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Mata Hari, a dançarina que virou espiã durante a 1ª Guerra

Holandesa que assumiu o papel de uma indiana para se salvar financeiramente acabou envolvida em relações ainda mais perigosas

6 ago 2026 - 10h36
(atualizado às 10h54)
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Em dificuldades financeiras, Mata Hari aceitou o serviço de espiã – e agente duplo, mas acabou no pelotão de fuzilamento condenada por "alta traição"
Em dificuldades financeiras, Mata Hari aceitou o serviço de espiã – e agente duplo, mas acabou no pelotão de fuzilamento condenada por "alta traição"
Foto: DW / Deutsche Welle

Quando Mata Hari apareceu pela primeira vez sob os holofotes em Paris, em 1905, a alta sociedade ficou fascinada. "Ela dançava com véus e sutiãs decorados com joias - e praticamente mais nada. Antes dela, ninguém havia se atrevido a permanecer diante dos deuses com esse êxtase cintilante e sem o véu. E com movimentos incríveis, ousados e recatados ao mesmo tempo", dizia a imprensa parisiense. Assim como os jornalistas, todos os demais também sentiam ter assistido à apresentação de uma dançarina de um templo sagrado.

Na verdade, porém, quem subia ao palco era uma holandesa de cabelos escuros que precisava urgentemente de dinheiro. Hari aproveitava-se do fato de que a Paris da Belle Époque estava louca por tudo que era exótico e, assim, se passava por uma indiana. A artista inventou uma história, em que era filha de um brâmane muito respeitado. "Minha mãe, a primeira bajadere [dançarina] do templo de Randa Swany, morreu aos quatorze anos, no ano em que nasci. Depois que os sacerdotes do templo cremaram o corpo dela, me adotaram e me batizaram com o nome de Mata Hari, que significa 'olho do amanhecer'."

Hari contava que, desde pequena, havia aprendido as danças sagradas do templo. Nas apresentações, deixava cair um véu após o outro. Mais tarde, ela diria: "Nunca dancei bem. O fato de as pessoas virem me ver ocorreu simplesmente porque fui a primeira a ousar se apresentar nua ao público."

Como a filha de um chapeleiro holandês se tornou Mata Hari

Nos salões da alta sociedade, todos disputavam a atenção de Mata Hari. Mas ninguém imaginava que o nome verdadeiro dela era Margaretha Geertruida Zelle e que a "indiana" era natural da pequena cidade holandesa de Leeuwarden. Lá, ela veio ao mundo em 7 de agosto de 1876 como a filha de um chapeleiro. O pai de Hari, que ficou muito rico com especulações na bolsa, a enchia de presentes: no aniversário de seis anos, ela ganhou uma carruagem, puxada por cabras.

Porém, aos 13 anos, a vida de luxo chegou ao fim. O pai de Margaretha vai à falência e abandona a família. Dois anos depois, a mãe dela morre. A menina se muda para morar com parentes. Certa dia, se depara com um anúncio no jornal: "Oficial das Índias Orientais Holandesas [atual Indonésia], atualmente em licença para visitar a família, busca uma moça simpática para um futuro casamento. A situação financeira não importa", dizia. Margaretha e o oficial colonial John Rudolf Mac Leod, nobre holandês de ascendência escocesa, logo se tornam um casal. Em 1897, a jovem acompanha o marido, 20 anos mais velho, à então colônia das Índias Orientais Holandesas.

No entanto, o sonho de uma vida paradisíaca no Oriente não se concretiza. O relacionamento é marcado por desentendimentos. Como se não bastasse, o filho de dois anos morre, vítima de envenenamento. Quando os MacLeods retornam à Europa, em 1902, o casamento já havia ido por água abaixo. John Rudolf abandona a esposa e leva a filha consigo. Ele não paga pensão alimentícia, e deixa Margaretha por conta própria.

No começo, ela trabalha para pintores parisienses como modelo; depois, tenta a sorte no circo e, por fim, cria a personagem fictícia Mata Hari, que a tornará famosa. A partir de então, se apresenta nas melhores casas de Viena, passando por Monte Carlo e Berlim até Milão, e se hospeda nos hotéis mais caros. Dança nas noites da família de banqueiros Rothschild e diante do imperador alemão Guilherme 2º e sua família. O sucesso de Hari garante a ela acesso aos círculos sociais mais elevados. A artista se envolve com diplomatas e militares de alto escalão, que pagam caro pela sua companhia.

Espiã durante a Primeira Guerra Mundial

Mas, em algum momento, a estrela de Mata Hari começa a perder brilho. Dançarinas mais jovens passam a imitá-la, e o público parisiense, ávido por novidades, já procura a próxima sensação. Quando a Primeira Guerra Mundial começa, em 1914, Mata Hari já não consegue sustentar o estilo de vida luxuoso. Por isso, aceita uma oferta do cônsul alemão nos Países Baixos para saldar suas dívidas. Ele promete pagar ainda mais se ela se encontrar com homens influentes do lado inimigo e arrancar informações deles: 20 mil francos como pagamento inicial, uma fortuna para a época. Assim, Mata Hari se torna a agente H21.

O serviço secreto francês também vai atrás de Hari e a recruta como espiã, oferecendo a ela uma quantia elevada. Assim, a artista assume a função de uma agente duplo. Mas era uma armadilha. Os franceses a haviam recrutado apenas para incriminá-la por espionagem em favor dos alemães. Além disso, ela havia sido observada pelo serviço secreto britânico durante as suas viagens pela Europa, levantando suspeitas. Até que, em 13 de fevereiro de 1917, Mata Hari é presa.

Em 15 de outubro, Mata Hari é executada por alta traição, aos 41 anos, no fosso da fortaleza de Vincennes, nos arredores de Paris. Segundo testemunhas, ela enfrentou de cabeça erguida o pelotão de fuzilamento composto por doze soldados e chegou a lançar beijos a eles. Recusou a venda nos olhos e dirigiu suas últimas palavras ao comandante que deu a ordem de fogo: "Eu lhe agradeço, monsieur!"

Há dúvidas, no entanto, se Mata Hari tenha sido, de fato, uma espiã brilhante. Seja o que for que ela tenha transmitido, suas informações dificilmente influenciaram o curso da Primeira Guerra. Isso é o que indicam documentos da época do serviço secreto britânico, revelados apenas décadas mais tarde. Muito provavelmente, Mata Hari serviu como um bode expiatório num momento em que o entusiasmo pela guerra diminuía sensivelmente e o tribunal militar francês precisava urgentemente de alguém a quem atribuir a culpa.

Mas, de todo modo, Hari, ou Zelle, soube encenar a própria lenda até o último suspiro.

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