A cantora brasileira sampleada por Frank Ocean
Dez anos após o lançamento de Endless, a presença de uma voz da MPB em uma das faixas do projeto segue como um dos detalhes mais curiosos — e menos comentados — do catálogo do artista americano
Em 2016, Frank Ocean utilizou um trecho de "Vapor Barato", clássico gravado por Gal Costa em 1971, na faixa "Honeybaby" do álbum Endless. A canção, marco da MPB composto durante a ditadura militar, foi incorporada ao trabalho do aclamado artista contemporâneo. No mesmo período, o produtor Kaytranada também sampleou Gal em "Lite Spots", evidenciando um movimento internacional de redescoberta da obra da cantora brasileira dos anos 1970 por uma nova geração da música global.
Quando Endless surgiu de surpresa na madrugada de 19 de agosto de 2016, muita gente estava tão atordoada com a simples existência do projeto que deixou passar um detalhe escondido entre as faixas do disco: em um dos interlúdios, por poucos segundos, estava lá, uma voz brasileira, gravada 45 anos antes, incorporada ao universo sonoro de um dos artistas mais cultuados da música contemporânea. Dez anos depois, o aniversário de Endless é uma boa ocasião para entender o que aquele sample fazia ali.
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A faixa se chama "Honeybaby" e o trecho sampleado é o refrão de "Ô, minha Honeybaby", repetido de forma hipnótica pela voz que deu origem ao apelido da música. A canção original é "Vapor Barato", composição de Jards Macalé e Waly Salomão, gravada em 1971 para o álbum ao vivo Fa-Tal - Gal a Todo Vapor (1971), de Gal Costa.
O álbum da brasileira é considerado o mais importante de sua carreira e uma obra-prima da discografia brasileira. Lançado pela Philips no fim de 1971, o disco registra o show Fatal (1971), apresentado naquele mesmo ano no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, sob direção de Waly Salomão. O álbum foi eleito pela Rolling Stone como o 20º melhor disco brasileiro de todos os tempos.
https://www.youtube.com/watch?v=0Ljrnr-VDNo
"Vapor Barato" foi composta em 1970, em circunstâncias políticas e culturais difíceis, em pleno período de repressão da ditadura militar, e serviu como pano de fundo musical para dois momentos de exílio na história brasileira. No show, a música fazia a transição entre duas partes: a primeira, intimista e acústica, com Gal ao violão; a segunda, mais agressiva e rock'n'roll. A frase "Graças a Deus"! — cantada por Gal logo após o verso "Eu não preciso de muito dinheiro" — entrou no disco contra a vontade do compositor Waly Salomão, que achava que não rimava. Gal insistiu e a frase ficou (via Novabrasil FM).
Frank Ocean não foi o único artista de fora do Brasil a descobrir Gal Costa naquele período. Poucos meses antes de Endless, em maio de 2016, o produtor haitiano-canadense Kaytranada lançou "Lite Spots" com um sample de "Pontos de Luz", do álbum India (1973). Os dois lançamentos aconteceram no mesmo ano e recorreram a discos gravados pela mesma artista na mesma época — com pouco mais de dois anos separando os dois álbuns originais. Coincidência ou sinal de que o catálogo de Gal Costa estava, discretamente, sendo redescoberto por uma nova geração de produtores, que ouvia a MPB dos anos 1970 com outros ouvidos.
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