'Dona Beja': Associação critica escalação para personagem trans da novela
Ator Pedro Fasanaro, uma pessoa não-binária, respondeu ao posicionamento: 'Minha existência, assim como a de Severina, também é legítima'
A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgou uma nota neste sábado, 7, criticando a escalação do ator Pedro Fasanaro para interpretar a personagem Severina, uma mulher trans, na nova novela da HBO Max — Dona Beja.
"A ANTRA manifesta seu posicionamento crítico diante da prática de transfake na série Dona Beja, a partir da escolha de uma pessoa que, independentemente de sua autodeclaração identitária, foi escalada para interpretar a personagem Severina, apresentada na narrativa como uma mulher trans", escreveu a associação em nota divulgada no Instagram.
A prática de transfake, mencionada pela ANTRA, refere-se à escolha de atores cisgênero — pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído no nascimento — para interpretar personagens transgênero em produções artísticas. "Essa decisão desconsidera as trajetórias, experiências sociais e as violências específicas vivenciadas por travestis e mulheres trans, além de reforçar uma lógica histórica de exclusão dessa população de papéis que poderiam e deveriam ser ocupados por elas", pontua a organização.
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Pedro, no entanto, não é uma pessoa cisgênera, se identificando publicamente como uma pessoa não-binária. Apesar disso, a ANTRA ainda vê problemas em sua escalação. "É fundamental afirmar que identidades dissidentes não podem ser mobilizadas como recurso simbólico para justificar a ausência de mulheres trans e travestis no audiovisual", escreveu a ANTRA.
"É nesse sentido que a autodeclaração do ator como pessoa não-binária não substitui a necessidade de assegurar a presença de mulheres trans e travestis em papéis vinculados às suas vivências específicas", afirmou a associação. "Quando mobilizada como argumento de diversidade, essa escolha pode operar apenas como token ou recurso simbólico, atuando para encobrir a exclusão sistemática desses corpos do audiovisual, especialmente quando a leitura social do intérprete não o expõe às mesmas violências e negações de direitos, mas, ao contrário, lhe garante acesso e oportunidades como essa contratação."
"Ao aceitar o papel, o ator também assume a responsabilidade, especialmente por se identificar como pessoa não-binária, sendo esperado o compromisso com a empatia e a solidariedade para com mulheres trans e travestis, e não a utilização dessa identidade como forma de esvaziar críticas ou contestações legítimas. Tratar essa decisão como representatividade efetiva é um equívoco, pois ela corrobora com o apagamento e a manutenção de uma imagem falsa sobre travestis e mulheres trans", comentou a ANTRA.
O que diz a HBO Max
Em nota enviada ao Estadão, a HBO Max alega que "A releitura de Dona Beja, desenvolvida pela Warner Bros. Discovery e pela Floresta, buscou construir seus personagens com um olhar responsável e sensível aos debates contemporâneos sobre identidade e diversidade".
A plataforma de streaming prossegue: "A personagem Severina foi criada a partir de uma perspectiva histórica do século 19, como uma personagem dissidente de gênero, cuja trajetória reflete múltiplas expressões e experiências, e a escolha de Pedro Fasanaro para o papel está diretamente alinhada a essa identidade."
"Reconhecemos o histórico de apagamento de pessoas trans no audiovisual e entendemos que esse debate é legítimo e necessário; por isso, seguimos comprometidos com a escuta ativa, o diálogo e o aprendizado constante, visando fortalecer uma indústria mais plural e responsável", conclui a empresa.
'Minha existência também é legítima'
Na noite deste domingo, 8, o ator Pedro Fasanaro se manifestou em uma postagem no Instagram sobre a polêmica envolvendo sua escalação no folhetim. "Tenho lido com muito respeito e coração aberto as críticas e reflexões que surgiram sobre a nossa Severina, em Dona Beja. Sei que elas nascem de uma dor real", escreveu o ator.
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"Severina é uma pessoa dissidente de gênero", pontuou Pedro. "Tenho visto comentários tentando defini-la como mulher trans, mas essa leitura parte de um olhar contemporâneo. No século 19, tempo em que essa história se passa, não existia o letramento nem a consciência de gênero que temos hoje. Havia apenas dois caminhos socialmente aceitos. Qualquer pessoa fora disso era vista como subversiva, desviada, 'invertida'. Palavras que atravessam a própria narrativa da novela. Severina habita esse lugar do desvio. Ela não se entende, nem se afirma, enquanto mulher. Ela não cabe", justificou.
"Eu sou uma pessoa não binária. Uso esse termo porque ele me é exigido, porque é a linguagem possível hoje. A verdade é que eu não sei exatamente o que eu sou. Eu sou um bicho em travessia. Eu sou uma pessoa dissidente de gênero. 'Eu sou o que eu sou'. Assim como Severina", escreveu Pedro. "E aí eu me pergunto, o tempo todo, em que lugar da transgeneridade eu preciso estar para poder trabalhar e viver plenamente", questionou o artista.
"Reconheço meu lugar de privilégio. Reconheço que personagens cis são mais comuns, mais aceitos e mais ofertados. Quando vocês me veem performando masculinidade na internet, esse espaço de aparências e fantasia, isso é, muitas vezes, uma estratégia de sobrevivência", afirmou o ator. Ainda na postagem, Pedro afirmou ser particularmente cruel ter sua identidade de gênero questionada na internet. "Usar imagens minhas performando masculinidade para desmerecer minha identidade é um apagamento da minha subjetividade", argumentou.
"A discussão sobre transfake é urgente. Pessoas trans são profundamente subrepresentadas. Essa crítica precisa existir. O que dói é quando, nesse processo, alguém como eu, que também vive à margem, é tratado como se estivesse ocupando um lugar que não lhe pertence", pontuou.
Além do texto escrito por Pedro, a publicação nas redes sociais também contam com uma série de fotos do ator em diferentes momentos da vida e da carreira. "As imagens dessa postagem atravessam diferentes momentos da minha vida. Elas estão aqui para lembrar que eu sou muito mais do que qualquer rótulo. E que minha existência, assim como a de Severina, também é legítima", finalizou.