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Geração Z compra câmeras analógicas, mas descarta negativos. Entenda interesse por revelar filmes

Mercado está aquecido com novos estabelecimentos para jovens que alimentam interesse e buscam 'fuga' das redes sociais. Mas o que eles querem apreender com a câmera?

13 ago 2025 - 09h45
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"O futuro será analógico". Foi essa frase que Rosangela Andrade escolheu pintar, ao redor de várias fotos que revelou, na fachada no Clube do Analógico, espaço que mantém há cerca de oito anos em Pinheiros, em São Paulo. Uma provocação, segundo ela.

Qual foi a surpresa quando, no meio do processo, um idoso lhe parou para questionar a afirmação. "Ai, que mentira. Eu ligo para o meu filho, que mora lá na China, e falo em um segundo", teria dito o homem, segundo ela.

A surpresa é maior ainda agora, em 2025, quando a frase deixa de ser uma provocação e passa a ser uma realidade, como Rosangela mesma descreve. "Os jovens estão a fim de uma coisa mais devagar, mais contemplativa, que é o que o analógico oferece. No digital, você olha para a tela. No analógico, você olha para frente", comenta.

Nada foi tão pensado. Tudo foi garimpado. O resultado mistura discos de vinil, um boneco de uma capivara com tênis e bebidas típicas de Minas. Um dos elementos que mais chama a atenção nas redes sociais é o cardápio, feito com papel fotográfico em um álbum nostálgico.

Athos conta que o público que segue o Festival de Filmes Vencidos no Instagram é 65% feminino, na faixa etária entre 18 e 25 anos. O local oferece serviço de digitalização e revelação, que varia entre R$ 40 e R$ 50, a depender da qualidade de imagem escolhida. Segundo o sócio, as lojas de São Paulo e Belo Horizonte, juntas, revelam cerca de 1,4 mil filmes por mês.

O descarte dos negativos

É claro que o tempo do analógico é diferente do cronômetro das redes sociais. Há um prazo de 10 dias úteis para a revelação e digitalização das fotos, mas o estabelecimento possui um "prazo de urgência" - pagando certo valor, o filme pode ser revelado e digitalizado no mesmo dia.

Há também um fenômeno a ser percebido ao visitar o laboratório do local: caixas lotadas de negativos. Segundo Juan e Gabriel Granja, de 24 anos, que também trabalha no local, a grande maioria dos negativos são descartados, já que o público não se interessa em voltar para buscá-los. O interesse, mesmo com o analógico, é ter a versão digital.

Geração Z opta por descartar negativos após digitalização de fotos analógicas.
Geração Z opta por descartar negativos após digitalização de fotos analógicas.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

"Você perde a vontade de ter uma das coisas mais valiosas do processo, que é o negativo", comenta Rosangela Andrade sobre a escolha da Geração Z de descartar o negativo. No Imágicas, a laboratorista apenas revela os filmes, sem a digitalização. "A memória das pessoas que só fazem digital e que só ficam nessa história de redes sociais vai ser bem prejudicada", opina.

Para Athos, é natural que a nova geração se interesse mais pela digitalização - tem a ver, segundo ele, com uma vontade de mostrar o trabalho da câmera. "Nossos clientes não tiveram contato com a câmera analógica. Então, eles vão fazer do jeito que é mais prático para eles. Os meninos do laboratório, apesar de serem jovens, têm uma cabeça de 'cinquentões'. Eles ficam apegados ao material e acham muito importante preservar o negativo", brinca. "Nós nos preocupamos com isso, mas, no geral, 90% da galera só quer, de fato, ter a foto digital para poder espalhar."

Rosangela Andrade segura foto revelada de sua mãe no laboratório Imágicas.
Rosangela Andrade segura foto revelada de sua mãe no laboratório Imágicas.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Amanda Cristina opina que a maioria dos jovens que buscam o analógico, hoje, procuram pela "estética" dos filmes, o que faz com que poucos "se encontrem" nesse tipo de fotografia. "Vou ser sincera: eu já abandonei negativos que eu esqueci de buscar. Mas eu acho bizarro isso, porque é mais uma prova de que queremos receber o digital", diz.

O que a Geração Z quer apreender do mundo com a câmera analógica?

O fotógrafo Bruno Di Faria, de 27 anos, e a influenciadora Stephanie Ramos, de 28, são alguns dos nomes que compartilham dicas para quem deseja começar na fotografia analógica no TikTok. Para ambos, a paixão veio de lembranças da infância: no caso de Bruno, de uma câmera antiga do avô; no de Stephanie, de lembranças das festas em família em fotos analógicas.

O analógico, segundo eles, tem a ver com ter mais calma, olhar para o presente, esquecer a hiperaceleração das redes sociais. Mas o que Stephanie, Bruno, pessoas da Geração Z e outros profissionais da área querem apreender do mundo com sua câmera analógica? O Estadão fez essa pergunta ao final das entrevistas. Leia, abaixo, as respostas de cada um.

  • Amanda Cristina, 21 anos: "Fotografia analógica sempre foi e sempre vai ser sobre eternizar. A película tem o poder de materializar coisas ao longo da história. Usar a película, agora, é ir na contramão da velocidade do que acontecem hoje, da hiperaceleração de tudo, dos processos."
  • Juan Hohagen, 20 anos: "Vivemos em um sistema de vida muito acelerado. Eu tenho um estilo de vida muito acelerado. No transporte público, eu estou com o celular na mão. É meio estranho você ser fotógrafo e não prestar atenção no mundo. Quando eu saio com a câmera, eu me obrigo a prestar atenção no mundo. Os únicos momentos em que eu, de fato, estou 100% presente é quando eu estou com a minha câmera na mão."
  • Bruno Di Faria, 27 anos: "Respeitar o momento e observar o outro. Quando você se identifica com o outro, é uma forma de se colocar no lugar dele."
  • Stephanie Ramos, 28 anos: "Reorientar o meu olhar para outros ângulos, fazer as coisas mais com calma, olhar coisas que, talvez, estão em outros ângulos que eu não estou enxergando direito. Eu consigo isso através da câmera analógica."
  • Athos Souza, fundador do Festival de Filmes Vencidos: "Eu tenho aprendido muito a respirar, ver as coisas, por conta disso. Quando você está com a câmera com o filme, você precisa pensar no que você vai fazer. Então, você acaba ficando mais tempo em uma praça, você acaba chamando seus amigos para ir em uma montanha. O que isso proporciona eu acho muito legal... Essas conexões. Essas experiências me motivam."
  • Rosangela Andrade, fundadora do Clube do Analógico: "Filosoficamente falando, a câmera analógica é um olhar para dentro."
  • Tiago Queiroz, 48 anos, repórter fotográfico do Estadão: "Creio que um mundo um pouco mais tranquilo, onde é possível aguçar a imaginação dos vários matizes de cinza (no meu caso, que quase sempre fotografo com filmes preto e branco) antes mesmo de a cena ser revelada no papel fotográfico, ter a resignação e a paciência de não saber exatamente qual o resultado obtido ate que o filme seja revelado e sobretudo estar muito mais concentrado. Hoje pela dificuldade e valor dos filmes, cada foto é muito mais estudada, pensada e sentida quando se está fotografando com filme."
Estadão
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