Hoje só 17% dos médicos usam inteligência artificial. Até 2030, seis em cada dez consultas podem ter apoio da tecnologia
Em poucos anos, antes mesmo de você falar, seu médico poderá ter em mãos uma análise completa feita por algoritmos: seus exames anteriores, histórico familiar e sinais vitais já cruzados para indicar riscos que nem haviam se manifestado. O que parecia ficção científica está se tornando realidade no Brasil.
O pano de fundo é claro: a expectativa de vida do brasileiro voltou a crescer, chegando a 76,4 anos em 2023, segundo o IBGE. O desafio agora é garantir que esses anos extras sejam vividos com qualidade, autonomia e saúde. Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) surge como aliada estratégica, capaz de antecipar riscos, personalizar tratamentos e devolver aos médicos o tempo precioso do contato humano com seus pacientes.
Hoje, apenas 17% dos médicos brasileiros utilizam algum recurso de IA — 14% no sistema público e 20% no privado, segundo a pesquisa TIC Saúde 2024. Mas as projeções são ousadas: até 2030, o mercado de IA em saúde no país pode crescer de 84 milhões de dólares para quase 789 milhões, uma alta de nove vezes. No mundo, o salto vai de 19 bilhões de dólares em 2023 para 188 bilhões em 2030.
Nordeste: quando tecnologia encontra tradição médica
Se São Paulo concentra grandes hospitais privados, Recife se consolida como referência em inovação em saúde. A cidade abriga o Porto Digital, com mais de 475 empresas e 21 mil empregos, além da MV, líder latino-americana em softwares de gestão hospitalar. Essa combinação criou um ecossistema que coloca médicos e hospitais em padrão internacional.
Expansão na Grande Recife: Hospital Guararapes aposta em tecnologia
O movimento não se restringe à capital. Em Jaboatão dos Guararapes, o Hospital Guararapes passa por uma fase de expansão e modernização. Novos leitos de alta complexidade em neurologia, trauma e ortopedia estão sendo abertos, acompanhados de investimentos em soluções digitais de monitoramento. O objetivo é claro: unir tecnologia e cuidado humano, consolidando-se como referência no atendimento integrado para a população da Grande Recife.
É nesse ambiente que médicos referências em suas áreas começam a experimentar os ganhos concretos da IA. O angiologista Dr. Rodrigo Canto, que atua em Recife, relata:
"A grande virada não é ter algoritmos, mas ter dados clínicos confiáveis e perguntas certas. Hoje já usamos modelos que ajudam a estratificar risco vascular e não deixar passar sinais de trombose em exames de triagem. Isso me dá tempo para focar na conversa com o paciente, nos hábitos e na adesão, que é onde a vida realmente muda."
O debate global e o alerta da OMS
A discussão não é apenas brasileira. Em 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou diretrizes para o uso ético da IA em saúde, estabelecendo seis princípios centrais: transparência, aplicabilidade dos algoritmos, proteção de dados, responsabilidade governamental, equidade de acesso e a manutenção do médico como decisor final.
Nos anos seguintes, a OMS reforçou os alertas. Em 2023 e 2024, chamou atenção para os riscos dos grandes modelos de linguagem aplicados em triagens e chatbots médicos.
Embora ampliem o acesso em países com déficit de profissionais, podem também reforçar desigualdades ou induzir diagnósticos incorretos caso não haja protocolos de auditoria contínua.
Essa tensão entre oportunidade e risco é hoje o ponto central. Na visão da OMS, países que conseguirem equilibrar inovação com regulação colherão anos adicionais de saúde e reduzirão custos hospitalares. Os que não fizerem isso podem transformar a promessa em ameaça.
Para Gabriel Dantas, empresário e especialista em marketing e comportamento, reconhecido como uma das maiores referências nacionais em seu segmento, a transformação da OMS já chegou ao dia a dia dos pacientes. "IAs mais humanizadas permitem agendar consultas de forma rápida, sem filas e com aumento real no número de atendimentos. Em campanhas que desenvolvemos, médicos que uniram tecnologia e marketing cresceram mais de 67% no faturamento em relação a colegas que não investem nesses recursos. Muitos sabem da importância da inovação, mas não conseguem aplicá-la. Por isso é essencial contar com especialistas capazes de garantir previsibilidade e resultados consistentes."
Quando a IA muda vidas: a revolução na mobilidade humana
Na ortopedia, a mudança já é perceptível. A capsulite adesiva, conhecida como "ombro congelado", é uma condição dolorosa que limita movimentos simples como vestir-se ou pentear o cabelo. O diagnóstico costuma ser demorado e dependente da experiência clínica.
Com a IA, esse cenário muda. Modelos de imagem digital ajudam a identificar sinais precoces e protocolos de reabilitação são ajustados individualmente, acelerando a recuperação. O ortopedista Dr. Gustavo Borgo, especialista no tema observa:
"Na dor do ombro, a inteligência artificial ajuda a reduzir a incerteza. Ela guia o diagnóstico diferencial e a reabilitação, permitindo que o paciente retome a autonomia no dia a dia — vestir-se, dirigir, trabalhar. Além disso, consigo acompanhar dados concretos da evolução, não apenas impressões clínicas."
O resultado é direto: pacientes recuperam independência mais cedo, enquanto o sistema de saúde economiza recursos antes destinados a internações prolongadas e cirurgias de última hora.
O que está em jogo: longevidade com qualidade
Se a telemedicina já representou um salto histórico — colocando o acesso médico literalmente na palma da mão de milhões de brasileiros — agora a inteligência artificial surge como a próxima fronteira. Mais do que uma tendência, trata-se de uma tecnologia que veio para ficar e que poderá redefinir a forma como cuidamos da saúde.
Não é exagero dizer que a longevidade do futuro depende da inteligência artificial. Se hoje apenas 1 em cada 6 médicos brasileiros usa a tecnologia, em menos de dez anos poderemos ver 6 em cada 10 consultas apoiadas por algoritmos.
Os ganhos vão além da técnica. Significam médicos menos sobrecarregados, mais tempo para ouvir seus pacientes; diagnósticos antecipados, evitando que doenças se agravem; e um sistema de saúde que gasta menos corrigindo e mais prevenindo.
A questão, portanto, não é se a IA vai mudar a saúde, mas como a sociedade brasileira vai moldar essa transformação. O país já mostra sinais de protagonismo: tem regulação, hubs tecnológicos, médicos dispostos à inovação e hospitais — de Recife ao Guararapes — modernizando-se para esse novo tempo.
Se esse caminho for consolidado, 2030 não será lembrado apenas como o ano em que a maioria das consultas contou com IA. Será o ano em que o Brasil mostrou que é possível viver mais — e melhor.