Grafites da antiguidade revelam como era o cotidiano de Pompeia
Novas tecnologias estão tornando visíveis grafites milenários e revelam a vida cotidiana, o humor e as preocupações de pessoas comuns da era romana.Quem acha que pichações do tipo "eu estive aqui" só existem nos banheiros atuais está enganado. Novas tecnologias estão tornando visíveis mensagens gravadas em sítios arqueológicos e revelando detalhes da vida de pessoas comuns - desde escravizados até soldados que, por tédio, entalhavam seus nomes nas paredes.
O centro dessa pesquisa está em Pompeia, a hoje famosa cidade que, no ano 79, foi soterrada por cinzas após uma erupção do vulcão Vesúvio. O que foi uma catástrofe à época, mais tarde tornou-se uma sorte para a arqueologia, já que as espessas camadas de cinzas e lama conservaram de forma extraordinária os edifícios e as ruas.
Desde o início das escavações, no século 18, pesquisadores descobriram inúmeras pinturas, afrescos e mosaicos nas casas da elite. Nos últimos anos, porém, cresceu o interesse pela vida da população menos abastada.
"Nos últimos 15 a 20 anos houve um grande avanço na pesquisa sobre grafites, e isso é muito empolgante", diz a historiadora Rebecca Benefiel, fundadora do Projeto Grafite Antigo, que divulga grafites antigos de Pompeia e da vizinha Herculano. As redes sociais também têm contribuído para aumentar o interesse pelo tema, afirma Benefiel.
Grafites por muito tempo ignorados
A palavra "grafite" vem do grego graphein, que significa "escrever" ou "desenhar". Grafites são textos ou desenhos espontâneos feitos por pessoas no seu cotidiano. Assim como as marcas rabiscadas nas cidades de hoje, eles fornecem um olhar sem retoques sobre a vida de séculos atrás.
"Quando os grafites antigos foram descobertos, nos anos 1830 e 1840, houve grande entusiasmo sobre o que essas pequenas inscrições manuscritas poderiam revelar", comenta Benefiel. Mais tarde, porém, o influente arqueólogo romano August Mau afirmou que essas informações não eram muito substanciais, comparando-as a turistas rabiscando seus nomes por aí. Essa visão freou o estudo dos grafites por décadas.
Vozes que não aparecem nos livros de história
"Com isso, perdemos muita coisa", diz Benefiel. "É fascinante ver o que pessoas de todas as camadas sociais escreviam - e onde." Os grafites estão espalhados pela cidade inteira e não são obra de alguns adolescentes, como às vezes se afirma.
Entre os achados favoritos de Benefiel estão mensagens de pessoas que não aparecem em livros de história. Uma mulher escravizada chamada Methe, por exemplo, escreveu uma prece à deusa Vênus, protetora de Pompeia: "Methe ama Chrestus; que a Vênus de Pompeia seja favorável a eles e que possam compartilhar um só coração." A existência de Methe teria sido completamente apagada, "mas agora temos essa bela oração".
Outras inscrições citam literatura latina, como o início da Eneida, de Virgílio. "Para mim, essas citações são como a nossa música - algo que toca fundo. Pode-se escrever uma frase, e outra pessoa já sabe a próxima", diz Benefiel. Há também inscrições bem-humoradas: uma delas parodia a famosa abertura de Virgílio. Em vez de "Canto as armas e o varão", lê-se "Canto as lavanderias e um corujão, não as armas de um homem."
Novas tecnologias impulsionam pesquisa
A visibilidade atual dessas inscrições só é possível graças a novas tecnologias, como o Reflectance Transformation Imaging (RTI), que usa iluminação especial para revelar marcas finas que não podem ser vistas a olho nu.
Com essa técnica, uma equipe liderada por Marie-Adeline Le Guennec, da Universidade de Quebec, e por Eloise Letellier-Taillefer e Louis Autin, da Universidade Sorbonne, documentou centenas de gravações num antigo corredor que supostamente levava a um teatro em Pompeia - e descobriu outras 80 novas, embora a área já fosse considerada totalmente estudada.
Alguns motivos aparecem com mais frequência que outros, desde barcos meticulosamente entalhados até representações de gladiadores, diz Le Guennec. "Aparentemente, muitos se interessavam mais pelos gladiadores do que pelas tragédias ou comédias do teatro próximo."
Além de retratos, animais e números, os pesquisadores encontraram nomes que indicam origem no Mediterrâneo Oriental. "Acreditamos que eram soldados vindos do Extremo Oriente que passaram algum tempo em Pompeia e deixaram seus nomes nas paredes", diz Le Guennec - uma prova de que mensagens do tipo "eu estive aqui" estão longe de ser um fenômeno recente.
Graças aos avanços tecnológicos, pesquisadores provavelmente poderão descobrir ainda mais sobre a vida de séculos atrás. "Cada uma dessas mensagens é uma voz única e inconfundível, e algo nelas parece incrivelmente imediato e poderoso", diz Benefiel. Especialmente porque oferecem um olhar sobre a vida das pessoas comuns de Pompeia, e não as da elite.