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Exposição aposta na nostalgia e itens raros para contar a história do videogame; conheça a 'Player 1

No Farol Santander, uma mostra exibe raridades do maior colecionador brasileiro - do ponto de partida, o Magnavox Odyssey, até hoje; veja vídeo

4 jul 2026 - 09h46
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A Nintendo tentou antecipar a realidade virtual há três décadas. O Virtual Boy era um óculos que precisava ficar apoiado em um pedestal na mesa - ou seja, não permitia ao jogador olhar o cenário ao redor. Tinha outros poréns: exibia apenas imagens em duas cores, preto e vermelho, e dava dor de cabeça.

Foi um fracasso retumbante, o maior fiasco da Nintendo - e isso diz muito considerando uma empresa fundada no século 19. Quem quiser conhecer essa peça da história poderá vê-la na exposição Player 1, com aparelhos de videogame representativos, curiosos e bizarros no Farol Santander, na região central de São Paulo.

Farol Santander recebe a exposição 'Player 1', que reúne raridades do maior colecionador brasileiro para contar a história do videogame
Farol Santander recebe a exposição 'Player 1', que reúne raridades do maior colecionador brasileiro para contar a história do videogame
Foto: Farol Santander/ Divulgação / Estadão

Outro exemplo dos loucos anos 1990 é o Pippin, da Apple, criado em parceria com a japonesa Bandai. Considerado caro, de desempenho ruim e sem jogos relevantes, o console figura na lista de 25 piores produtos de todos os tempos, segundo a revista especializada PCWorld. Um ano depois de o Pippin ser lançado, Steve Jobs, fundador da empresa, voltaria ao comando da Apple e encerraria de vez a produção do console.

Há outros aparelhos fracassados, como o Philips CD-i, Mattel HyperScan e o Zeebo, empreitada da brasileira Tectoy com a fabricante estadunidense de processadores Qualcomm sem mídia física.

Além dos casos bizarros, estão lá os aparelhos mais famosos, como Master System, Nintendo 64, Xbox e PlayStation 3 - vários em edições específicas, com alguma diferença em relação ao modelo usual.

Hoje em dia, os dispositivos de múltiplas funções - computadores, celulares e tablets - são os mais usuais para o jogo eletrônico, porém a exposição ressalta os equipamentos dedicados exclusivamente ao lúdico, ao transcendental e ao escapismo.

Os pioneiros tiveram de lidar com um público sem referência dessa nova mídia. Era um aparelho estranho chegando à sala de estar. Os computadores já existiam, porém estavam restritos ao ambiente acadêmico e das grandes empresas. Outro obstáculo era a limitação técnica.

O videogame chega ao público pela primeira vez em 1972 graças ao console Magnavox Odyssey, fabricado nos Estados Unidos. Com capacidade máxima de gerar três pontos brancos (dois deles controlados pelos jogadores) em um fundo preto, o Odyssey necessitava que o usuário colasse um plástico translúcido na tela para fazer as vezes de cenário. Assim, os tais pontos passavam a figurar em quadra de tênis, montanha, roleta de cassino, entre outros.

Memórias resgatadas

Antonio Curti, curador da exposição, qualifica cada peça como "obra" capaz de disparar nostalgia. "Todo mundo vai ter memórias do dia em que estava na casa da avó e jogou um jogo com quatro pessoas lá", diz Curti, gamer de paixão à flor da pele - ele tem tatuada a triforce, símbolo da série The Legend of Zelda, na mão.

Fã de RPGs japoneses, Curti foi também curador da exposição Yoshitaka Amano - Além da Fantasia, com trabalhos do criador do visual do game Final Fantasy e de animes como Vampire Hunter D. A mostra ocupou o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro recentemente.

Os aparelhos expostos receberam tratamento de obra de arte, ficam dentro de redomas. O texto expográfico, sucinto, divide os videogames em gerações destacando os principais avanços de cada época. Também há espaço para acessórios e portáteis. A ambientação evita o cubo branco - espaço "neutro" que visa isolar a obra - e coloca as peças em um ambiente de tom escuro, iluminado por backlights e LEDs coloridos, marca da cultura gamer contemporânea.

Ocupando cerca de 200 m², a Player 1 exibe 115 peças, apenas 1% do acervo do colecionador Alex Mamed, 52 anos, que empresta o patrimônio construído ao longo de mais de 30 anos para a exposição. Ele é considerado o maior colecionador do Brasil e é uma voz relevante no nicho dos retrogamers, os entusiastas de games antigos. Mamed é dono de um canal no YouTube e tem 15 mil seguidores no Instagram, canais por onde ele exibe sua coleção.

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É a primeira vez que a coleção de Mamed recebe tratamento museológico. Ele já tinha feito exposições em centros comerciais e faculdades, mas nada com o tratamento de uma exposição de artes visuais - luz, expografia, curadoria, etc.

A Player 1 aproxima Mamed de cumprir o sonho do museu próprio. "Sonho em abrir um museu e centro cultural do videogame", afirma ele, que se mudou para Sevilha, na Espanha, em busca de concretizar esse projeto.

A empreitada de Mamed começou com uma locadora em Cedral, no interior de São Paulo, próxima a São José do Rio Preto, em 1991. Nessa época, as locadoras de vídeo e videogame se espalhavam pelo Brasil. Nas locadoras de jogos eletrônicos, era comum oferecer televisores e consoles para os clientes jogarem por hora - precursora do que seriam, anos depois, as lan houses.

Mamed fechou a locadora ao receber uma proposta irrecusável para trabalhar com o pai. O negócio foi encerrado, mas os produtos permaneceram sob a guarda de Mamed, dando início à sua coleção. No novo emprego, o ímpeto foi mantido. "Tinha duas horas de almoço. Eu pegava o meu carro e ia rua por rua, fazendo zigue-zague, procurando eletrônicas que pudessem ter consoles antigos", diz Mamed. "Percorri São José do Rio Preto inteira assim."

Vontade de sair jogando

Embora os aparelhos de Mamed estejam funcionais e com aspecto de recém saído da caixa, eles são exibidos desligados. Segundo Curti, essa foi uma maneira de evitar os questionamentos de uso de imagem dos games. A coceira de jogar depois de tanto ver é aplacada por experiências digitais únicas, criadas exclusivamente para a exposição.

Ocupando cerca de 200 m², a 'Player 1' exibe 115 peças, apenas 1% do acervo do colecionador Alex Mamed, 52 anos, que empresta o patrimônio construído ao longo de mais de 30 anos para a exposição
Ocupando cerca de 200 m², a 'Player 1' exibe 115 peças, apenas 1% do acervo do colecionador Alex Mamed, 52 anos, que empresta o patrimônio construído ao longo de mais de 30 anos para a exposição
Foto: Farol Santander/ Divulgação / Estadão

Na instalação Drift, o corpo do jogador vira o controle, o que lembra o Kinect, acessório lançado no começo dos anos 2010. Há dois jogos: um é uma aventura espacial e outro propõe rebater uma bola em um cenário, estilo Breakout.

Ao lado está a montagem Rush, composta por quatro televisores de tubo empilhados. Cada um apresenta um desafio baseado em um gênero típico de videogame: plataforma, nave, corrida e luta. O objetivo é passar pelos quatro rapidamente, em uma referência ao speedrun, parcela da comunidade do videogame interessada em completar jogos no menor tempo possível.

Os visitantes mais rápidos podem registrar seu recorde. Quando a reportagem visitou a mostra, o melhor tempo pertencia a ACP, as iniciais do curador Antonio Curti.

Destaques da Player 1

  • Magnavox Odyssey (1972): O ponto de partida. O console só conseguia gerar três pontos brancos, que eram controlados por dois manípulos giratórios - um para o movimento horizontal, o outro vertical
  • Power Glove (1989): Luva que antecipou o Wii e os celulares ao usar sensores de movimento para controlar os jogos. Design com o fino do futurismo dos anos 1980.
  • Virtual Boy (1995): O mais famoso tropeço da Nintendo. Um desajeitado óculos de "realidade virtual" apoiado em um tripé de mesa que exibia gráficos apenas em preto e vermelho.
  • Apple Pippin (1996): A fracassada e caríssima tentativa da Apple de entrar no mercado de games em parceria com a Bandai, sepultada por Steve Jobs assim que ele retomou o controle da empresa.
  • Zeebo (2009): Criado pela Tectoy em parceria com a Qualcomm, o console tentou abdicar da mídia física (cartuchos e CDs) antes de o mercado digital virar padrão, rodando jogos baixados por rede 3G.

Serviço - Exposição Player 1

  • Onde: Farol Santander. Rua João Brícola, 24 - Centro, São Paulo
  • Data: até 20 de setembro
  • Horário: terça a domingo, das 9h às 20h
  • Ingressos: R$ 45 (inteira) / R$ 22,5 (meia)
  • Classificação Indicativa: Livre
Estadão
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