Escritora Guiomar de Grammont vê na mobilização das mulheres uma das chaves da reeleição de Lula
Poucas pessoas viveram com tanta intensidade a campanha que levou à reeleição histórica do presidente Lula quanto a escritora, pesquisadora e curadora literária Guiomar de Grammont. Em Paris para participar de encontros em torno da nova edição francesa de Brasileiras, obra que resgata depoimentos de mulheres que enfrentaram a ditadura militar, ela vê uma ligação direta entre aquelas vozes reunidas nos anos 1970 e a mobilização popular que tomou as ruas do Brasil nesta campanha presidencial.
Para a escritora Guiomar de Grammont, a intensa mobilização feminina nas ruas foi decisiva para a reeleição de Lula contra a extrema direita. Motivadas pelo receio de retrocessos e pelos avanços históricos em programas sociais e combate à violência, mulheres de diversos estratos lideraram o diálogo direto com os eleitores. Guiomar aponta essa união de base fora das redes como lição global contra o extremismo e defende maior presença feminina no poder, incluindo uma mulher negra no STF.
Quando conversou com a RFI, em fevereiro, Guiomar de Grammont observava que os relatos reunidos em Brasileiras permaneciam atuais por tratarem de resistência, memória e da capacidade das mulheres de enfrentar diferentes formas de opressão.
A escritora, que assina o prefácio da nova edição francesa da obra, esteve em Paris entre os dois turnos da eleição presidencial para participar de eventos em torno do livro, publicado originalmente pela Éditions des Femmes a partir de entrevistas realizadas em 1977 por Maryvonne Lapouge-Pettorelli e Clelia Pisa.
A reedição levou curadora a revisitar trajetórias de mulheres perseguidas, presas e silenciadas pela ditadura militar. Na campanha presidencial deste ano, encerrada com a reeleição de Lula diante do senador de extrema direita Flávio Bolsonaro, ela identificou um prolongamento contemporâneo daquela mesma resistência.
O receio de retrocessos em direitos e políticas públicas voltadas às mulheres ajudou, em sua avaliação, a impulsionar uma mobilização feminina sem precedentes.
Participação cidadã
Segundo Guiomar, a campanha foi marcada por um amplo processo de participação cidadã, com mulheres de diferentes classes sociais, regiões e gerações assumindo papel de destaque na defesa da candidatura de Lula. Ela própria se engajou ativamente na mobilização, motivada pela convicção de que a disputa colocava em jogo conquistas importantes acumuladas ao longo dos últimos anos.
Na avaliação da escritora, esse envolvimento foi impulsionado pela percepção de que os governos Lula produziram avanços concretos para as mulheres. Ela cita políticas de combate ao feminicídio, iniciativas voltadas ao fortalecimento da autonomia feminina e programas sociais como o Bolsa Família, cuja transferência de renda para as mulheres ampliou seu poder de decisão dentro das famílias.
"O governo Lula é o que mais investiu contra os feminicídios, é o que mais investiu no poder da mulher, no empoderamento feminino no Brasil", afirma.
Os efeitos, acrescenta, também foram sentidos entre mulheres indígenas e outros grupos historicamente vulneráveis. "Então elas se engajaram ativamente, justamente como eu na reeleição do presidente."
Recém-chegada à França após o primeiro turno, Guiomar passou a apresentar a experiência brasileira como uma possível fonte de inspiração para outros países que enfrentam o avanço da extrema direita. Para ela, a virada eleitoral foi resultado menos dos embates travados nas redes sociais do que do contato direto entre as pessoas.
"O segredo é tão simples", afirma. "Nós fomos para as ruas, nós começamos a conversar pessoalmente com as pessoas, a olhar nos olhos."
Para a escritora, a conquista de milhões de novos votos entre o primeiro e o segundo turno nasceu justamente desse esforço de diálogo direto. "É sair das redes sociais um pouco e ir às ruas, ir para o encontro com o outro. Não o confronto que se dá nas redes, mas o encontro."
Guiomar acredita que essa experiência ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em um contexto em que diversos países europeus convivem com o crescimento de forças de extrema direita, ela considera que a campanha brasileira demonstrou a força da mobilização de base, da conversa e da construção de vínculos fora do ambiente digital.
Questionada sobre os ataques misóginos e as ameaças dirigidas a parlamentares como Ana Elisa e Erika Hilton, Guiomar defendeu que as mulheres não se deixem intimidar.
"Quanto mais a gente incomoda, quanto mais há ameaças de morte às nossas vozes, mais a gente pode perceber que elas são eficazes", afirma.
Para a escritora, essas tentativas de intimidação são uma reação à crescente presença feminina nos espaços de poder e não devem interromper o avanço dessa participação.
Essa convicção também aparece quando defende um avanço maior da representação feminina nas instituições. Guiomar diz acreditar que chegou o momento de Lula indicar uma mulher negra para o Supremo Tribunal Federal, reforçando a presença feminina em espaços de poder historicamente ocupados por homens.
Ao retornar ao Brasil, a escritora dará continuidade a um projeto profundamente ligado à sua história familiar e à memória da ditadura militar: um livro sobre seu pai, morto em 1975, poucas semanas após o assassinato de Vladimir Herzog. Paralelamente, segue trabalhando em uma releitura de Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, sob uma perspectiva decolonial, além da organização de novas edições do Fórum das Letras de Ouro Preto, evento que criou há mais de 20 anos e permanece entre as principais referências literárias do país.
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