — na Cyber Monday —, Frank Ocean lançou uma versão remasterizada do projeto em formatos físicos limitados em seu site: CD, VHS e vinil. As edições ficaram à venda por tempo limitado e esgotaram rapidamente. Até hoje, Endless não está disponível nas principais plataformas de streaming — o que o mantém em um estado de raridade que combina perfeitamente com seu caráter de obra-limite.

O que acontece nos 45 minutos

Endless começa com "Device Control", uma introdução minimalista que estabelece o tom de tudo o que vem depois: eletrônica fria, espaço vazio e a sensação de que algo está sendo construído, tanto na imagem quanto no som. A partir daí, o disco atravessa 18 faixas: algumas com começo, meio e fim; outras que funcionam mais como transições, momentos de respiração entre os picos de intensidade. O projeto incorpora R&B alternativo, ambient, trap e soul, com letras que abordam fama, amor e desamor.

As colaborações são notáveis e, em grande parte, desconhecidas do público em geral. Entre os colaboradores estão Jonny Greenwood (guitarrista do Radiohead), James Blake, Arca, Sampha, Jazmine Sullivan e o produtor Alex G, que aparece em várias das faixas mais elogiadas do disco. A presença de Greenwood e Arca diz muito sobre as ambições sonoras do projeto: Endless não quer ser pop, não quer ser R&B convencional, não quer ser nada que já existia. Quer ser uma experiência.

A faixa "At Your Best (You Are Love)", cover de Aaliyah, é um dos momentos mais puros de todo o projeto, uma balada lenta e reverente que mostra a voz de Frank Ocean em seu estado mais despido de artifícios. No outro extremo, "Slide On Me" traz uma linha de baixo que desliza entre o funk e o experimental, com harmonias vocais que chegam de lugares inesperados. E "Florida", com seus sintetizadores etéreos e camadas de harmonia, soa exatamente como a sensação de estar em um lugar ao qual você pertence — sem saber por quê.

As músicas de destaque

Nenhuma faixa de Endless é mais celebrada pela crítica e pelos fãs do que "Rushes" e "Rushes To" — duas canções que dialogam diretamente e que, juntas, representam o ápice emocional do disco. A primeira cresce lentamente, com a voz de Frank Ocean se entrelaçando à de Jazmine Sullivan sobre uma produção que aumenta de intensidade, sem nunca explodir por completo, é tensão e liberação em um estado quase meditativo.

Já a segunda é seu desdobramento mais íntimo: voz, violão e pouco mais. Para muitos fãs, é a melhor performance vocal de Frank Ocean em toda a discografia, emocionalmente carregada, pessoal e direta. É a faixa que mais claramente mostra o que Endless poderia ter sido se tivesse recebido a atenção que Blonde teve.

"Comme Des Garçons" e "Slide On Me" são os momentos de maior acessibilidade do disco, as faixas que mais facilmente funcionariam como singles, com ganchos melódicos e texturas que convidam a múltiplas escutas. E "Higgs", que encerra o disco, é uma das canções mais ambiciosas de Ocean em termos de construção sonora, uma conclusão que não resolve nada, mas deixa exatamente a sensação certa de que algo importante acabou de acontecer.

A escada e o significado simbólico

A imagem central de Endless, Frank Ocean construindo uma escada de madeira em um armazém, resume todo o conceito do projeto. A escada que não leva a lugar nenhum, construída pacientemente ao longo de 45 minutos, é uma metáfora que o disco articula sem precisar explicar: o processo é a obra; a construção é o destino; e o que importa não é chegar ao topo, mas o que se aprende enquanto se sobe.

Há também uma leitura mais direta: a escada como liberdade. Frank Ocean constrói, literalmente, uma saída de um espaço fechado, assim como o álbum inteiro foi a construção de uma saída da Def Jam, do contrato e de uma situação que o aprisionava artisticamente. O projeto é, ao mesmo tempo, uma obrigação cumprida e uma declaração de independência, duas coisas que raramente habitam o mesmo espaço, mas que em Endless coexistem sem contradição.

A escolha do preto e branco reforça a ideia de que Endless é intencional em seu minimalismo visual. Enquanto Blonde chegaria acompanhado de uma revista de quase 400 páginas — a Boys Don't Cry —, Endless opta pela ausência de ornamento. Sem cores, sem cenário elaborado, sem personagens. Apenas Frank Ocean, a escada e o som.

Há também uma conexão temática com Blonde que poucos apontam diretamente. Se Blonde é um álbum sobre sofrer pelo passado — pelas coisas que foram, pelos amores que não deram certo, pelas versões de si que ficaram para trás —, Endless trata dessa mesma sensação vivida no presente. É o sofrimento em tempo real, o processo sendo documentado enquanto acontece. A escada sendo construída é o disco sendo feito. O disco sendo feito é a vida sendo vivida. Os dois projetos são faces opostas da mesma moeda: um olha para trás; o outro, para o agora.

O lugar de Endless na discografia de Frank Ocean

Dez anos depois, Endless continua sendo o projeto de Frank Ocean que mais resiste à categorização. Não é um álbum de estúdio convencional, não é uma mixtape, não é um EP, é um álbum visual que funciona igualmente bem apenas como áudio, mas perde algo importante quando separado das imagens.

Depois de todos esses, o consenso é que Endless pode ser interpretado tanto como uma provocação à Def Jam quanto uma experiência genuína e um irmão mais velho alternativo de Blonde. As duas obras se complementam, mas são opostas: onde Blonde é polido, Endless é rugoso; onde Blonde tem começos e fins claros, Endless escorrega entre as faixas como se o disco fosse uma coisa só, ininterrupta.

O fato de Endless ainda não estar disponível nas grandes plataformas de streaming é, ao mesmo tempo, frustrante e coerente com seu espírito. Uma obra que nasceu como exclusividade do Apple Music, que foi vendida em formatos físicos por tempo limitado e que, desde então, existe em um estado de semi-inacessibilidade, combina perfeitamente com o artista que a criou: Frank Ocean, que sempre soube que raridade e mistério também podem ser formas de arte.

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