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Morre Edgar Morin, um dos mais reconhecidos pensadores humanistas, aos 104 anos

Em sua longa trajetória, Morin escreveu cerca de 80 livros. Entre eles, o pensador ganhou notoriedade com 'Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro'

29 mai 2026 - 21h50
(atualizado às 23h35)
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O filosofo francês Edgar Morin morreu aos 104 anos. Ainda não há a causa da morte. A notícia foi divulgada nesta sexta-feira, 29, por Nelson Vallejo Gomez, filósofo com Mestrado em Filosofia Contemporânea pela Universidade de Sorbonne e especialista na obra de Morin.

"Ao pôr do sol de uma majestosa tarde de primavera, no Hospital Americano de Paris, nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, encerrando um fabuloso ciclo existencial que começou em Paris em 8 de julho de 1921, o espírito brilhante do amado sábio da #PoéticaDaCivilidade, meu pai espiritual, querido e admirado Condor, Edgar Morin, tornou-se pura energia", publicou Gomez. "Agora ele está muito mais intensamente presente em nós. Sempre carregarei seu sorriso em meu coração como um farol de inteligência viva, e o manual da Unesco, que é como um legado."

O pensador Edgar Morin morreu aos 104 anos
O pensador Edgar Morin morreu aos 104 anos
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

A Multiversidad Mundo Real Edgar Morin, instituição que difunde o conhecimento do pesquisador, também lamentou a morte. "Com profundo respeito e gratidão, lamentamos o falecimento de Edgar Morin, um pensador universal, mestre da complexidade e guia humanista para nossa comunidade acadêmica. Seu trabalho perdurará em cada esforço para reconectar o conhecimento, compreender a condição humana e pensar o mundo a partir de uma perspectiva integrativa".

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O Centro de Estudos e Pesquisas (CEP) Edgar Morin também lamentou a morte. "Um dos pensadores mais relevantes da atualidade. Um humanista sem fronteiras, um intelectual brilhante, missionário da cultura, da decolonialidade, do Pensamento do Sul, militante da salvação planetária e combatente espiritual pela regeneração do pensamento e o aprimoramento da consciência humana. O seu gigantesco legado ficará para além de seu Pensamento Complexo, promovendo solidariedade, fraternidade, paz e esperança", diz o comunicado.

A trajetória de Morin

Nascido Edgar Nahoum em Paris, em 1921, ele iria completar 105 anos no próximo dia 8 de julho. Foi filho único de uma família judia sefardita e, durante a Segunda Guerra Mundial, participou da Resistência Francesa. Nesse período, adotou o codinome Morin, que viria a se tornar permanente. Em 1941, aderiu ao Partido Comunista, sentindo que tal movimento poderia resistir à Alemanha nazista.

Também participou do movimento contra a guerra da Argélia e analisou os acontecimentos e os desdobramentos culturais das revoltas de maio de 1968, tendo convivido com intelectuais como Marguerite Duras e Albert Camus, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1957.

Em sua longa trajetória, Morin escreveu cerca de 80 livros. Entre eles, o pensador ganhou notoriedade com Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, publicado em parceria com a Unesco.

No campo da comunicação, foi aclamado por Cultura de Massa no Século XX: O Espírito do Tempo, livro em que analisou a relação entre arte, mídia e consumo de massa. Segundo o autor, a cultura de massas produziu industrialmente mitos voltados para o consumo, como novas noções de amor, sucesso e felicidade.

Edgar Morin foi referência do "Pensamento Complexo"
Edgar Morin foi referência do "Pensamento Complexo"
Foto: Monalisa Lins/Estadão / Estadão

Era considerado um dos principais pensadores contemporâneos e um dos principais teóricos do campo de estudos da complexidade, que inclui perspectivas anglo-saxônicas e latinas. O intelectual defendia que a educação deve formar pessoas capazes de pensar de maneira crítica, complexa e humana diante dos desafios do século 21.

Desenvolveu o chamado "Pensamento Complexo", uma abordagem que defende a interconexão dos saberes para lidar com as incertezas e desafios contemporâneos. Entre seus principais trabalhos está a coleção de seis volumes O Método, publicada entre 1977 e 2004.

Entre suas várias obras de filosofia e sociologia, também se destacam A Cabeça Bem-Feita e Ciência com Consciência, Conhecimento, Ignorância, Mistério.

No início dos anos 1950 iniciou seus trabalhos no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) de Paris, onde permaneceu e foi nomeado Diretor de Investigação e depois Diretor Emérito. Em 2008 foi fundado o Laboratório Edgar Morin.

Ele contribuiu em diversas áreas, como educação, estudos de mídia, ecologia, ciência política, antropologia visual e estudo de sistemas biológicos complexos. Foi doutor honoris causa em 17 universidades e atuou como codiretor do Centre d'Études Transdisciplinaires da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, por quase duas décadas.

Desde o século passado, a obra de Morin é muito valorizada pelos pesquisadores brasileiros. O pensador, por sua vez, gostava do Brasil e fez diversas visitas, onde participou de debates, recebeu homenagens e valorizou a diversidade do País. Em entrevista ao Estadão em 2009, disse que "os trunfos do Brasil em relação ao restante do mundo estão na miscigenação cultural e na biodiversidade da Amazônia".

Para o filósofo, o estado criativo permitia ao ser humano ter uma emoção particular. "A beleza da vida é poder usufruir desse estado especial, o que acontece, por exemplo, quando lemos a obra de Balzac ou Jorge Amado: eles criaram personagens cujo universo é capaz de provocar mudanças em nossa existência. Música, poesia, literatura e outras artes sempre estiveram presentes e ativas na minha vida", falou em entrevista ao Estadão em 2019.

Em 2021, ao completar 100 anos, ele foi homenageado pela Unesco e pelo presidente da França, Emmanuel Macron, que o elogiou por seu humanismo, por sua participação na Resistência Francesa contra o nazismo ainda na juventude, e por sua obra O Método. Antes disso, em 2018, Morin assinara um artigo elogioso ao político francês, no qual saudava a sua capacidade de "ser um intelectual literário e filosoficamente culto".

Por ocasião de seu centenário, lançou no mesmo ano o livro Lições de um Século de Vida, em que trouxe reflexões de sua trajetória. "É importante não ser realista em sentido trivial (adaptar-se ao imediato) nem irrealista em sentido trivial (subtrair-se às injunções da realidade; é importante ser realista em sendo complexo: compreender a incerteza da realidade, saber que existe um possível ainda invisível", escreveu ele na obra.

Em 2024, ele lançou um romance de inspiração autobiográfica escrito em 1946 e que retomou para finalmente torná-lo público, intitulado L'année a perdu son printemps (O ano perdeu sua primavera, em tradução livre).

Seu trabalho mais recente traduzido no Brasil é Foi Um Instante, coleção de textos no qual Morin refletiu sobre como se tornou centenário e como travou suas lutas contra o positivismo, o dogmatismo, o ideologismo e o paradigma clássico da ciência simplificadora.

Estadão
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