Adrian Smith fala à RS sobre Smith/Kotzen no Brasil, Iron Maiden e o 'chefe' Bruno Valverde
Guitarrista do Maiden traz seu projeto paralelo, no qual também assume vocais, para dois shows no país — um deles no festival Bangers Open Air, em São Paulo
Adrian Smith esteve no Brasil mais de uma dezena de vezes. Ainda assim, encontrou uma forma de fazer uma "estreia" por aqui: o guitarrista do Iron Maiden traz pela primeira vez ao país o projeto Smith/Kotzen, que comanda ao lado do colega de instrumento Richie Kotzen. Juntos, dividem não apenas as seis cordas, como também os vocais.
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Em turnês, contam ainda com dois brasileiros: a baixista Julia Lage, esposa de Richie e integrante da Vixen, e o baterista Bruno Valverde, membro do Angra. Consideradas as constantes visitas do Maiden e de Kotzen ao país, estava até demorando para que o grupo fundado em 2020 viesse até nós.
Serão duas apresentações. A primeira ocorre em 24 de abril, num compromisso solo no Tork n' Roll, em Curitiba (ingressos via site Uhuu). Já a segunda será em 26 de abril, no segundo dia do festival Bangers Open Air, no Memorial da América Latina, em São Paulo (ingressos via site Clube do Ingresso).
Smith, em entrevista à Rolling Stone Brasil, comenta sobre os shows e discute sua parceria com Kotzen. Além disso, fala a respeito do Maiden, que lança nos cinemas, em maio, o documentário Burning Ambition e retorna à capital paulista em outubro para duas performances.
A seguir, confira a versão em vídeo da entrevista. Mais abaixo, a edição em texto, com algumas declarações condensadas para tornar a leitura mais fluida.
https://www.youtube.com/watch?v=1GBw8hRJCYM
Entrevista com Adrian Smith — Smith/Kotzen, Iron Maiden
Rolling Stone Brasil: Você tem dois brasileiros talentosos no Smith/Kotzen, que são Julia Lage no baixo e Bruno Valverde na bateria. Sabemos que Julia é esposa do Richie, mas estou curioso para saber como o Bruno acabou se juntando a vocês.
Adrian Smith: Lançamos o primeiro álbum do projeto em 2021 e faríamos alguns shows na Califórnia, só como teste. Experimentamos alguns bateristas — bem conhecidos, na verdade — até que Richie e Julia… obviamente, Julia conhecia o Bruno, que já tocava com outras pessoas, então sugeriu tentarmos. Juntos, Julia e Bruno levaram as coisas a outro nível.
Bruno toca em uma banda chamada Angra. Você conhece?
AS: Sim, já ouvi falar deles. Temos uma piadinha no Smith/Kotzen, porque o Angra está como headliner no mesmo dia que estamos tocando no Bangers Open Air. Ou seja: Bruno é o headliner, está acima da gente. Então, estamos dizendo que nesse dia o Bruno será o chefe, ele nos dirá o que fazer, e o kit de bateria dele ficará na frente do palco. [Risos.] O Bruno é um ótimo cara e um baterista incrível, ótimo de se trabalhar junto.
Este ano tem sido bastante ativo para o Smith/Kotzen. Vocês já fizeram cerca de 20 shows, é mais do que qualquer outro ano da banda. Como tem sido finalmente poder fazer uma turnê propriamente dita com o Richie?
AS: Maravilhoso. Esta é a primeira série de shows de verdade que tivemos. Vai evoluindo conforme a gente toca, já que não tocamos as coisas da mesma forma toda noite — especialmente porque Richie é muito espontâneo e está acostumado com improvisação. Não é bem a minha praia, porque nunca fiz isso de verdade, mas estou começando a me envolver um pouco, então, as músicas mudam toda noite. Com o Iron Maiden, não mudamos muito as músicas porque temos as deixas de iluminação, os cenários e tudo o mais, então, não é muito flexível. Mas comigo e com o Richie é muito mais íntimo e casual. Dito isso, Bangers será o maior show que fizemos até agora, então será uma experiência e tanto.
https://www.youtube.com/watch?v=pABdwOwpjGI
Quando entrevistei Richie na época do lançamento do álbum Black Light/White Noise, pedi a ele para descrever seu estilo como guitarrista e cantor.
AS: Mesmo?
Ele te descreveu como muito melódico e cheio de alma na guitarra.
AS: Oh!
Também disse que você tem um tom de voz muito natural e cativante. Gostaria de te fazer a mesma pergunta: como você descreveria o Richie como guitarrista e como cantor?
AS: Ele é muito natural. Em termos de técnica, é muito avançado. Ele conhece muito e toca muitos estilos diferentes em comparação ao que eu toco. Sou basicamente um guitarrista de rock direto, enquanto Richie tem influências de jazz e começou a tocar guitarra muito jovem, por volta dos 8 anos, tendo realmente estudado. Eu quis tocar guitarra e estar numa banda mais tarde… comecei a cantar inicialmente para estar numa banda com Dave Murray [colega de Iron Maiden] — éramos os únicos na vizinhança que tinham cabelo comprido, então nos tornamos amigos. Com relação à voz… ele já disse que trabalhou nos vocais ao longo dos anos, então tem muitas técnicas, mas ele tem uma voz de canto natural. Tem um grande alcance e um ótimo timbre. É ótimo trabalhar com ele. Sempre quis trabalhar com outro cantor, mas é muito difícil encontrar alguém disposto a, digamos, dividir os holofotes. Por sorte, encontrei com Richie.
Vocês dois são músicos diferentes, mas também têm muito em comum. Como é o processo de composição entre vocês? Imagino que tenham métodos diferentes, mas como vocês misturam tudo isso?
AS: Somos apenas nós dois na hora de compor e gravar — ao mesmo tempo. As sessões de composição se tornam o que você ouve no disco. Geralmente eu trago uma ideia, como um riff, um ritmo, uma sensação para as músicas, e o Richie vem com um refrão. Ele canta muitos refrãos porque tem mais alcance vocal e — é impressionante — ele sempre terá algo melódico de imediato. É muito rápido. É ótimo, pois música rock deve ser espontânea. Você perde o rumo se pensar demais. No mais, trabalhamos jogando ideias um para o outro.
Como é o seu relacionamento com o canto? Você cantou em outros projetos antes, mas é algo que você gosta de fazer? Você gostaria de ter cantado mais ao longo da sua carreira?
AS: Conheci Dave Murray aos 15 ou 16 anos e ele já tocava guitarra havia alguns anos — já era incrível naquela época, soava como soa hoje. Como eu queria estar em uma banda, então pensei: "bem, vou tentar cantar". Eu nunca havia cantado de verdade, exceção feita a alguns concursos de talentos infantis em que minha mãe me colocava. A partir dali, segui cantando, mesmo sem técnica, até entrar para o Maiden. Sempre liderei bandas até ali. Peguei experiência tocando em pubs na Inglaterra e um pouco na Europa. Depois, gravei vocais no projeto ASAP [em 1989] e em outras coisas. O canto sempre esteve ali, mas agora tenho a chance de trabalhar nisso um pouco mais. Convenhamos: tenho trabalhado na música há muito tempo, fazer algo novo — ou relativamente novo — do que eu tenho feito nas últimas décadas é ótimo. Amo cantar. Tenho minhas limitações, mas estou superando meus limites. Tocar ao vivo eleva o desempenho da pessoa — especialmente tocar com Richie, que é um cantor incrível. Então, tento fazer funcionar e, por algum motivo, funciona.
https://www.youtube.com/watch?v=jv6l7qsiv6I&pp=ygUZc21pdGgga290emVuIHdhc3RlZCB5ZWFycw%3D%3D
Já que o Iron Maiden não fará nenhum show no próximo ano, há algum plano de fazer mais shows com o Smith/Kotzen durante esse tempo?
AS: Acho que sim. Não há nada concreto ainda, mas adoraríamos fazer mais alguns shows. Temos muito tempo para organizar isso. Tenho um ano muito ocupado com o Maiden e ainda estou em turnê com o Smith/Kotzen, mas eu diria que, muito provavelmente, faremos alguns shows, sim.
Por falar em Iron Maiden: tive o privilégio de assistir ao novo documentário, Burning Ambition. Como vocês tiveram a ideia de colocar os fãs no centro da narrativa do filme, dando voz a muitos deles?
AS: Para começar, [o documentário] não teve nada a ver com o Iron Maiden. A produtora de filmes entrou em contato com nossos empresários trazendo a ideia. Não aparecemos sendo entrevistados no filme como estamos fazendo agora [em vídeo]: são apenas nossas vozes por cima da narração, o que eu acho bem legal. Não tínhamos feito isso antes. E há algumas coisas ali que ainda não foram exploradas. É maravilhoso ter algo documentado para olhar em retrospecto e apresentar na forma de um filme. Achei que seria desconfortável para eu assistir, pois é o que atores dizem quando se veem, mas eu gostei bastante. Acho que os fãs vão adorar — talvez até pessoas que não conhecem muito sobre o Maiden possam se interessar, porque o que aconteceu conosco ao longo dos anos é um fenômeno.
https://www.youtube.com/watch?v=mRuyOBihb5g&pp=ygUVaXJvbiBtYWlkZW4gYW1iacOnw6Nv
O Brasil apareceu até bastante no filme. Muitos dos artistas que se apresentaram no primeiro Rock in Rio, há 40 anos, não desenvolveram uma relação com o Brasil como o Iron Maiden. Por que você acha que o público brasileiro se conectou tanto com o Iron Maiden?
AS: Essa é uma pergunta muito boa. Lembro bem do primeiro Rock in Rio. Acho que é apenas porque somos uma banda muito real. O Maiden cresceu tocando ao vivo, levando a música para o povo. Acho que as pessoas apreciam isso. Sei que, no Brasil, as pessoas amam futebol e música — basicamente igual a nós, então temos isso em comum. Apenas tenho a sensação de que vocês gostam do fato de ser uma banda real e viva. Não consigo colocar em palavras, mas está lá. E construímos isso a cada visita ao Brasil: sempre tentamos ir até aí, gostamos de tocar no país. Espero que continue assim por muito tempo.
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