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Hoje só 17% dos médicos usam inteligência artificial. Até 2030, seis em cada dez consultas podem ter apoio da tecnologia

21 ago 2025 - 18h39
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Em poucos anos, antes mesmo de você falar, seu médico poderá ter em mãos uma análise completa feita por algoritmos: seus exames anteriores, histórico familiar e sinais vitais já cruzados para indicar riscos que nem haviam se manifestado. O que parecia ficção científica está se tornando realidade no Brasil.

Rodrigo Canto / Gustavo Borgo / Gabriel Dantas
Rodrigo Canto / Gustavo Borgo / Gabriel Dantas
Foto: Márcia Piovesan

O pano de fundo é claro: a expectativa de vida do brasileiro voltou a crescer, chegando a 76,4 anos em 2023, segundo o IBGE. O desafio agora é garantir que esses anos extras sejam vividos com qualidade, autonomia e saúde. Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) surge como aliada estratégica, capaz de antecipar riscos, personalizar tratamentos e devolver aos médicos o tempo precioso do contato humano com seus pacientes.

Hoje, apenas 17% dos médicos brasileiros utilizam algum recurso de IA — 14% no sistema público e 20% no privado, segundo a pesquisa TIC Saúde 2024. Mas as projeções são ousadas: até 2030, o mercado de IA em saúde no país pode crescer de 84 milhões de dólares para quase 789 milhões, uma alta de nove vezes. No mundo, o salto vai de 19 bilhões de dólares em 2023 para 188 bilhões em 2030.

Nordeste: quando tecnologia encontra tradição médica

Se São Paulo concentra grandes hospitais privados, Recife se consolida como referência em inovação em saúde. A cidade abriga o Porto Digital, com mais de 475 empresas e 21 mil empregos, além da MV, líder latino-americana em softwares de gestão hospitalar. Essa combinação criou um ecossistema que coloca médicos e hospitais em padrão internacional.

Expansão na Grande Recife: Hospital Guararapes aposta em tecnologia

O movimento não se restringe à capital. Em Jaboatão dos Guararapes, o Hospital Guararapes passa por uma fase de expansão e modernização. Novos leitos de alta complexidade em neurologia, trauma e ortopedia estão sendo abertos, acompanhados de investimentos em soluções digitais de monitoramento. O objetivo é claro: unir tecnologia e cuidado humano, consolidando-se como referência no atendimento integrado para a população da Grande Recife.

É nesse ambiente que médicos referências em suas áreas começam a experimentar os ganhos concretos da IA. O angiologista Dr. Rodrigo Canto, que atua em Recife, relata:

"A grande virada não é ter algoritmos, mas ter dados clínicos confiáveis e perguntas certas. Hoje já usamos modelos que ajudam a estratificar risco vascular e não deixar passar sinais de trombose em exames de triagem. Isso me dá tempo para focar na conversa com o paciente, nos hábitos e na adesão, que é onde a vida realmente muda."

O debate global e o alerta da OMS

A discussão não é apenas brasileira. Em 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou diretrizes para o uso ético da IA em saúde, estabelecendo seis princípios centrais: transparência, aplicabilidade dos algoritmos, proteção de dados, responsabilidade governamental, equidade de acesso e a manutenção do médico como decisor final.

Nos anos seguintes, a OMS reforçou os alertas. Em 2023 e 2024, chamou atenção para os riscos dos grandes modelos de linguagem aplicados em triagens e chatbots médicos.

Embora ampliem o acesso em países com déficit de profissionais, podem também reforçar desigualdades ou induzir diagnósticos incorretos caso não haja protocolos de auditoria contínua.

Essa tensão entre oportunidade e risco é hoje o ponto central. Na visão da OMS, países que conseguirem equilibrar inovação com regulação colherão anos adicionais de saúde e reduzirão custos hospitalares. Os que não fizerem isso podem transformar a promessa em ameaça.

Para Gabriel Dantas, empresário e especialista em marketing e comportamento, reconhecido como uma das maiores referências nacionais em seu segmento, a transformação da OMS já chegou ao dia a dia dos pacientes. "IAs mais humanizadas permitem agendar consultas de forma rápida, sem filas e com aumento real no número de atendimentos. Em campanhas que desenvolvemos, médicos que uniram tecnologia e marketing cresceram mais de 67% no faturamento em relação a colegas que não investem nesses recursos. Muitos sabem da importância da inovação, mas não conseguem aplicá-la. Por isso é essencial contar com especialistas capazes de garantir previsibilidade e resultados consistentes."

Quando a IA muda vidas: a revolução na mobilidade humana

Na ortopedia, a mudança já é perceptível. A capsulite adesiva, conhecida como "ombro congelado", é uma condição dolorosa que limita movimentos simples como vestir-se ou pentear o cabelo. O diagnóstico costuma ser demorado e dependente da experiência clínica.

Com a IA, esse cenário muda. Modelos de imagem digital ajudam a identificar sinais precoces e protocolos de reabilitação são ajustados individualmente, acelerando a recuperação. O ortopedista Dr. Gustavo Borgo, especialista no tema observa:

"Na dor do ombro, a inteligência artificial ajuda a reduzir a incerteza. Ela guia o diagnóstico diferencial e a reabilitação, permitindo que o paciente retome a autonomia no dia a dia — vestir-se, dirigir, trabalhar. Além disso, consigo acompanhar dados concretos da evolução, não apenas impressões clínicas."

O resultado é direto: pacientes recuperam independência mais cedo, enquanto o sistema de saúde economiza recursos antes destinados a internações prolongadas e cirurgias de última hora.

O que está em jogo: longevidade com qualidade

Se a telemedicina já representou um salto histórico — colocando o acesso médico literalmente na palma da mão de milhões de brasileiros — agora a inteligência artificial surge como a próxima fronteira. Mais do que uma tendência, trata-se de uma tecnologia que veio para ficar e que poderá redefinir a forma como cuidamos da saúde.

Não é exagero dizer que a longevidade do futuro depende da inteligência artificial. Se hoje apenas 1 em cada 6 médicos brasileiros usa a tecnologia, em menos de dez anos poderemos ver 6 em cada 10 consultas apoiadas por algoritmos.

Os ganhos vão além da técnica. Significam médicos menos sobrecarregados, mais tempo para ouvir seus pacientes; diagnósticos antecipados, evitando que doenças se agravem; e um sistema de saúde que gasta menos corrigindo e mais prevenindo.

A questão, portanto, não é se a IA vai mudar a saúde, mas como a sociedade brasileira vai moldar essa transformação. O país já mostra sinais de protagonismo: tem regulação, hubs tecnológicos, médicos dispostos à inovação e hospitais — de Recife ao Guararapes — modernizando-se para esse novo tempo.

Se esse caminho for consolidado, 2030 não será lembrado apenas como o ano em que a maioria das consultas contou com IA. Será o ano em que o Brasil mostrou que é possível viver mais — e melhor.

Márcia Piovesan
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