Capital Inicial e Dado Villa-Lobos Fazem Grande Show no Rock in Rio
Show reuniu sucessos do Capital Inicial e da Legião Urbana, homenageou Renato Russo e fechou a primeira noite do Palco Sunset
No Rock in Rio 2026, o Capital Inicial encerrou o Palco Sunset com uma apresentação enérgica liderada por Dinho Ouro Preto. O show ganhou tom histórico com a participação de Dado Villa-Lobos, que tocou em quase todo o set e transformou a noite em um resgate do rock de Brasília e do Aborto Elétrico, homenageando os 30 anos da morte de Renato Russo. Apesar de falhas técnicas e foco no passado em vez de faixas inéditas, clássicos como "Primeiros Erros" e "Que País É Este?" empolgaram a plateia.
Capital Inicial abriu seu décimo show no Rock in Rio 2026 com fogo na frente do Palco Sunset e "Quatro Vezes Você" tocada como se ainda houvesse uma noite inteira pela frente. Eram 22h45 quando Dinho Ouro Preto apareceu com uma disposição que rapidamente transformou o encerramento do palco em uma das apresentações mais vibrantes daquele primeiro dia. Depois de horas de guitarras espalhadas pela Cidade do Rock, a banda poderia depender da familiaridade de seu repertório para atravessar os 55 minutos reservados. Preferiu tocar como se ainda precisasse conquistar aquele público.
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"Independência" veio logo em seguida e manteve o ataque inicial, enquanto Dinho se movimentava constantemente e cobrava resposta das primeiras fileiras ao fundo do gramado. Aos 62 anos, o vocalista continua tratando palco como espaço físico, ocupando passarelas, aproximando-se da plateia e chegando a descer para cantar no meio do público. A voz naturalmente ganhou mais aspereza ao longo das décadas, mas o domínio sobre as músicas e sobre o próprio fôlego permanece evidente. O tempo alterou o instrumento, mas não diminuiu a capacidade de conduzir um show.
Houve problemas técnicos logo nesse começo. Depois de "Independência", Dinho tentou falar e o microfone ficou momentaneamente sem som, uma das falhas percebidas durante a apresentação. O episódio incomodou justamente porque interrompeu uma entrada construída com ótimo ritmo, mas a recuperação veio rápido. Poucos minutos depois, Dado Villa-Lobos apareceu para "Será" e mudou completamente a natureza da noite.
A partir dali, a apresentação passou a falar de uma história muito maior do que a discografia de uma única banda.
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Dado Villa-Lobos Muda o Tom do Show
Participações especiais em festivais frequentemente seguem uma fórmula simples. O convidado aparece no meio, toca duas músicas reconhecíveis, recebe aplausos e deixa o palco enquanto o artista principal retoma o roteiro habitual. Dado Villa-Lobos ficou praticamente até o encerramento, entrando na terceira música e participando de todas as faixas seguintes, inclusive do trecho final a cappella de "Por Enquanto". O set inteiro foi redesenhado pela presença dele.
Essa permanência evita que a homenagem a Renato Russo, morto há 30 anos, pareça uma cerimônia colocada artificialmente dentro de um show do Capital Inicial. "Será" abre o bloco da Legião Urbana com uma canção cuja melodia já pertence ao imaginário popular brasileiro, e "Geração Coca-Cola" mantém o público cantando sem precisar de grandes comandos. Dado não aparece ali como representação abstrata da Legião. Sua guitarra altera o timbre do palco e coloca diante do público alguém que efetivamente participou da construção daqueles discos.
A sequência ainda encontra um caminho inteligente ao voltar para "Música Urbana". A escolha ajuda a desmontar a divisão rígida entre "momento Capital" e "momento Legião", porque essa história sempre foi mais embaralhada. Antes das duas bandas existirem, Brasília já tinha o Aborto Elétrico, grupo formado por Renato Russo, Fê Lemos e André Pretorius, com passagem também de Flávio Lemos. Depois do fim da banda, Fê e Flávio formaram o Capital Inicial, enquanto Renato seguiu até criar a Legião Urbana. Canções compostas naquele período acabaram distribuídas entre os dois repertórios.
Essa origem dá outro peso a "Música Urbana", "Fátima", "Veraneio Vascaína" e "Que País É Este?". Quando essas músicas aparecem ao lado de Dado e de integrantes do Capital, o show deixa de funcionar como simples tributo à Legião e recupera um repertório anterior à separação das bandas. Algumas daquelas composições pertencem a uma época em que as fronteiras que o público conhece hoje ainda não estavam desenhadas. O resultado é muito mais forte do que um medley nostálgico. A noite recupera uma cena musical a partir de pessoas que fizeram parte dela.
Primeiros Erros Mostra Por Que o Capital Funciona Tão Bem em Festival
Se Dado carrega o eixo histórico da apresentação, o catálogo do Capital fornece sua dimensão coletiva. "Primeiros Erros" ocupa um lugar peculiar nesse repertório porque há muito tempo deixou de depender exclusivamente da voz de Dinho. Os primeiros acordes bastam para que milhares de pessoas assumam a canção, criando aquele tipo de coro que artistas passam uma carreira inteira tentando conquistar.
No Rock in Rio, essa resposta também carrega uma lembrança específica. A apresentação do Capital em 2001 marcou profundamente a relação da banda com o festival, em pleno impacto do "Acústico MTV". Mais de duas décadas depois, a música continua produzindo uma resposta semelhante em pessoas de idades completamente diferentes. Em 2026, Dinho chegou ao décimo show de sua trajetória no evento.
Há certo conforto nessa relação, e ele pode se tornar um problema quando uma banda passa a confiar demais no repertório. O Capital Inicial evita boa parte dessa acomodação porque toca os sucessos com pressão. Fê Lemos e Flávio Lemos continuam responsáveis por uma base rítmica que impede essas versões de escorregarem para a delicadeza excessiva herdada de alguns momentos acústicos, enquanto as guitarras recuperam o peso que combina melhor com a atual turnê "Música Urbana".
"Fátima" ganha outra força nesse formato. Escrita por Renato Russo e Flávio Lemos, a música pertence ao período do Aborto Elétrico e carrega imagens políticas e sociais que continuam desconfortavelmente reconhecíveis décadas depois. O show não precisa explicar cada verso para estabelecer esse paralelo. A própria permanência daquela letra dentro de uma apresentação de 2026 já oferece material suficiente.
"Veraneio Vascaína" empurra essa sensação para um terreno ainda mais agressivo. A canção nasceu da parceria entre Renato e Flávio Lemos e aborda violência policial com uma linguagem frontal, ligada ao ambiente político que formou aquela geração brasiliense. Ouvi-la em sequência com músicas de Capital e Legião reforça como boa parte daquele rock foi construída por jovens tentando responder ao país que viam ao redor.
Que País É Este? Ainda Carrega Uma Carga Que o Tempo Não Resolveu
Dinho fez questão de preparar "Que País É Este?" com um comentário político. Citou Daniel Vorcaro, ministros do Supremo e representantes da direita, do centro e da esquerda, defendendo a democracia antes de iniciar uma composição escrita por Renato Russo ainda na época do Aborto Elétrico.
A escolha poderia facilmente transformar a música em palanque ou reduzir a discussão a uma provocação passageira. O que mantém o momento de pé é a própria canção. Décadas de execução pública criaram uma situação curiosa: cada geração parece encontrar novos motivos para cantar o mesmo refrão com indignação. O público não recebe "Que País É Este?" como peça histórica, pelo contrário, canta como se a pergunta tivesse sido escrita para aquela semana.
Esse é um dos pontos em que o show consegue usar nostalgia sem romantizar completamente o passado. Parte das músicas vem dos anos 1980, mas várias continuam descrevendo inquietações brasileiras que permanecem reconhecíveis. A homenagem a Renato Russo ganha força quando sua obra aparece como algo ainda capaz de provocar resposta no presente, em vez de ficar guardada numa moldura respeitosa.
Dado também ajuda a preservar essa tensão. Seu toque é menos expansivo que o de um guitarrista interessado em disputar protagonismo com o vocalista, e essa contenção funciona muito bem dentro do repertório. Ele conhece o espaço dessas músicas. A guitarra aparece com personalidade, sustenta os arranjos e traz uma assinatura que o público reconhece mesmo sem precisar identificar tecnicamente cada detalhe.
A relação com Dinho também transmite familiaridade. Os dois cresceram próximos em Brasília e pertencem a histórias pessoais e musicais entrelaçadas desde a adolescência. Isso aparece na ausência de cerimônia excessiva entre eles.
Natasha e À Sua Maneira Devolvem o Show ao Capital Sem Apagar o Que Veio Antes
Depois do peso político de "Que País É Este?", o repertório volta aos grandes sucessos dos anos 2000 com "Natasha" e "À Sua Maneira". A transição poderia parecer brusca depois de um bloco tão carregado de história, mas funciona porque o show já havia dissolvido há bastante tempo a fronteira entre as diferentes fases.
"Natasha" devolve velocidade e oferece um dos refrões mais imediatamente reconhecíveis da banda. Dinho aproveita a música para trabalhar novamente a resposta da plateia, reforçando uma característica que se manteve durante toda a apresentação: ele raramente canta como se estivesse sozinho no comando. Sua interpretação deixa espaços para o público, segura determinadas frases e transforma os versos mais conhecidos em canto coletivo.
"À Sua Maneira", adaptação de "De Música Ligera", do Soda Stereo, cumpre função semelhante em escala ainda maior. O riff já dispara reação antes da entrada vocal e funciona como uma das faixas mais eficientes do catálogo ao vivo. Há um componente quase automático nessa resposta, mas a banda utiliza esse reconhecimento para acelerar a reta final em vez de se acomodar nela.
O set poderia explorar mais músicas recentes. O EP "Movimento", lançado em 2025, praticamente desaparece diante da decisão de construir uma apresentação voltada para os grandes sucessos e para o encontro com Dado. Como show específico de Rock in Rio, a escolha faz sentido. Como retrato do Capital Inicial de 2026, deixa uma lacuna. A banda mostra muito bem de onde veio e pouco do que ainda pretende produzir.
Esse é provavelmente o principal limite artístico da noite. A memória ocupa tanto espaço que o presente autoral fica reduzido.
Ainda assim, o contexto justifica boa parte dessa decisão. Eram apenas 55 minutos, havia um convidado que alterava todo o repertório e a homenagem aos 30 anos da morte de Renato Russo exigia espaço. Tentar encaixar todas as fases poderia produzir um show mais completo no papel e menos coerente no palco.
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Dinho Ouro Preto Continua Sendo o Motor do Capital Inicial
É difícil analisar um show do Capital sem voltar a Dinho porque grande parte da identidade ao vivo da banda depende de sua disposição. Ele canta, conversa, provoca, levanta os braços, corre, aproxima-se dos músicos e busca constantemente a plateia. No Rock in Rio, chegou a descer do palco e entrar no público, gesto que resume bem sua forma de trabalhar a distância entre artista e festival.
Há também algo de disciplinado por trás dessa entrega. Aos 62 anos, Dinho atravessa uma fase de preparação física intensa, com corrida e musculação incorporadas à rotina. Isso poderia virar mera curiosidade de celebridade, mas ganha relevância quando se observa um show em que o vocalista passa quase uma hora se movimentando sem perder completamente o controle da respiração.
Sua voz merece uma leitura semelhante. O timbre atual apresenta marcas do tempo e dos problemas vocais enfrentados nos últimos anos. Em determinadas regiões, existe menos elasticidade do que nas gravações que transformaram essas músicas em sucessos. Ao vivo, Dinho trabalha dentro dessa realidade, usando a aspereza como parte da interpretação e dividindo com a plateia trechos que naturalmente já pertencem a ela.
A presença de Dado ainda cria outro benefício: o vocalista pode concentrar parte de sua energia na condução enquanto a guitarra sustenta o caráter histórico das músicas. Em vez de dois veteranos tentando provar quem ainda possui maior vigor, existe cooperação em cena. O show cresce justamente por isso.
Por Enquanto Fecha a Noite Sem Precisar de Explosão
Depois de fogo, guitarras, discursos e refrões enormes, o Capital escolheu encerrar com um trecho a cappella de "Por Enquanto". A música de Renato Russo reduz a escala da apresentação quando seria muito fácil terminar com outro grande ataque elétrico. Dado permanece no palco e a plateia assume parte daquela despedida.
A escolha funciona porque o show inteiro caminhou em direção a esse ponto. A homenagem a Renato começou quando Dado entrou em "Será", percorreu Legião, Capital e Aborto Elétrico e terminou com uma canção sobre mudança, passagem do tempo e permanência das lembranças. Não havia necessidade de transformar esse encerramento em uma solenidade maior.
Os problemas técnicos impediram que a noite fosse impecável. O repertório recente ficou praticamente ausente e algumas transições poderiam ganhar mais tempo em um show próprio. Também existe uma dependência consciente de músicas que o público já conhece há décadas, risco inevitável quando a proposta está tão ligada à memória. Ainda assim, esses pontos pouco diminuem a força do conjunto.
O Capital Inicial encontrou uma forma de fazer seu décimo Rock in Rio carregar uma identidade própria. Dado Villa-Lobos ganhou espaço suficiente para modificar o repertório, a homenagem a Renato Russo nasceu das próprias músicas e Dinho Ouro Preto comandou uma plateia que conhecia boa parte daquelas letras antes mesmo de ele abrir a boca.
Brasília apareceu no Sunset através de guitarras, amizade, política e canções que sobreviveram às bandas que primeiro as tocaram. Quase quarenta anos depois, algumas delas continuam fazendo milhares de pessoas cantar exatamente as mesmas perguntas. Talvez a resposta ainda esteja faltando. O rock, pelo menos naquela noite, continuava disposto a fazê-las.
Capital Inicial | Imagem: Divulgação/Rock in Rio (Crédito: @MorivaFilmes/@VansBumbeers)
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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