Livros de Imre Kertész e Aharon Appelfeld constroem pontes sobre os abismos da história judaica
Os abismos e as catástrofes da história do século 20 impuseram rupturas radicais sobre a identidade e a cultura judaicas. O Nobel Imre Kertész e Aharon Appelfeld abordam-nas em livros recém-lançados no Brasil
Durante a Idade Média e a Era Moderna a situação social e jurídica dos judeus na Europa foi, de um modo geral, de exclusão e marginalidade. Semi isolados em guetos e em aldeias, mas, ao mesmo tempo, convivendo com as populações majoritárias e com elas se relacionando de maneiras mais ou menos hostis a depender das épocas e dos lugares, os judeus preservaram uma identidade singular. Há nela um aspecto linguístico, em que se destaca a língua ídiche, derivada do alemão medieval e do hebraico; um aspecto religioso, marcado pela observância da halachá, o conjunto de leis de origem bíblica que governam todos os aspectos da vida judaica; e um aspecto étnico-nacional-messiânico, cujo fulcro é a esperança pela vinda do Messias, pelo retorno de todos os judeus às terras da promissão bíblica e pela reconstrução do Templo, arrasado pelos exércitos do general romano Tito em 70 AD.
No centro da existência judaica no contexto medieval e moderno, assim, encontra-se a noção de exílio ou, em hebraico, galut. Este exílio, considerado como uma forma de punição divina, já que a permanência na Terra Prometida está associada, no pensamento bíblico, à estrita obediência aos preceitos religiosas, era entendido como um tempo de espera e levava os próprios judeus a certo grau de alienação com relação aos lugares onde viviam. Sua permanência ali era frequentemente vista como provisória e seu fim desejado seria o advento da Era Messiânica, com o retorno às terras dos ancestrais.
Estes conceitos passaram a ser relativizados a partir do advento do Iluminismo. Moses Mendelssohn (1729-1786), filósofo iluminista judeu alemão, de origem polonesa, foi o primeiro a formular a ideia de que, na nova era que se anunciava na Europa, novos valores e novas visões de mundo deveriam ser adotados pelos judeus. Mendelssohn defendia a plena integração e participação dos judeus nos Estados Nacionais modernos, o que, implicitamente, significava também a renúncia à ambição de retorno a um Estado próprio nas terras dos ancestrais.
As ideias de Mendelssohn estão vinculadas às transformações pelas quais passaram os Estados europeus ocidentais no fim do século 18, que acabariam levando à Revolução Francesa e à separação entre religião e Estado. Napoleão Bonaparte teria dito, a respeito dos judeus: "devemos dar-lhes tudo enquanto indivíduos e nada enquanto nação". Ou seja, desde que os judeus renunciassem à ideia de retorno à terra de seus antepassados, deveriam tornar-se cidadãos franceses com todos os direitos assegurados.
Frederico o Grande da Prússia, e José II da Áustria, déspotas esclarecidos, foram também, cada qual à sua maneira, pioneiros no processo que ficou conhecido como "emancipação judaica": a mudança de estatuto dos judeus na Europa, que passaram de párias a cidadãos de estados modernos, devendo, para tanto, adotar os valores da modernidade oitocentista. José II, na verdade, antecipou-se em sete anos à Revolução Francesa: seu Édito de Tolerância, promulgado em 1792, pode ser considerado como o primeiro passo da emancipação judaica na Europa e por muito tempo ele foi lembrado e honrado pelos judeus do antigo Império Habsburgo.
Foi, porém, sob o reino de Francisco José da Áustria (1830-1916), o tão celebrado Kaiser Franz Josef, cujo reinado durou 68 anos, que as promessas anunciadas pelo projeto de emancipação judaica de fato pareceram estar se concretizando plenamente. Sua legislação liberal gradativamente concedeu aos judeus deste que era o mais importante império europeu, com cerca de 50 milhões de súditos, a plena igualdade de direitos e levou a uma radical transformação em sua situação social. O reinado de Francisco José foi a época do apogeu do judaísmo austro-húngaro e não é por acaso que, sob sua égide, floresceram talentos como os de Gustav Mahler (1860-1911), Sigmund Freud (1856-1939), Arthur Schnitzler (1862-1931) e Stefan Zweig (1881-1942), para citar apenas alguns exemplos óbvios.
A esperança messiânica vinculada às antigas crenças religiosas judaicas dava lugar, entre estes intelectuais e artistas, ao protagonismo na cultura humanística europeia moderna, cujos valores éticos e estéticos teriam um caráter universal e pacifista. O otimismo com relação ao futuro, indiretamente vinculado ao próprio conceito oitocentista de "progresso", estava no cerne de sua visão de mundo, que via na expansão da consciência a única via possível para o futuro da Humanidade. Como afirma Stefan Zweig em sua autobiografia O Mundo Que Eu Vi, acreditava-se, na Viena do fim do século 19, mais no progresso do que na Bíblia. A modernidade anunciava-se como a nova Terra Prometida para os judeus da Europa Central e Ocidental.
Dois livros cruciais para compreender o fim do 'sonho europeu' da emancipação judaica
Os diferentes nacionalismos que levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial, ao desmantelamento do Império Habsburgo e à ascensão do fascismo e do nazismo representaram, para muitos, o fim deste "sonho europeu" da emancipação judaica. Mas a memória das gerações criadas sob o signo deste projeto não se apagou e é dela que tratam duas obras literárias cruciais que agora chegam ao leitor de língua portuguesa: Ausência de Destino, romance de fundo autobiográfico do húngaro Imre Kertész (1929-2016) e História de Uma Vida, autobiografia do romancista israelense Aharon Appelfeld (1932-2018).
Nem Kertész nem Appelfeld conheceram em primeira mão os tempos do Kaiser Franz Josef, mas ambos vieram ao mundo em terras que, até pouco antes de seus nascimentos, pertenciam ao Império Habsburgo: o primeiro em Budapeste, antiga segunda capital do Império, com uma expressiva população judaica; o segundo em Czernowitz, (hoje Cernauti, Ucrânia), cidade cuja população judaica aderia entusiasticamente à cultura austro-germânica desde os tempos de José II, quando fazia parte do Império Habsburgo, e que continuou a falar e a pensar em alemão ainda por muitas décadas depois de 1918.
Tanto Kertész quanto Appelfeld sofreram as atrocidades perpetradas pelos nazistas: o primeiro sobreviveu aos campos de extermínio de Auschwitz e de Buchenwald, tendo retornado à sua Budapeste natal após o término da Segunda Guerra Mundial para descobrir que sua família havia sido assassinada. O segundo conseguiu fugir depois de ter sido deportado junto com o pai para o campo de concentração de Transnístria. Sobreviveu à guerra e à perseguição embora ainda fosse uma criança escondendo-se em florestas na Ucrânia e em 1946 foi levado ao que era então o embrião do Estado de Israel, na Palestina britânica.
Mais do que obras de testemunho sobre o genocídio e seus desdobramentos, estes dois livros são tentativas de narrar o inenarrável choque entre os ideais que estes autores herdaram de seus pais e avós, que confiavam cegamente nas garantias que os novos tempos da emancipação judaica supostamente ofereciam aos judeus da Europa, e as realidade do extermínio em massa com as quais se confrontaram diretamente. Um abismo intransponível abriu-se entre as crenças e os valores legados pelos pais e avós destes dois autores e os fatos aos quais se viram expostos. A perplexidade que acompanharia seus caminhos de vida daquele momento em diante é o que as duas obras têm em comum.
Como é 'Ausência de Destino', de Imre Kertész
No início do seu livro, que Kertész sempre afirmou ser um romance, mas que tem paralelos evidentes com sua trajetória de vida, ele descreve uma cena doméstica. É o ano de 1944 e a família está reunida em seu apartamento de classe média em Budapeste. Já estão em vigor leis que restringem os direitos dos judeus e na casa começam a faltar alimentos. O pai acaba de receber uma intimação para se dirigir a um campo de trabalhos forçados. Lajos, tio do protagonista Gyurika, na verdade irmão de sua madrasta, lhe diz: "Agora você também partilha do destino comum dos judeus. (...) Nossa sina é a perseguição ininterrupta há milênios. (...) Os judeus têm de aceitar com resignação os desígnios de Deus pelos pecados do passado."
Gyurika, até então, nunca tinha ouvido falar de tais ideias, vinculadas a crenças religiosas esquecidas na era da emancipação. Mas, se ele nunca as incorporou, seu destino nos campos de extermínio e os anos que passou sob a perseguição do regime comunista húngaro no pós-guerra sepultaram, definitivamente, as ideias emancipatórias que havia herdado de seus pais e avós, deixando-o, por assim dizer, de mãos vazias.
De fato, aos 14 anos de idade, pouco tempo depois do aprisionamento de seu pai, o próprio Kertész foi arrancado de sua família e lançado ao universo infernal dos campos de extermínio, de onde voltaria irremediavelmente transformado pouco mais de um ano mais tarde. Ausência de Destino pode ser lido como um romance de formação às avessas e uma crônica do processo de desumanização pelo qual passaram seres humanos nas entranhas do aparelho concebido pelos nazistas, onde entravam indivíduos dotados de nome, história e personalidade e em pouco tempo, se não eram assassinados, eram privados de tudo o que constituíra sua humanidade para se tornarem objetos cuja força de trabalho era sugada até a última gota.
A obra de Kertész tornou-se emblemática do desamparo da condição humana sob contextos totalitários. Ele não enfatiza as descontinuidades existentes entre a realidade dos campos e o mundo fora de seus limites, e sim o que estes dois âmbitos têm em comum. A comissão que o agraciou com o Nobel de Literatura em 2002 afirmou: "Em sua escrita, Imre Kertész explora a possibilidade de continuar a viver e a pensar como um indivíduo numa era em que a sujeição de seres humanos a forças sociais tornou-se cada vez mais completa. (...) Para ele, Auschwitz não é um acontecimento excepcional como um corpo estranho que subsiste for a da história normal da Europa Ocidental."
E o livro de Appelfeld?
Igualmente inquietante, ainda que sob outro registro, é o livro de Appelfeld. Autor de mais de 30 romances, ele se volta, em sua obra como um todo, sobre o mundo que perdeu ao ser deportado de Czernowitz aos oito anos de idade, e que foi sepultado sob as cinzas do genocídio: aquele dos judeus emancipados e modernizados de sua cidade natal, que confiavam em seu pertencimento à cultura austro-alemã. Judeus que, como ele disse em entrevista a Philip Roth publicada no livro Entre Nós, tinham uma "atitude em relação à cultura alemã que era quase religiosa."
De fato, o conceito alemão de Bildung, termo que poderia ser traduzido por ilustração e formação laica, substituíra a educação religiosa no contexto do humanismo alemão oitocentista e muitos judeus aderiram entusiasticamente a este novo paradigma. E este grupo, ao qual pertenciam os pais de Appelfeld, é o que mais perplexo ficou ante a ascensão do nazismo.
Ao chegar à Palestina britânica após o término da guerra, em 1946, Appelfeld era um adolescente de 14 anos. Foi encaminhado a uma escola agrícola que tinha como missão transformar jovens sobreviventes da guerra na Europa em membros de comunas agrárias e soldados, no contexto de um projeto de Estado estruturado em torno do socialismo, do trabalho na terra e do militarismo.
Isto implicava na necessidade de obliterar os paradigmas sobre os quais se assentava o mundo de suas origens. Desnecessário dizer que, neste contexto, a língua e a cultura alemãs eram tabus, mais do que quaisquer outras, o que levou Appelfeld a se confrontar com a imposição de esquecer sua língua mãe e adotar um novo idioma, o hebraico, e de recalcar o desejo íntimo que tinha de dar continuidade à identidade adquirida na infância.
Como em Kertész, a ênfase encontra-se, aqui, sobre as dissonâncias entre as convicções e esperanças herdadas dos pais e avós dos autores e a realidade dos anos 1940 e 1950. Mas se o ceticismo é o registro que predomina na obra de Kertész, em Appelfeld, a memória funciona como o fio de Ariadne ante a desorientação de alguém que se encontra aprisionado nos labirintos do autoritarismo.
Appelfeld mostra como a memória o ajudou a preservar a integridade durante seus anos de perseguição na Europa e, posteriormente, de internato na escola agrícola: "Eu contemplava e me cercava de imagens e sons, ligando-me à minha vida anterior e contente por não ser mais um entre milhares de anônimos."
Todo empenho literário de Appelfeld pode ser visto como um ato de resistência a imposições sociais: suas reconstruções literárias de um universo desaparecido são gestos de resistência às catástrofes da História. E se ele escreveu seus romances em hebraico, idioma que chamava de "língua-madrasta", seus personagens falam as línguas que se ouvia na Czernowitz da sua infância: o alemão, o ídiche, o ucraniano e o romeno - e não o hebraico da revolução sionista.
Kertész e Appelfeld, assim, constroem pontes sobre os abismos da história judaica do século 20 e participam, cada qual à sua maneira, do empenho pela preservação e pela expansão da consciência individual, repudiando a embriaguez dos fanatismos. E entendem ser este o único caminho possível para um futuro menos brutal e menos violento, para os judeus tanto quanto para toda a Humanidade.
Livros
Ausência de Destino
- Autor: Imre Kertész
- Tradução: Paulo Schiller
- Editora: Carambaia (232 págs.; R$ 119,90; R$ 83,90 o e-book)
História de uma Vida
- Autor: Aharon Appelfeld
- Tradução: Paulo Geiger
- Editora: Companhia das Letras (200 págs.; R$ 89,90; R$ 39,90 o e-book)
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