Miles Davis faria 100 anos: por que sua música ainda molda o jazz atual
O mundo da música celebra, neste 26 de maio de 2026, o centenário de nascimento do trompetista norte-americano Miles Davis. Criador de novas linguagens do jazz, ele segue influenciando gerações de músicos até hoje.
Olivier Rogez, da RFI em Paris, com agências
Miles Davis foi um dos criadores do cool jazz, contribuiu para popularizar o bebop ao lado de Charlie Parker, foi uma figura central no surgimento do jazz modal, antes de levá-lo ao rock, ao funk e até ao hip-hop. Essa evolução constante foi, de certa forma, sua marca registrada. "Para mim, ele é o símbolo do músico que está sempre em busca de algo", resume o trompetista francês Julien Alour. "O que mais me interessa na música e na arte em geral é sentir que, por trás de uma obra, há alguém que busca algo. E Miles Davis passou a vida buscando… e encontrando!"
Essa evolução permanente também é destacada por Nicolas Geneste, trompetista franco-beninense. "Ele sempre esteve atento às novas músicas, aos novos músicos, o que fez com que tivesse uma grande abertura. Seguiu caminhos que nem sempre eram evidentes, o que às vezes era criticado por seu público."
Essa inventividade constante o levou a conduzir o jazz em direção a uma música mais depurada, mais contemplativa. "Miles tinha uma sensibilidade que talvez fosse mais feminina do que a de outros trompetistas", tenta explicar Nicolas Geneste. "Sua música é muito interior, sentimos sua fragilidade. Ele talvez não tivesse a virtuosidade de um Clifford Brown ou de um Freddy Hubbard [dois músicos de jazz ativos a partir das décadas de 1940 e 1950], mas tinha uma sensibilidade própria que me tocou muito."
Miles ficou marcado por tocar "menos notas", mas com mais intenção. Essa abordagem aparece até hoje na obra de artistas como o franco-libanês Ibrahim Maalouf, que muitas vezes constrói longas linhas melódicas privilegiando os silêncios para reforçar a emoção.
Mas Davis ficou conhecido principalmente por sua capacidade de acompanhar as transformações da música ao longo do tempo. Até o rap influenciou seu trabalho pouco antes de sua morte, em 1991.
Luta contra o racismo por meio da arte
Nascido em 1926, em Illinois, Miles Davis desenvolveu a paixão pela música influenciado pelos trompetistas que tocavam em sua cidade natal, St. Louis. Fascinado pelo bebop e pela nova geração do jazz que surgia na época, ele rapidamente se mudou para Nova York e, em pouco tempo, tornou-se o trompetista oficial de outro ícone do gênero, Charlie Parker.
A partir daí, sua carreira ganhou impulso contínuo: apresentações em clubes de jazz de Nova York, participação em grandes festivais, colaborações prestigiadas e reconhecimento junto a uma burguesia branca, embora estivesse consciente do racismo latente nos Estados Unidos do final dos anos 1940. Foi ideia de Davis, por exemplo, colocar, em 1961, uma mulher negra na capa do disco Someday My Prince Will Come, uma iniciativa rara em um mercado habituado a modelos brancas.
Relação com a França
Miles Davis teve uma relação profunda com a França, que desempenhou um papel importante em sua vida pessoal e artística. No final da década de 1940 e no início dos anos 1950, o músico encontrou no país europeu um reconhecimento que ainda não tinha plenamente nos Estados Unidos. Em Paris, o público e a crítica valorizavam o jazz como uma forma de arte sofisticada, e não apenas como entretenimento.
Durante sua primeira viagem a Paris, em 1949, Davis viveu um relacionamento marcante com a cantora e atriz francesa Juliette Gréco. Ele sempre descreveu esse período como um dos mais felizes de sua vida. O romance também teve um peso simbólico, já que ele afirmou ter vivido ali, pela primeira vez, uma experiência com menos preconceito. Frequentemente, o músico destacava que, ao contrário dos Estados Unidos da época, marcados pela segregação racial, sentia-se respeitado como artista e como homem em Paris.
Essa relação com a cultura francesa se consolidou, de certa forma, quando Davis compôs e gravou, em 1957, a trilha sonora do filme "Ascensor para o Cadafalso", dirigido por Louis Malle e estrelado por Jeanne Moreau. A música foi composta de forma quase improvisada, enquanto ele assistia às imagens do filme, tornando-se uma das trilhas sonoras de jazz mais icônicas da história do cinema.
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