Miguel Falabella diz que musical sobre Gil retrata artista e sua geração que nos salvou da caretice
'A transgressão deles nos mantém vivos. Senão, teríamos 'emburacado' como nação sabe Deus para onde, para uma caretice asquerosa, para um mundo que não se deseja', diz diretor de 'Gilberto Gil - Andar Com Fé'
Com direção de Miguel Falabella e texto de Newton Moreno, o musical "Gilberto Gil - Andar Com Fé" estreia no Teatro Santander, em São Paulo. Estrelado por Gui Ventura, o espetáculo revisita a vida e a obra do cantor sob a ótica mítica do Tempo Rei, sem linearidade cronológica. A montagem exalta a geração transgressora dos anos 1960 e retrata marcos como a Tropicália, o exílio e dores pessoais, trazendo fortes referências às artes plásticas brasileiras.
No musical inédito Gilberto Gil - Andar Com Fé, que entra em temporada nesta quinta-feira, 20, no Teatro Santander, em São Paulo, o tempo, tema de inúmeras composições do artista baiano, é personagem fundamental na história. Simbolizado pela figura mítica de Tempo Rei, é ele que costura e brinca com as principais passagens da vida e da carreira de Gil.
Escrita por Newton Moreno, com direção de Miguel Falabella e com Bárbara Guerra como diretora associada, a produção coloca 34 atores em cena para mostrar passagens importantes de Gil, como a Tropicália, a prisão durante a ditadura militar e o exílio em Londres, além de aspectos da vida pessoal, como a infância em Ituaçu, na Bahia, onde foi criado, amores e filhos.
Nada engessado, nem com compromisso rígido com o tempo cronológico — olha ele aí, mais uma vez, decisivo —, como explica Falabella ao Estadão. "Quis dar uma cara da geração dele. Homenagear o teatro combativo dos anos 1960, a sonoridade. É uma geração muito importante, que nos salva até hoje. A transgressão deles nos mantém vivos. Senão, teríamos 'emburacado' como nação sabe Deus para onde, para uma caretice asquerosa, para um mundo que não se deseja", diz.
"É uma geração esteticamente f... que nos formou", segue Falabella. "Como você conta uma história como a do Gil em duas horas? Não tem como. Quer saber mais? Dá um Google, compra um livro. O musical é um mergulho, uma onda de inspiração", antecipa-se, sobre possíveis críticas.
Nesse expresso sobre Gil, tem a pintora e escultora Lygia Clark (1920-1988) no cenário. "Parece um pássaro, na minha cabeça. Uma ave de prata. Um espaço com rampas", explica. Há ainda a evocação ao pintor Alfredo Volpi (1896-1988), com bandeirinhas suspensas, e a Hélio Oiticica (1937-1980), com sua obra Seja Marginal, Seja Herói.
O diretor, que acompanha esse período de estreia de Portugal, onde está para as filmagens de O Pecado Mora em Cima, com Marisa Orth, diz que deseja que as pessoas percebam essas referências geracionais. "Não é um musical convencional", alerta.
Os figurinos também carregam alusões. As roupas base são "sessentosas", define Falabella. Em cima e por baixo delas, há camadas. As saias de chita conversam com as bandeirinhas de Volpi, quando a música é Óia Eu Aqui de Novo, famosa na voz de Luiz Gonzaga, uma das inspirações para Gil. O gibão é colorido. "Quem vai ao teatro são pessoas antenadas, que sabem do que se está falando", afirma.
O musical também fala de perdas, sobretudo a mais recente de Gil, sua filha Preta Gil, morta em 2025, vítima de câncer. "Gil, a essa altura da vida, nos dá essa lição sobre como trabalhar a perda de uma maneira dolorida, mas poética. E essa aceitação de que voltaremos algum dia a ser vida, vibração. Algo esperançoso. Aliás, esse homem tem sido um acalento há muitos anos", define Falabella.
Quem é o ator que interpreta Gilberto Gil no musical
O escolhido para viver Gil em Gilberto Gil - Andar Com Fé foi o ator, cantor e compositor mineiro Gui Ventura, de 37 anos. Ele concorreu com um batalhão de 800 candidatos iniciais. No segundo dia de teste, Ventura cantou para o diretor Miguel Falabella e para a diretora associada Bárbara Guerra a canção Aqui e Agora, lançada por Gil em 1977, que não constava da lista de pedidos da produção.
O tempo, que é rei, ou que, como Gil diz em Aqui e Agora, é o que "o coração tributa", foi fundamental para Ventura. Anos atrás, pressentiu (ou previu?) que um dia interpretaria Gil, embora a intuição apontasse para uma tela de cinema. Quando foi fazer o teste para o musical, saiu de casa disposto a ganhar o posto de protagonista. "Já fui para o teste como Gilberto Gil. Fui de personagem. Isso pode ter sido um ponto a favor", diz Ventura, que tem um álbum lançado, Dois Lados, de 2017.
Ele aponta outros. "Penso que fui me preparando ao longo dos anos. Há algumas semelhanças, além da aparência. Sou compositor. Componho partindo do violão, que tem muito da escola do Gil. Sou canceriano como ele. Talvez tenha um aspecto de energia que, nesse sentido, leve a Gil."
Falabella, que dirigiu musicais como Alô, Dolly! (2013), Hairspray (2009) e Elvis - A Musical Revolution (2024), se diz democrático quando está na tarefa de escolher um ator para protagonizar um espetáculo, ouvindo os outros integrantes da equipe de criação. Sobre Ventura, ele revela não ter sido tão difícil — ele confessa que, no final, havia sete ou oito de fato na disputa. "Ele soube cantar, tocar e dizer o texto", avalia.
Ventura dá pistas sobre qual Gil leva para o palco. "Achamos um bom equilíbrio entre a vitalidade do Gil jovem e alguns aspectos do Gil mais maduro. Procurei não ir para um lugar muito caricato ou burlesco. Me apossei dos gestos e dos ritmos para que depois isso fluísse e fizesse parte de mim", explica.
Para o ator, Gil é colocado em um lugar de entidade, "divinal". O musical, no entanto, vai mostrar vulnerabilidades de Gil. "O que ele viveu e teve que lidar para se transformar em alguém tão equilibrado, sereno e profundo", finaliza.
Serviço
- Gilberto Gil - Andar Com Fé
- Estreia 20/8
- 5ª e 6º, 20h; sábado, 16h e 20h; domingo, 15h e 19h
- Teatro Santander. Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2.041, Complexo JK Iguatemi
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