Sensação das indicações ao Oscar, 'Preciosa' esbarra em dramalhão
O filme independente Preciosa - Uma História de Esperança,, de Lee Daniels, se tornou a sensação das indicações ao Oscar desse ano, mas abusa das armadilhas comuns aos dramalhões de Hollywood para contar a história de uma jovem afro-americana e obesa vítima de maus tratos.
É uma tendência comum há muito tempo: a de confundir o baixo orçamento com a crueza e perdoar o uso de recursos para impressionar o espectador disfarçados no retrato de uma minoria maltratada.
Produzido por Mariah Carey e Lenny Kravitz - que também atuam no filme - Preciosa é baseado no romance Push, da escritora americana Sapphire. Festivais como o de Cannes e o de San Sebastián, além dos Globo de Ouro e do Oscar já demonstraram ter gostado do filme.
Afro-americana, obesa, pobre, analfabeta, há momentos em que Clareece Precious Jones (Gabourey Sidibe, indicada ao Oscar de Melhor Atriz) se abstrai de tanta injustiça em sequências oníricas nas quais é uma estrela da música, mas mesmo aí o filme é exagerado.
Fica claro que o estreante Lee Daniels apostou não pela contenção, mas pelo bombardeio emocional que encurrala a empatia do espectador.
Frente a uma direção pouco sutil, é preciso reconhecer as impactantes interpretações femininas de Gabourey Sidibe e da vilã encarnada por Mo''Nique, vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante e que disputa o Oscar na mesma categoria.
O filme se transforma no que deveria quando não procura desesperadamente o sofrimento, como nas cenas do programa de alfabetização, onde há algo do humor que torna o melodrama respirável e verossímil.
Enquanto isso, Mariah Carey e Lenny Kravitz cumprem seu papel com suas quase pontas, mas não deixam de reforçar o desagradável ar da condescendência que acaba retratando os problemas de uma maneira superficial, por mais que se ponha o dedo na ferida.