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Como The Smiths chegou ao seu auge em 'The Queen is Dead'

Terceiro álbum de estúdio da banda britânica contém ataques à monarquia, igreja anglicana e algumas das melhores músicas de Johnny Marr e Morrissey

16 jun 2026 - 08h10
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The Smiths é talvez a banda fundamental para compreender a estética do indie britânico. Música, lirismo, imagem, comportamento ao vivo, o culto dos fãs... tudo que veio depois retorna ao quarteto formado por Morrissey (vocais), Johnny Marr (guitarra), Andy Rourke (baixo) e Mike Joyce (bateria).

The Smiths em 1985
The Smiths em 1985
Foto: Ross Marino / Getty Images / Rolling Stone Brasil

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O grupo explodiu no Reino Unido de um jeito tão grande que a indústria independente não tinha a capacidade ou recursos de aguentar seu sucesso. E The Queen is Dead (1986), seu terceiro e penúltimo álbum de estúdio, representou não apenas o auge criativo, mas também a culminação de todos esses problemas.

https://open.spotify.com/album/5Y0p2XCgRRIjna91aQE8q7

Brigas judiciais

Chamar o ritmo de produção musical do The Smiths de "alucinante" parece pouco. Entre 1984 e 1985, o conjunto lançou dois álbuns de estúdio - The Smiths (1984) e Meat is Murder (1985) - além de uma série de singles soltos com múltiplos B-sides originais, tudo compilado na coletânea Hatful of Hollow (1984).

Essa prolificidade ajudou a capturar a imaginação do público britânico e construir a imagem da banda como líder dessa nova geração de artistas independentes. Entretanto, a performance aquém do esperado de certos singles nas paradas de sucesso apontava problemas por trás da cortina.

O grupo - principalmente Morrissey - argumentava que seu selo, Rough Trade Records, não estava cumprindo sua obrigação contratual de promover os lançamentos de maneira adequada. A gravadora, por sua vez, pedia por um ritmo mais lento de novos trabalhos. Apesar de ser a maior distribuidora independente do Reino Unido na época, ainda assim operava com recursos limitados. E estes eram eram forçados a ser direcionados para a banda em detrimento ao resto do portfólio de artistas.

Entre o primeiro single do que viria a ser The Queen Is Dead, "The Boy with the Thorn in His Side", e o lançamento do álbum de fato, o público britânico precisou esperar quase um ano. A Rough Trade havia conseguido uma liminar para impedir a banda de lançar o disco, seja através dela ou qualquer outra gravadora. Manter The Smiths no seu plantel era praticamente inviável num ponto de vista financeiro, mas perder o grupo seria catastrófico. No fim, o selo sucumbiu e investiu tudo que tinha para promover o trabalho.

https://www.youtube.com/watch?v=qdOHPjMzY8s&list=RDqdOHPjMzY8s&start_radio=1&pp=ygUtdGhlIHNtaXRocyB0aGUgYm95IHdpdGggdGhlIHRob3JuIGluIGhpcyBzaWRloAcB

The Smiths confrnota tradições

O material do The Smiths desde o começo de sua carreira era deliberadamente controverso. O álbum de estreia homônimo continha muitas alusões a serial killers britânicos e Meat is Murder, além do ser um panfleto contra o consumo de carne e derivados animais, também continua várias músicas focadas em abuso físico como uma instituição nefasta do Reino Unido.

Morrissey nunca viu uma polêmica que não gostasse de causar e virou figura habitual em programas de rádio e TV para dar sua opinião sobre cultura. Para o próximo álbum do The Smiths, ele iria mirar na maior instituição do país: a rainha.

Originalmente batizado Margaret on the Guillotine [Margaret na Guilhotina, uma referência à então primeira ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher], The Queen is Dead mudou de nome graças à sua faixa-título, um petardo antimonarquia no qual Morrissey tira sarro da Família Real e se imagina na pele do homem que invadiu o quarto da rainha no Palácio de Buckingham em 1982. Enquanto isso, a banda por trás soava agressiva de um jeito não visto antes, com uma sonoridade pós-punk fortíssima.

https://www.youtube.com/watch?v=Fs5j3NgEDxs&list=RDFs5j3NgEDxs&start_radio=1&pp=ygUcdGhlIHNtaXRocyB0aGUgcXVlZW4gaXMgZGVhZKAHAQ%3D%3D

Em entrevista ao NME, Johnny Marr descreveu a música como sua versão de The Stooges e Velvet Underground. Enquanto isso, Andy Rourke descreveu a jam de onde saiu o instrumental:

"Eu, Mike e Johnny estávamos improvisando nesse riff pesado - tocamos firme por cerca de 20 minutos, nos olhando e pensando: 'Nós realmente conseguimos algo aqui'. Johnny me fez sentir bem sobre isso; disse que era uma das melhores linhas de baixo que ele já tinha ouvido, então minha cabeça praticamente estava explodindo. Então, justamente quando você pensava que não poderia ficar melhor, Morrissey vem e coloca suas letras por cima."

Logo em seguida vem "Frankly, Mr. Shankly", uma música humorística na qual Morrissey encarna um funcionário enumerando todas as razões pelas quais está se demitindo de seu emprego. No meio da letra, ele aproveita para dar uma indireta contra Geoff Travis, dono da Rough Trade, que uma vez lhe revelou escrever poesia:

"Oh, I didn't realise that you wrote poetry

I didn't realise you wrote such bloody awful poetry, Mr. Shankly"

["Ah, eu não percebi que você escrevia poesia

Eu não percebi que você escrevia poesia tão ruim, Mr. Shankly"]

https://www.youtube.com/watch?v=1dnCitAqPIM&list=RD1dnCitAqPIM&start_radio=1&pp=ygUfdGhlIHNtaXRocyBGcmFua2x5LCBNci4gU2hhbmtseaAHAQ%3D%3D

Então chega a vez de duas baladas extremamente lúgubres, "I Know It's Over" e "Never Had No One Ever", a primeira das duas se tornando um clássico do grupo. Entre a abertura e essa dupla, o lado A de The Queen is Dead é extremamente sombrio, com apenas "Frankly, Mr. Shankly" e "Cemetery Gates" - uma canção sobre adolescentes roubando citações de autores famosos para se fazer parecer mais inteligentes - como os únicos raios de sol.

O lado B traz talvez a melhor coleção de composições de Johnny Marr. Além de "The Boy with the Thorn in His Side", há "Bigmouth Strikes Again", construída em cima de um riff de violão galopante que Morrissey usa para se imaginar como Joana d'Arc, queimada na fogueira por suas opiniões. "Vicar in a Tutu" é um rockabilly que mira outra instituição inglesa, a igreja anglicana, com a história de um vigário vestido de bailarina.

https://www.youtube.com/watch?v=PtzhvJh9NRY&list=RDPtzhvJh9NRY&start_radio=1&pp=ygUhdGhlIHNtaXRocyBCaWdtb3V0aCBTdHJpa2VzIEFnYWluoAcB

Por fim, talvez a canção mais famosa do The Smiths. "There is a Light That Never Goes Out", uma balada inspirada musicalmente em "There She Goes Again", do Velvet Underground, se tornou a composição mais emblemática da parceria Morrissey/Marr, com drama, romance e tragédia andando juntos. Em entrevista ao NME, Mike Joyce contou como a beleza da faixa:

"Quando nós a gravamos, eu achei que era linda, mas é tão perfeita que meio que me passou despercebida por um tempo. O tempo, o som, a ponte do meio não poderiam ser melhores."

https://www.youtube.com/watch?v=siO6dkqidc4&list=RDsiO6dkqidc4&start_radio=1&pp=ygUvdGhlIHNtaXRocyBUaGVyZSBpcyBhIExpZ2h0IFRoYXQgTmV2ZXIgR29lcyBPdXSgBwE%3D

Por outro lado, o encerramento do álbum é uma das músicas mais infames da banda. "Some Girls Are Bigger Than Others" está entre as melhores melodias de guitarra que Johnny Marr já compôs, mas Morrissey usa isso para fins humorísticos relacionados à figura feminina.

Legado

The Queen is Dead é reconhecido como uma obra prima do indie rock, mas The Smiths infelizmente não durou muito além para ver os frutos disso. Pouco mais de um ano após o lançamento do disco, a banda se separou. O rompimento ocorreu meses antes de sair seu último trabalho, Strangeways, Here We Come (1987).

Morrissey embarcou em carreira solo com altos e baixos, estes muitas vezes causados por suas declarações controversas e, ultimamente, preconceituosas. Marr se tornou integrante de vários grupos diferentes, como Pretenders, The The, Electronic, Modest Mouse e The Cribs. Desde os anos 2010, ele também começou a lançar material sob seu próprio nome.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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