Conheça Augusta Barna, artista mineira que busca furar a bolha sem perder a identidade
Aos 23 anos e oito de carreira, cantora mineira olha para a própria trajetória entre discos, estrada, independência e uma nova fase
Aos 23 anos, Augusta Barna já fala de carreira como quem conhece tanto o palco quanto os bastidores. Cantora, compositora, atriz, performer, diretora de seus próprios projetos, articuladora e, cada vez mais, administradora da própria carreira. Em oito anos de trajetória, ela lançou um EP e dois álbuns, passou por palcos no Brasil e no exterior, recebeu prêmios, circulou por festivais importantes e construiu uma linguagem que não se limita à música. Ainda assim, quando perguntada por Rolling Stone Brasil sobre o que ainda falta para sentir que chegou onde queria, a resposta não passa por um grande palco, um prêmio específico ou um número de ouvintes: "Furar a bolha e continuar construindo um público", resume.
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Há, porém, uma questão mais profunda por trás desse desejo: como crescer sem se perder? Augusta reconhece que passou os últimos oito anos em constante transformação. "Fui muitas ao longo dos últimos anos dentro desse trabalho", diz. Para ela, existe continuidade entre a adolescente que começou a carreira e a artista que existe hoje, mas também um processo permanente de "morte e renascimento".
Essa transformação veio acompanhada de uma espécie de desromantização da própria profissão. "Eu sempre fui pé no chão diante das dificuldades, mas acho que eu romantizava mais o trabalho", admite. "Até internalizar as demandas todas e, ao longo dos anos, uma rotina mais formal de planejamento, estudos e entregas de um modo geral. Isso faz o dia a dia menos fantasioso, o que é uma pena, faz parte de ser adulto, mas vivo esse lugar sem perder a poesia das coisas."
A menina que precisou aprender a errar
Se pudesse voltar aos 15 anos, quando iniciou a carreira profissional na música, Augusta começaria a conversa consigo mesma de maneira pouco convencional. "Eu me levaria num psicólogo naquele ano", brinca. Depois viria o aviso: "Prepara, lá vem bomba". Mas, passada a piada, restaria uma certeza: "Fica tranquila porque nós conseguimos, a gente sempre consegue!"
O primeiro movimento de atenção em torno de seu trabalho aconteceu ainda durante a pandemia de Covid-19, quando lançou Cantora de Ruídos e começaram a surgir convites para shows. Mas o olhar sobre sua obra ganhou outra dimensão quando Sangria Desatada, seu primeiro álbum, recebeu o reconhecimento com o prêmio Flávio Henrique 2023 de Melhor Disco Mineiro de canção autoral lançado em 2022 pelo BDMG Cultural.
Cantora de Ruídos, lançado em 2021, funcionou como uma espécie de laboratório. Augusta diz que o projeto lhe ensinou a importância de nomear melhor aquilo que estava tentando fazer para conseguir conduzir suas diferentes linguagens de expressão. "Esse projeto foi uma escola muito rica para o meu desenvolvimento", afirma.
Sangria Desatada, por sua vez, foi mais visceral. Se o EP serviu para descobrir caminhos, o primeiro álbum serviu para se expor: "A Augusta" era o que precisava sangrar, conta a cantora. "Eu precisava mostrar com mais latência o que doía em mim", conta. "Eu era uma menina com medo de errar e foi errando que eu aprendi pra errar melhor. Eu me cobro muito em tudo e chega num ponto que é preciso abraçar o erro porque a vida é o erro, ela é inerente a ele, não dá pra fugir."
Existe, nessa resposta, uma espécie de princípio que atravessa sua carreira: o erro não como acidente, mas como uma espécie de método. Augusta construiu a própria linguagem justamente ao se permitir experimentar, desmontar certezas e começar novamente.
A estrada acelerou esse processo. Foram 43 shows em um ano, durante 2023, experiência que a fez entender a diferença entre cantar para si e cantar para o outro. "Eu tenho uma relação complexa com estúdio, acho difícil cantar pra mim. Ficar sozinha comigo mesma me dá medo", revela. "A estrada cansa, mas te faz trocar com o outro, com o mundo, de forma mais entregue."
O resultado foi uma artista mais exposta e, ao mesmo tempo, mais preparada para o segundo disco. "Eu fui com mais convicção e mais garra ainda", afirma. Havia, porém, um problema: o trabalho não recebeu o amparo financeiro necessário para chegar a tantas pessoas quanto poderia. Ainda assim, ela resume a experiência de maneira provocativa: "Quem gosta, gosta! Quem não gosta, não conhece!"
A beleza depois da escuridão
Se Sangria Desatada foi uma ruptura, Na Miúda, lançado em 2024, nasceu de um processo mais silencioso. A solitude, segundo Augusta, fez com que ela percebesse características que talvez não quisesse admitir sobre si mesma.
"Eu sou difícil demais, exigente demais e romântica demais", diz. "Fugi do amor com a intenção de não me desviar, o que foi inevitável e acabei caindo, mas sem amor não há criação. É como se o amor buscasse o criador para a poesia nascer."
A agonia que atravessava aquele período não foi transformada em uma celebração do sofrimento. Augusta preferiu fazer o contrário do que sentia: "A agonia era muita, eu entreguei beleza. Eu subverti a minha escuridão em beleza pura."
É uma distinção importante para uma artista cuja obra frequentemente parte de experiências pessoais. Para ela, não é preciso estar mal para produzir algo relevante. É preciso estar atento. "Sinto que é o guia, a consciência de si e do mundo."
Musicalmente, Na Miúda também amplia o repertório de referências. Amy Winehouse, Dua Lipa, Jorge Ben e Tim Maia aparecem entre os artistas que Augusta levou para dentro do disco.
No palco, a experiência ganhou outra dimensão. "Eu amo fazer shows dele", diz. "Sempre lindo, sempre chama o público pra dentro do meu universo particular, quem está vendo pela primeira vez e quem já o conhece."
Uma das músicas, porém, ganhou vida própria. "Autonomia", segundo Augusta, talvez não tenha sido interpretada exatamente como ela imaginava. "Não sei se geral sacou a mensagem, mas cada um subverte como quiser."
Uma artista 360º — e inquieta
Augusta não pensa a música isoladamente. Seu processo é "muito 360º", como ela mesma define, envolvendo figurino, visualidade, performance e direção.
"Meu processo criativo sempre foi muito agitado, cheio de coisas por trás dessa cabeça inquieta", explica. A possibilidade de gravar também abriu a possibilidade de criar tudo ao redor da música. "Mas tenho achado exaustivo, pois as demandas cresceram."
Quando perguntada se esse envolvimento vem de uma necessidade de controle ou de prazer, a resposta é direta: "Prazer e controle. Eu sou muito controladora, mas também amo genuinamente participar de tudo."
A música, ainda assim, vem antes das imagens. "Tudo se constrói em volta dela [da música] e por e para ela." As imagens entram quando as canções do repertório estão definidas.
Sua formação teatral também ajudou a liberar o corpo. Augusta conta que o teatro lhe trouxe uma liberdade física que foi explorando aos poucos, alternando momentos mais contidos e expansivos. "Tudo isso me trouxe muita liberdade de ser e só existir com mais direção e confiança, na vida pessoal ou nos palcos."
No espetáculo, o desafio é justamente juntar todas essas partes. "Encontrar um fio condutor entre corpo, voz e os espaços", explica. Para ela, a construção de um bom show começa muito antes do palco: no próprio processo de montagem do álbum. É preciso experimentar, errar e amarrar as narrativas até chegar à segurança da apresentação.
As referências também nunca ficaram restritas à música. Elis Regina, Elza Soares, Frida Kahlo e A Divina Comédia aparecem entre as influências que ajudaram a formar seu imaginário.
Uma delas, particularmente, permanece como uma espécie de norte. Quando questionada sobre a principal referência do início da carreira que continua ecoando em seu trabalho, Augusta responde sem hesitar: "Elza Soares sem dúvidas."
A independência tem um preço
Existe, entretanto, uma dimensão menos visível dessa liberdade criativa: o custo para mantê-la. Augusta admite que ainda não tem uma base financeira sólida para pesquisar com a calma que gostaria. "Essa coisa de se manter viva no mercado independente, fechar um projeto já buscando recursos para o próximo, adoece", afirma. "E foi assim nos meus últimos anos."
Essa é talvez uma das contradições mais fortes de sua trajetória. Quanto mais ela cresce, mais complexa fica a estrutura necessária para sustentar a obra.
A artista precisou aprender a administrar a própria carreira em vez de entregar seu destino a terceiros. "Eu sou muito metódica com tudo e gosto de ver o desenvolver das coisas com métrica", explica. "Confiar a carreira 100% a alguém não me soa cabível, pois era confiar meu destino e minha vida inteira."
Isso não significa fazer tudo sozinha. Ela reconhece a existência de parceiros e parceiras que ajudam a organizar o que chama de "caos" da gestão de uma carreira. Financeiramente, porém, a situação ainda está longe do ideal. "Ainda não vivo 100% como pretendo", admite. No processo, aprendeu a lidar com planilhas e a "retroalimentar uma estrutura" para manter a carreira funcionando enquanto o grande sucesso comercial não chega.
E existe uma frase particularmente dura sobre o custo dessa escolha: "Você vai renunciar tudo. O custo emocional é muito alto, principalmente se você depender do que faz pra existir e ter autonomia. Eu abri mão de quase tudo em nome da carreira."
Para Augusta, algo falível é o maior "vilão" dessa equação. "Não é a arte que pede tamanho sacrifício, é uma promessa de sucesso mercadológico, e isso dói, pois pode falhar."
Sair de Minas para encontrar o mundo
A música também funcionou como uma forma de emancipação. Quando começou a tocar fora de Minas Gerais, Augusta diz ter tido acesso a experiências que antes não faziam parte de sua realidade.
"Eu comecei a ter acesso real às coisas, como andar de avião, poder trocar com outras pessoas de estados diferentes de forma mais direta", conta. "A música foi emancipadora social na minha vida, me apresentou possibilidades."
O primeiro show fora do estado aconteceu três meses depois do lançamento de seu primeiro álbum, no Rio de Janeiro. Depois vieram outros estados, como São Paulo e Bahia, além de shows internacionais com o álbum Na Miúda, na Espanha e na Itália.
No exterior, entretanto, ela não encontrou necessariamente uma recepção mais fácil ou mais difícil. "Tem espanto e tem primor nisso", resume. "Fui aplaudida e querida por várias pessoas e outras não deram bola, como aqui no Brasil também."
Sair de Minas, ainda assim, foi necessário. "Apesar dos medos enormes em sair do ninho, acho que se afastar de onde está confortável para buscar expandir as possibilidades é sempre um desafio."
E ela não esquece a cena que a acolheu. Augusta conta que encontrou um ambiente especialmente receptivo na cena independente mineira, em uma época em que poucos artistas de sua geração usavam as redes sociais como ferramentas profissionais.
O impacto no público e a vida particular
Apesar de todos os avanços, Augusta não considera que já tenha construído uma comunidade sólida ao redor de seu nome. "Sinto que ainda estou criando ela", diz. Houve, entretanto, uma virada quando passou a ser vista por outros artistas como referência de modelo de carreira.
Seu público também desafia uma classificação simples. Ela identifica crianças e pessoas entre 40 e 60 anos entre os ouvintes e acredita que, mesmo sendo da geração Z, consegue transitar entre diferentes públicos.
O impacto, em alguns casos, ultrapassa a relação tradicional entre músico e ouvinte. Em um show no Minas ao Luar, uma mulher contou que havia se divorciado motivada pelo discurso de liberdade e emancipação emocional presente no trabalho de Augusta. "Me senti muito poderosa, no sentido bom da coisa", lembra.
Ao mesmo tempo, a exposição tem limites. Augusta tenta preservar sua intimidade nas redes sociais, embora seja mais aberta nos shows. "Não sei ao certo" como equilibrar proximidade e privacidade, admite. É justamente aí que o título de Na Miúda ganha uma dimensão maior. Quando escolhe ficar "na miúda", Augusta diz proteger "meus interesses e a minha própria vida".
Fora do palco, a personagem pública desaparece um pouco. Laura, como ela se refere à mulher por trás de Augusta Barna, quer algo muito menos grandioso. "Alguém que quer muito ser livre e feliz", diz. "O que eu mais busco nessa jornada é o meu espaço de paz com quem amo, praia, piscina, comendo, rindo e fazendo piada de tudo, alguém que busca espaço para só ser."
Uma nova etapa
É nesse momento de expansão que entra o Natura Musical. Augusta conta que se candidatou ao programa durante vários anos até finalmente ser selecionada. O reconhecimento chega, portanto, em uma hora particularmente simbólica: enquanto a turnê de Na Miúda, seu segundo álbum, se encaminha para o encerramento, um novo ciclo começa a tomar forma. "Eu ainda tô lançando os singles com feats. E tô finalizando meu terceiro álbum que chega já já e é com o Natura Musical", conta.
O apoio do Natura Musical também ajuda a resolver uma questão que acompanha sua carreira desde o começo: como financiar não apenas a criação de uma obra, mas também fazer com que ela chegue às pessoas. "Arcar com a produção da obra e com sua divulgação" era, segundo ela, uma das maiores dificuldades dos projetos anteriores. Muitas vezes, os recursos eram suficientes para colocar a música de pé, mas não para sustentar uma estratégia de divulgação capaz de ampliar seu alcance.
Agora, existe a possibilidade de pensar nas duas pontas ao mesmo tempo. E isso se conecta diretamente àquilo que Augusta identifica como um dos principais objetivos dessa nova etapa: "Furar a bolha e continuar construindo um público". Não se trata apenas de lançar um terceiro álbum, mas de criar condições para que ele encontre mais gente — sem que, no processo, a artista precise abrir mão da liberdade que construiu.
O desejo é preservar algo que ela reconhece na própria origem. "Tinha muito vigor no início, ainda existe dele em mim, mas mais maduro. Luto pra não perdê-lo com o passar dos anos."
A nova fase também amplia o campo de interesses de Augusta. Em 2026, além da música, ela segue alimentando uma relação com o cinema e a escrita e fala do desejo de "ser uma realizadora que propõe". É uma ambição que combina com uma trajetória construída justamente na fronteira entre diferentes linguagens, sem a necessidade de escolher uma única definição para si.
Esse mesmo impulso aparece no 8M Lab, projeto que nasceu quase por acaso, a partir de um convite para um show em homenagem às mulheres, e chegou à terceira edição em 2026. A iniciativa revela outra dimensão de Augusta: a preocupação em compartilhar aquilo que aprendeu ao longo de uma carreira construída, em grande parte, na prática.
Para ela, uma das maiores deficiências na formação de artistas independentes está justamente na falta de informação sobre o que existe depois da criação. "Acho que os cursos preparam mal para o mercado profissional, e a rua ensina na malandragem, o que pode ser bom, mas pode ser prejudicial a longo prazo."
Conheça Augusta Barna, artista mineira que busca furar a bolha sem perder a identidade (Fotos: Menê)
Legado e futuro
Aos 23 anos, Augusta ainda acha a palavra "legado" um pouco absurda. O objetivo mais imediato é mais simples — e talvez mais difícil: chegar a mais pessoas. "Eu quero levar o que já fiz pra mais corações e ouvidos", afirma. "Quero focar muito no ao vivo e construir uma base muito sólida nesse lugar que eu amo tanto que é fazer shows."
Quando pensa em sucesso, a definição também não passa por números grandiosos. Ela quer uma base fiel de fãs e uma música capaz de atravessar o tempo. Para ela, "Acaju", de Sangria Desatada, tem esse potencial.
Ao mesmo tempo, ela sabe que alcançar mais pessoas pode exigir negociação com o mercado. "Eu tento equilibrar o que eu quero com o que o mercado pede, mas sem perder o meu lugar de expressão."
Talvez o maior desafio seja justamente esse: crescer sem diluir a identidade que levou oito anos para construir. "Não virar cópia de si mesmo também é desafio", reconhece. Para ela, a solução está em "um exercício ao novo, se abrir sem perder a essência da coisa".
A passagem entre os dois discos acontece aos poucos. Antes de apresentar oficialmente o novo trabalho, Augusta vem experimentando possibilidades em uma sequência de singles e parcerias. Em 2026, já dividiu faixas com Mac Júlia, Amandona e Oreia, além de colaborações ainda inéditas, como "Psiu", com FBC.
Daqui a dez anos, ela não sabe exatamente onde estará, mas sabe o que quer preservar: vigor, direção e fé: "Espero seguir com vigor para botar o bloco na rua, não perder a linha que guia tudo isso e nem a fé em mim", afirma. E completa com o desejo que resume o momento atual: "Espero que eu tenha furado a bolha, e conquistado mais ouvidos e corações pra vibrar comigo nessa jornada tão especial."
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