Val Kilmer digital pode forçar Oscar a repensar regras para tornar performances em IA inelegíveis
Uso de inteligência artificial para recriar atuação do ator em novo filme expõe lacunas nas normas da indústria
Uma performance criada por inteligência artificial pode concorrer ao Oscar? O debate ganhou força nas últimas semanas com o caso de Val Kilmer (1959—2025), cuja imagem foi recriada digitalmente para o filme As Deep as the Grave, mesmo após sua morte, em 2025.
Escalado originalmente para interpretar o padre Fintan, Kilmer não conseguiu filmar suas cenas devido a complicações de um câncer na garganta. Em vez de substituí-lo, o diretor Coerte Voorhees optou por reconstruir a atuação usando ferramentas de IA generativa, com autorização da família do ator, incluindo sua filha, Mercedes Kilmer.
A Academia, responsável pelo Oscar, ainda não tem uma política clara sobre o tema. Após polêmicas recentes envolvendo o uso de IA — como em O Brutalista, que utilizou tecnologia para aprimorar diálogos e imagens —, a entidade afirmou apenas que ferramentas de inteligência artificial "não ajudam nem prejudicam" uma indicação. O critério central segue sendo o grau de autoria humana.
Na prática, isso deixa mais dúvidas do que respostas. No caso de Kilmer, por exemplo, até que ponto sua performance pode ser considerada "humana" se foi montada a partir de arquivos e algoritmos?
Debate antigo
A controvérsia não é totalmente nova. Casos como a recriação digital de Peter Cushing e Carrie Fisher em Rogue One: Uma História Star Wars já haviam provocado reações divididas. Ainda assim, o caso de Kilmer é diferente: trata-se de uma performance inteira construída após a morte do ator.
Isso levanta questões mais profundas. Se a atuação emocionar o público, quem deve ser reconhecido? O ator original? Os programadores? O diretor? Ou a tecnologia em si?
O dilema também ecoa discussões antigas sobre os limites da atuação. O trabalho de Andy Serkis com captura de movimento em personagens como Gollum, em O Senhor dos Anéis, e Caesar, em Planeta dos Macacos, já havia desafiado premiações a reconsiderarem o que define uma performance.
Apesar das dúvidas, a indústria não está esperando respostas. Executivos estimam que produções com uso intensivo de IA podem representar entre 10% e 30% do conteúdo audiovisual nos próximos anos.
O que pensam o SAG e outras premiações
Já o SAG-AFTRA, responsável pelo Actor Awards, adota uma posição mais rígida: performances totalmente geradas por IA são inelegíveis. Trabalhos com uso parcial da tecnologia podem concorrer, desde que haja consentimento do ator — o que existe no caso de Kilmer, mas pode não ser suficiente diante do nível de reconstrução digital.
Outras entidades também vêm tentando se adaptar. A Recording Academy determinou que apenas criadores humanos podem ser premiados, embora obras com elementos de IA sejam permitidas se houver contribuição significativa de pessoas. Já a Television Academy exige transparência no uso da tecnologia, enquanto o BAFTA tem desencorajado seu uso em certas categorias.
Premiações como o Globo de Ouro e o Critics Choice ainda não estabeleceram diretrizes claras, mas devem ser pressionadas a agir em breve. Afinal, se o público aceitar esse tipo de "atuação", os votantes terão que decidir como — ou se — reconhecê-la.
Fonte: Variety
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