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Festival de Cannes anuncia seleção do curta de Lucas Acher, único cineasta brasileiro na edição de 2026

Paulistano de 30 anos leva Laser-Gato à seleção oficial de Cannes na categoria La Cinef, que revela novos talentos da indústria cinematográfica

22 abr 2026 - 11h41
(atualizado às 11h47)
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O cineasta paulistano Lucas Acher, de 30 anos, foi selecionado para a La Cinef, mostra oficial de novos talentos do Festival de Cannes, com o curta-metragem Laser-Gato. Nesta edição de 2026, o filme é o único representante brasileiro na categoria, que reúne apenas 16 produções escolhidas entre 2,750 inscrições de escolas de cinema de todo o mundo.

Festival de Cannes anuncia seleção do curta de Lucas Acher, único cineasta brasileiro na edição de 2026 (Divulgação)
Festival de Cannes anuncia seleção do curta de Lucas Acher, único cineasta brasileiro na edição de 2026 (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

A presença na seleção coloca Acher entre uma nova geração de cineastas acompanhados de perto pela indústria internacional. Mais do que uma vitrine, a La Cinef historicamente funciona como um espaço de descoberta de autores que, nos anos seguintes, passam a ocupar o circuito global.

"É estranho, porque é um filme muito íntimo, feito sob constante dúvida, e de repente ele está nesse lugar gigante", diz o diretor. "Cannes sempre foi uma coisa distante, quase abstrata. Quando acontece, parece um pouco irreal."

A seleção em Cannes marca, segundo o próprio diretor, um ponto de inflexão. "Espero que seja um momento de transição, em que começo a estruturar projetos de maior escala", afirma.

Com trânsito entre Brasil e Estados Unidos — onde se formou — Acher passa a desenvolver projetos com co-produção internacional, sem abandonar São Paulo como palco de seus filmes. Seus próximos trabalhos devem continuar ancorados em São Paulo, mas com perspectiva de circulação global.

Nesse cenário, o mercado cinematográfico internacional passa a acompanhar de perto seus próximos passos, atento ao desenvolvimento de um diretor que emerge de Cannes já com uma linguagem consolidada. "Não muda o jeito de fazer, mas muda a conversa", diz.

"Você percebe que aquilo que parecia muito específico pode dialogar com outros lugares. São Paulo é onde cresci e até hoje carrega muitos mistérios pra mim. É uma cidade intensa e magnética. Meio distópica, cheia de contradições. Não é um lugar fácil de explicar pra quem não conhece. A perspectiva de mostrar para o mundo que todos os tipos de história podem se passar aqui é animadora. Mas meu foco principal é poder mostrar isso para o público brasileiro. Trazer para as telas uma identificação regional e a vontade de fantasiar. Proporcionar ao espectador brasileiro a possibilidade de ver o bairro onde mora como palco de um suspense, terror ou comédia, de imaginar situações inusitadas em uma rua qualquer que vê todos os dias no seu cotidiano. Poder fazer longas-metragens com esse recorte me anima muito ."

Com taxa de aceitação inferior a 1%, a La Cinef reúne filmes que apontam caminhos possíveis para o cinema contemporâneo. O anúncio dos três vencedores da categoria será feito no dia 21 de maio.

Para Acher, o reconhecimento amplia o alcance do filme, mas não altera seu eixo central: a investigação de imagens, ritmos e atmosferas que escapam a formas narrativas convencionais.

Do que se trata Laser-Gato?

Laser-Gato se constrói a partir de uma deriva noturna por São Paulo, acompanhando um adolescente que se vê obrigado a atravessar os bairros do centro em uma sucessão de encontros que alteram (e ampliam) irreversivelmente sua compreensão sobre a cidade. A narrativa evita progressões clássicas e aposta em uma estrutura fragmentada, em que o percurso importa mais do que qualquer resolução. Mesmo assim, a urgência e ironia do conflito principal carregam a tensão necessária para enquadrar o filme como um suspense cômico (ou uma comédia tensa, dependendo da perspectiva).

A cidade não aparece como pano de fundo, mas como elemento ativo da mise-en-scène. A arquitetura, os vazios urbanos, a iluminação artificial e os ruídos da madrugada compõem um ambiente que molda o ritmo e a progressão do filme, colocando a perspectiva limitada do protagonista em choque com pessoas e lugares.

A trilha sonora acompanha esse deslocamento. Em vez de conduzir emoções de forma tradicional, o desenho de som se aproxima de uma composição sensorial, misturando silêncios, ruídos urbanos e intervenções pontuais que ampliam a sensação de estranhamento. O resultado é uma experiência igualmente imersiva e narrativa, em que som e imagem operam em tensão constante.

"Eu gosto dessa sensação de olhar para uma coisa e não entender direito o que está acontecendo, assim como o protagonista faz ao longo do filme", afirma Acher. "O filme nasce um pouco disso, de amplificar sensorialmente esse desconforto do personagem e a intensidade que é morar em uma cidade como São Paulo."

Visualmente, o curta trabalha com contrastes — luz e sombra, movimento e suspensão, presença e ausência — para construir uma atmosfera que oscila entre o reconhecimento e o deslocamento. Pequenas rupturas no cotidiano não chegam a romper com o real, mas o tensionam o suficiente para amplificar sensorialmente suas fissuras.

Nesse sentido, Laser-Gato se aproxima de um realismo contemporâneo que flerta com o absurdo sem abandonar a observação do cotidiano. A experiência proposta não é a de explicar a cidade, mas de percorrê-la, permitindo que suas camadas se revelem de forma fragmentada.

Filmado em São Paulo, com orçamento enxuto, o curta aposta em soluções formais precisas, em que limitações de produção se convertem em escolhas estéticas. O uso de locações reais, a valorização do tempo morto e a construção de cenas abertas contribuem para um cinema que privilegia a experiência sobre a explicação.

Após um acidente envolvendo um gato, um adolescente atravessa São Paulo durante uma única noite tentando salvá-lo, enquanto culpa e paranoia transformam sua percepção da cidade, diz a sinopse oficial.

Os filmes selecionados para a mostra La Cinef

Para sua 29ª edição, a La Cinef selecionou 14 curtas-metragens de ficção e 5 de animação entre os 2.750 enviados por escolas de cinema de todo o mundo. Dirigidos por 12 mulheres e 9 homens, os filmes representam quinze países e quatro continentes. Duas escolas são convidadas pela primeira vez: a Hongik University (Coreia do Sul) e a ISAMM (Tunísia).

Na quinta-feira, 21 de maio, os Prêmios La Cinef serão entregues pelo júri em uma cerimônia no Théâtre Buñuel, seguida pela exibição dos filmes premiados. Confira os filmes selecionados a seguir:

  • LASER-GATO (Laser-Cat)

    Lucas Acher

    NYU - EUA - 22′

  • FOTOGRAFIA DE UMA MULHER INSANA PARA MOSTRAR A CONDIÇÃO DE SEU CABELO

    Arwen Aznag

    LUCA School of Arts Brussels - Bélgica - 6′

  • VOCÊ, EU E A VACA (Me, You and the Cow)

    Aina Callejón

    ESCAC - Espanha - 20′

  • EM CONSERVA (Pickled)

    Fanny Capu

    NFTS - Reino Unido - 9′

  • RAPSÓDIA DO PÁSSARO (Bird Rhapsody)

    Wonjung Choi

    Hongik University - Coreia do Sul - 6′

  • SEMPRE QUIS SER DEUS, NUNCA QUIS SER BOM

    Noa Epars & Marvin Merkel

    HEAD - Suíça - 21′

  • ALÉM DO LIMIAR (Over the Threshold)

    Tara Gajović

    FDU - Sérvia - 15′

  • PEDRAS QUE CRESCEM, PAPÉIS QUE VOAM

    Roozbeh Gezerseh & Soraya Shamsi

    Filmuniversität Babelsberg Konrad Wolf - Alemanha - 12′

  • OS FILHOS DE DOMINGO (Sunday's Children)

    Reuben Hamlyn

    NYU - EUA - 19′

  • EM ALGUM LUGAR EU PERTENÇO (Somewhere I Belong)

    Youssef Handouse

    ISAMM - Tunísia - 21′

  • VOZES SILENCIOSAS (Silent Voices)

    Nadine Misong Jin

    Columbia University - EUA - 17′

  • TRAKCJE (Eixos)

    Jakub Krzyszpin

    Escola Nacional de Cinema da Polônia em Łódź - Polônia - 7′

  • NUNCA É O SUFICIENTE (Never Enough)

    Julius Lagoutte Larsen

    La Fémis - França - 25′

  • OS SEGREDOS DO DIA A DIA (Our Secrets)

    Lenti Liang

    USC Cinematic Arts - EUA - 15′

  • SOMBRAS DE NOITES SEM LUA

    Mehar Malhotra

    FTII - Índia - 24′

  • TJ28 (Faltam 28 Dias)

    Yasmin Najjar

    Aalto University - Finlândia - 24′

  • DEIXADOS PARA TRÁS, AINDA DE PÉ

    Vida Skerk

    NFTS - Reino Unido - 22′

  • ONDE NASCEM OS PIRILAMPOS (Where Fireflies Sparkle)

    Clara Vieira

    ESTC - Portugal - 18′

  • VAI CHOVER DE NOVO HOJE? (Will It Rain Again Today)

    Wong Chau-Hong

    Nihon University College of Art - Japão - 16′

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