'Google Baby': barriga de aluguel ganha o mundo
Há muito tempo, nas últimas décadas do século passado, se uma mulher tivesse problemas para engravidar, ela economizava dezenas de milhares de dólares e repassava a quantia a uma clínica especializada em tecnologia de reprodução assistida.
Ela então podia tomar injeções com estimulantes e ter seus óvulos colhidos, fertilizados e implantados, esperando que a ciência e os deuses da fertilidade moderna conspirassem para impor sua vontade. Esse continua sendo um método exaustivo para engravidar, mas sua complexidade não é nada comparada ao que acontece em Google Baby, um documentário convincente que vai ao ar na quarta-feira, na HBO2, mostrando como o tradicional procedimento de fertilização de proveta se tornou prosaico.
O filme, produzido e dirigido pelo cineasta de Tel Aviv Zippi Brand Frank, examina as maneiras pelas quais a globalização difundiu e complicou ainda mais a indústria da fertilização. Google Baby, no entanto, também é a crônica de uma ideia concebida por um empreendedor israelense chamado Doron, que entrou no negócio usando doadoras de óvulos dos Estados Unidos e barrigas de aluguel da Índia para atender aos "sem-filho" do mundo ocidental.
Logisticamente, isso envolve o congelamento de múltiplos embriões de doadoras em nitrogênio líquido e seu envio a um centro de barriga de aluguel em Anand, Índia. Emocionalmente, isso exige muito empenho por parte das mulheres responsáveis pela gestação do bebê, numa cultura em que alguns consideram a barriga de aluguel um tipo de prostituição.
O que poderia facilmente ser retratado como uma exploração totalmente horrível recebe um tratamento neutro surpreendente de Brand Frank, que habilmente evita os clichês presentes em qualquer olhar jornalístico sobre reproduções atípicas. Google Baby -cujo título se origina da prática de encontrar potenciais doadoras de óvulos online- não mostra nenhuma dondoca de Upper East Side escolhendo a barriga de aluguel para evitar a inconveniência de ganhar peso e abrir mão do gim-tônica. Nem nos mostra pais intelectuais insistindo em doadoras com notas perfeitas no vestibular e um registro comprovando coordenação similar à de Roger Federer. (As exigências dos ricos podem parecer insanas neste universo, se estendendo, como um endocrinologista reprodutivo uma vez me contou, a até mesmo o tamanho do calçado.)
O próprio Doron resolveu entrar nesse negócio pela experiência de ter se tornado um pai gay, e ele parece motivado a ajudar outros casais gays a ter filhos. A clínica na Índia é controlada por uma médica, Nayna Patel, que faz de tudo para impedir que seu serviço se torne uma fábrica de bebês. Ela exige que os clientes não tenham filhos, ou tenham no máximo um. Patel, que cobra US$ 6 mil pela barriga de aluguel, vê o serviço que fornece como uma irmandade, "uma mulher ajudando outra". Fazendo uma análise de custo/benefício para uma mulher que se oferece como barriga de aluguel, ela explica que a futura mãe "não pode ter o filho que deseja e que você dará à luz, e você não pode ter uma casa."
"Você não pode educar seu filho além da escola", ela continua. "Para isso, eles vão pagá-la."
O que os pais pagam pela barriga de aluguel contratada na Índia é consideravelmente menos do que o procedimento pode custar nos Estados Unidos. A câmera de Brand Frank se move com fluidez para nos mostrar que a transação é ao mesmo tempo brutalmente injusta, considerando os riscos para a mulher que engravida, e também um tipo de dádiva, pois o dinheiro pode e faz diferença para mulheres pobres com oportunidades limitadas. Uma das dimensões mais feias do tema é a falta de reconhecimento dos homens em relação às esposas que são barrigas de aluguel. Muito pior do que um capitalista radical é um mau marido.