Hipócritas apoiam Bruaca trair, mas condenam Anne por perdoar traição
Debate suscitado por apresentadora do ‘Faustão na Band’ mostra a intolerância a quem ousa contestar o modelo de fidelidade
Cada cena de Maria Bruaca (Isabel Teixeira) roçando com peões suados em 'Pantanal' provoca euforia na maior parte dos telespectadores. Há apoio declarado à dona de casa que corneia Tenório (Murilo Benício) com homens mais jovens e viris.
Neste caso da novela, o pecado do adultério (crime previsto no Código Penal até 2005) merece compreensão e perdão por ser uma desforra: a esposa faz ‘justiça’ ao devolver ao marido a mesma infidelidade recebida dele ao longo de muitos anos.
Maria Bruaca é incentivada pela filha, Guta (Julia Dalavia), a se separar, porém, prefere manter o casamento infeliz, mesmo sabendo da existência da outra família do ‘mardito’. Não o perdoa, mas também não o deixa.
A benevolência do público com Maria Bruaca raramente acontece na vida real. Uma mulher que trai se torna alvo das críticas mais baixas, em tratamento bem mais cruel do que o recebido pelo homem que pula a cerca. A sociedade muda aos poucos, contudo, ainda é patriarcal e machista. ‘Homem pode; mulher, não’.
A mulher que ousa perdoar uma traição é igualmente malvista. Vira ‘corna mansa’, entre outras definições depreciativas. Esse radicalismo foi visto no ‘Faustão na Band’ quando a apresentadora Anne Lottermann disse que daria uma segunda chance ao homem em caso de traição em um relacionamento longo.
Algumas bailarinas reagiram com indignação. Disseram que Anne havia “caído no conceito” que tinham dela. Estamos em 2022, com a importância da sororidade em pauta, e algumas mulheres preferem condenar aquelas que questionam o conceito bíblico de fidelidade conjugal. Erram ao não respeitar a opinião discordante.
“Vamos combinar. Nem todo mundo está preparado para ter essa conversa”, escreveu Anne em uma rede social. Verdade. O ser humano que se acha dono do corpo e do desejo do parceiro, sem sequer aceitar discutir a diferença entre fidelidade e cumplicidade, está fadado a sofrer por conta de sua insegurança em relação ao outro e pela ilusão de achar que amar e ser amado se resumem a não trair.
O mundo e a televisão precisam de mais mulheres provocativas como Anne Lottermann.