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Mesmo sem Oscar, O Agente Secreto já é novo degrau na escalada internacional do cinema brasileiro

As quatro indicações do filme ao prêmio que ainda é habita o imaginário popular dos brasileiros de forma análoga à Copa do Mundo comprovam que cinema brasileiro pode estar vivendo seu apogeu desde a Retomada de 1993

17 mar 2026 - 11h30
(atualizado em 17/3/2026 às 17h54)
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Mesmo sem ter sido agraciado com nenhuma das quatro estatuetas a que concorreu na cerimônia dos Oscars de 2026, o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, encerra a temporada de premiações repleto de prêmios, e torna-se o principal símbolo de um período que parece ser o apogeu de uma história de ascensão que vive o cinema brasileiro.

O início dessa história remonta ao assim chamado Cinema da Retomada (1993-4), quando a extinção da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme) pelo presidente Fernando Collor de Mello em 1990 forçou a classe cinematográfica a se reinventar.

E ela soube reagir. Na virada dos anos 1990 para os 2000, diferentes gerações de cineastas — de veteranos como Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Coutinho e Hector Babenco a jovens como Carla Camurati, Karim Aïnouz e os irmãos João Moreira Salles e Walter Salles — se organizaram à sua maneira.

A retomada de uma trajetória internacional começou com Carlota Joaquina (1995), de Camurati, e O Que É Isso Companheiro? (1997), de Bruno Barreto, ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1998, Central do Brasil, de Walter Salles, conquistou o Urso de Ouro em Berlim e lançou Fernanda Montenegro como a primeira brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Cidade de Deus (2002) recebeu quatro indicações à premiação, incluindo a de Melhor Filme. Tropa de Elite (2007) trouxe um segundo Urso de Ouro para o Brasil. Bacurau (2019) venceu o Prix du Jury em Cannes. E Kléber Mendonça, com O Agente Secreto, triunfou em Cannes 2025 com os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator, além do Globo de Ouro de Melhor Ator em Drama — com Wagner Moura sendo o primeiro sul-americano a vencer a categoria.

Pouco antes, Ainda Estou Aqui venceu a Osella de Ouro de Melhor Roteiro em Veneza (2024), o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama para Fernanda Torres — a primeira atriz brasileira a vencer um Globo de Ouro em atuação — e o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, sendo o primeiro filme sul-americano a alcançar tal distinção. Fernanda Torres tornou-se, assim, a segunda mulher da família a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, 26 anos após sua mãe, Fernanda Montenegro.

Iniciativas públicas e mobilizações de classe

Embora desdenhado por parte da crítica como espetáculo imperialista, o Oscar habita o imaginário popular de maneira análoga à Copa do Mundo. Mais do que troféus, porém, o que explica a trajetória do cinema brasileiro são décadas de iniciativas públicas e mobilizações de classe.

Dentre os instrumentos legislativos fundamentais, destacam-se: a Lei Sarney (Lei nº 7.505/1986), primeiro mecanismo de incentivo fiscal à cultura no Brasil; a Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991), que instituiu o PRONAC; a Lei do Audiovisual (Lei nº 8.685/1993), principal sustentáculo financeiro do cinema independente desde a Retomada; a MP nº 2.228-1/2001, que criou a ANCINE; a Lei nº 11.437/2006, que regulamentou o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA); e a Lei nº 12.485/2011 (Lei da TV Paga), que ampliou a presença de obras brasileiras nos canais por assinatura.

No plano institucional, são igualmente relevantes: a Riocine, pioneira como distribuidora nacional nos anos 1990; a ANCINE, agência reguladora e de fomento criada em 2002; o OCA — Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, que publica anuários e dados do mercado; o FSA, gerido pela ANCINE em parceria com o BNDES; a SPCine, agência municipal paulistana criada em 2012; e a Cinemateca Brasileira, guardiã do patrimônio cinematográfico nacional.

Sequência de descentralizações

Três tipos de descentralização parecem ter sido especialmente produtivos para a escalada internacional do cinema brasileiro recente: as descentralizações geográfica, temática e estilística.

A descentralização do eixo Rio-São Paulo foi decisiva. Hoje, cidades como Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília são polos de produção e sedes de festivais relevantes. O Agente Secreto, filmado inteiramente em Recife, é o exemplo mais eloquente desse fenômeno — e o primeiro filme brasileiro produzido fora do eixo Sul-Sudeste a atingir 1 milhão de ingressos em apenas seis semanas de cartaz.

Outra descentralização - a temática - também favoreceu o surgimento de uma pletora de histórias voltadas a diferentes públicos, com maior produção de filmes de gênero e seus híbridos. O documentário igualmente se renovou, com obras que focaram tanto em histórias intimistas — 33 (2003), de Kiko Goifmann — quanto em microcosmos institucionais — Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho, ou Um Lugar ao Sol (2009), de Gabriel Mascaro. No campo da animação, Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi, e O Menino e o Mundo (2014), de Alê Abreu, venceram consecutivamente o Cristal no Festival de Annecy, o mais importante prêmio do gênero no mundo.

Já a descentralização estilística veio a reboque: se o Cinema da Retomada em geral privilegiou a comunicação com o público em detrimento de experimentos mais ousados, coletivos como o Alumbramento e cineastas como Adirley Queirós e Affonso Uchôa apostaram num cinema inconformado com a lógica industrial.

Em termos de bilheteria, o cinema brasileiro atingiu seus melhores números em anos de grande apelo popular — Dois Filhos de Francisco (2005), com 5,6 milhões de espectadores; Tropa de Elite 2 (2010), com mais de 11 milhões. Atualmente, Ainda Estou Aqui ultrapassou 5 milhões de espectadores no Brasil, enquanto O Agente Secreto chegou a 1 milhão em poucas semanas. Durante o governo Bolsonaro (2018-2022), a cultura como um todo e o cinema em particular sofreram duros golpes — cortes orçamentários, propaganda adversa —, mas novamente a classe cinematográfica se adaptou e as agências mantiveram seu papel.

O que a trajetória do cinema brasileiro — de Carlota Joaquina a O Agente Secreto — revela é que resistência cultural e política industrial podem caminhar juntas. Ao longo de três décadas, o cinema brasileiro construiu uma identidade reconhecível internacionalmente sem abrir mão de suas peculiaridades regionais, temáticas e estilísticas. As estatuetas e os galardões recentes são, nesse sentido, menos o destino de uma corrida e mais o reflexo de uma longa e tenaz escalada — feita de leis, editais, festivais, coletivos, dezenas de diretores e incontáveis histórias que insistiram em existir

The Conversation
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Foto: The Conversation

Alfredo Luiz Paes de Oliveira Suppia recebe financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) como pesquisador 1C.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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