Precisamos nos responsabilizar pelo mal que provocamos na web, diz Mara Ferraz
Jornalista e influenciadora 40+ critica a falta de empatia e o julgamento sumário tão comuns contra pessoas superexpostas
“Compara-se muitas vezes a crueldade do ser humano à das feras, mas isso é insultar as feras”, escreveu o russo Fiódor Dostoiévski, autor de grandes obras baseadas na maldade de homens e mulheres.
A ascensão das redes sociais prova que ele estava certo ao refletir a respeito mais de 150 anos atrás. O ambiente virtual é palco de infindável veneno capaz de provocar profundas dores emocionais e até a morte. Podemos, sim, ser piores do que os animais violentos.
Um exemplo desse potencial nocivo são os ataques contra mulheres – famosas e anônimas – que denunciam criminosos sexuais. Parcela numerosa da internet, inclusive entre o público feminino, tenta deslegitimar as vítimas.
“Há falta de empatia com a dor do outro. Enxergar não é para quem tem olhos e sim para quem sabe sentir. É preciso aplaudir a coragem de quem se sentiu humilhada e entendeu que se expor foi uma forma de proteger-se e proteger o outro. Essa falta de solidariedade não se explica, só se lamenta”, afirma a jornalista e influenciadora 40+ Mara Ferraz.
Com especialização na Universidade de Coimbra, de Portugal, a comunicadora diz compreender o medo paralisante de apresentar uma denúncia e tornar público a violência sofrida.
“Nunca passei por essa experiência, mas provavelmente também teria sentido medo de denunciar, anos atrás. Hoje, a lei, a comunicação e a rede de apoio são eficazes para que as vítimas rompam o silêncio. Falar significa se libertar.”
Mara Ferraz defende a responsabilização de quem faz ataques covardes na internet contra pessoas fragilizadas.
“Já vimos postagens desesperadas, notícias de entradas em clínicas de tratamento de depressão e até suicídios provocados por comentários que não somam nada à vida do outro”, diz.
A jornalista sugere o bom senso antes de emitirmos opinião em casos polêmicos. “Precisamos tomar cuidado para não julgar o que lemos, sem antes julgar quem somos, o que fazemos e onde nossos pés já pisaram. Quando errarmos, precisamos assumir, pedir desculpas e nos reconstruir.”