'Supergirl': conheça a HQ com arte de brasileiros que deu origem ao filme
'Mulher do Amanhã' foi ilustrada por Bilquis Evely e colorida por Matheus Lopes
Principal estreia da semana nos cinemas, Supergirl chega nesta quinta-feira, 25, com a missão de apresentar uma nova geração à Garota de Aço. Apesar de ter sido introduzida nas HQs da DC Comics em 1959, a heroína teve apenas uma aparição nos cinemas, em 1984, quando foi interpretada por Helen Slater no infame filme de Jeannot Szwarc.
Na televisão, a Supergirl até teve vida mais feliz, sendo interpretada por seis temporadas por Melissa Benoist na série homônima produzida pela CW entre 2015 e 2021. Apesar de uma audiência mediana e algumas críticas negativas, o seriado ainda conquistou uma sólida base de fãs, a ponto de alguns personagens originais da produção, como Sonhadora (Nicole Maines), serem levados para os quadrinhos após seu encerramento.
Ao contrário de suas antecessoras, no entanto, a Supergirl de 2026 não contará com aventuras criadas com base em décadas de histórias, seguindo a trama fechada narrada em Supergirl: Mulher do Amanhã, gibi com roteiro de Tom King (Batman, Estranhas Aventuras) e arte dos brasileiros Bilquis Evely e Matheus Lopes.
A escolha não é aleatória. Depois de décadas de vendas medíocres, Mulher do Amanhã reacendeu o interesse na Supergirl e ajudou a tirar do imaginário popular de que a personagem é apenas uma versão feminina do primo Superman. Na HQ, ela é mais temperamental que o Homem de Aço, xinga como se estivesse em um estádio de futebol e explica os traumas que viveu nos últimos dias do planeta Krypton.
Como é 'Supergirl: Mulher do Amanhã'
A história de Mulher do Amanhã começa com Ruthye — que também narra a história —, filha caçula de uma família de fazendeiros de rochas no planeta em que vive. Depois que seu pai é assassinado por Krem das Colinas Amarelas, um sádico agente do rei local, ela jura vingança e parte em busca de um mercenário para acompanhá-la nesta jornada.
Após ser agredida por um de seus primeiros candidatos em um bar, ela é resgatada pela Supergirl, que estava em seu planeta para aproveitar o sol vermelho que inibe seus poderes para conseguir tomar um porre em seu aniversário de 21 anos. Quando Ruthye a ajuda em sua ressaca e lhe oferece o trabalho de caçar Krem, Kara nega seu pedido e tenta voltar para a Terra, mas é seguida até sua nave pela garota.
Lá, elas são atacadas por Krem, cujas flechas envenenadas atingem e ferem Krypto, o Super-Cão, obrigando a Supergirl a encontrá-lo novamente para conseguir a cura que salvará o superpet. Como o assassino fugiu com sua nave, Kara decide aceitar a proposta de Ruthye para acompanhá-la em sua vingança.
As páginas seguintes misturam alguns gêneros narrativos populares, como mistérios noir, ópera espacial, road trip e faroestes de vingança, tudo envelopado numa ficção científica que visita diferentes planetas e dimensões, populados por alienígenas de visuais criativos.
Apesar de ser um quadrinho de super-herói, Mulher do Amanhã não se encaixa necessariamente na percepção de leveza que o público geral tem da mídia. O tempo todo, a história reforça se tratar de uma trama de vingança e tragédia. Na pista de Krem, Supergirl e Ruthye se deparam com genocídios, valas comuns, destruição e violência extrema causada pelo assassino e pelos igualmente sádicos Saqueadores por toda a galáxia. Em determinado momento, Kara interrompe sua viagem para ajudar um homem a enterrar as centenas de vítimas dos vilões, em quadros igualmente trágicos e tocantes.
O gibi também diferencia Supergirl e Superman de maneira clara: enquanto o Homem de Aço foi criado na Terra como Clark Kent desde que era bebê, Kara não teve a mesma sorte. A HQ mostra que a heroína já era uma adolescente quando Krypton explodiu, matando quase toda a sua população. Os sobreviventes, incluindo ela própria, passaram meses em um pedaço de terra que se deslocou com o evento apocalíptico, protegido por um escudo criado por seu pai, Zor-El.
A tragédia de Kara não terminou com a explosão de Krypton, no entanto. Por causa da radiação vinda do espaço, o solo que habitavam começou a se tornar letalmente radioativo, causando câncer em sua mãe e seus amigos. Por meses, a futura Supergirl foi obrigada a ver as pessoas à sua volta morrerem, até que seu pai constrói um foguete para salvá-la do mesmo destino. Carregando esse trauma desde que era criança, sua visão de mundo e comportamento foram fortemente moldados por perdas, que também guiam suas ações.
Apesar de todas as tragédias que testemunhou, a Supergirl ainda carrega a filosofia de gentileza do primo, o que é evidenciado à medida que sua relação com Ruthye e com os alienígenas que conhece evolui. Ao longo da narrativa, a garota conta como Kara tentou protegê-la do mesmo trauma em sua viagem espacial, ocultando dela registros da violência dos Saqueadores e assumindo para si a responsabilidade de dar o golpe final em Krem.
Mesmo com todas as suas tragédias e violência, Mulher do Amanhã ainda se encaixa perfeitamente na temática de esperança pregada pela franquia Superman em suas múltiplas mídias. Com todas as suas diferenças em relação ao primo, a Supergirl ainda tem um respeito gigantesco pela vida e, mais do que acompanhar Ruthye em sua jornada, a heroína a inspira a ser uma pessoa melhor, ajudando a garota a lidar com o luto pelo pai.
Além de recuperar o prestígio da Supergirl com o público, Mulher do Amanhã também foi enorme sucesso de crítica. Após o fim de seu lançamento, a HQ foi indicada como Melhor Minissérie no Prêmio Eisner, o "Oscar dos quadrinhos" e ao Hugo Awards. Em 2025, Bilquis se tornou a primeira brasileira a vencer o Eisner, já pelo seu trabalho em Helen de Wyndhorn, também fruto de sua parceria com Lopes e King.
A mudança da Supergirl
Rosto da personagem na década passada, Benoist não estará no longa de 2026, tendo sido substituída por Milly Alcock, a jovem Rhaenyra de A Casa do Dragão. Mais do que apenas diferenciar o novo DCU do extinto Arrowverse da CW, a mudança de elenco serve também para pontuar uma mudança drástica no retrato de Kara Zor-El, abandonando a energética personalidade da série em prol da versão mais realista e pragmática da HQ de King, Evely e Lopes.
Ainda que os trailers lançados até agora de Supergirl adiantem um apoio maior no humor em relação ao quadrinho para satisfazer o grande público atingido por blockbusters, a escolha pela adaptação de Mulher do Amanhã pede por uma interpretação mais dramática da protagonista. No derivado de A Casa do Dragão, Alcock se mostrou capaz de dominar momentos mais tensos sem se intimidar com a enormidade de uma produção de alto orçamento.
Sendo o segundo filme do DCU, seguindo justamente Superman de 2025, Supergirl precisa evitar o erro do longa de 1984, que fez sua Kara emular o Homem de Aço de Christopher Reeves e impediu a personagem de desenvolver uma personalidade própria. Ao escolher Mulher do Amanhã como base para o novo filme, o DC Studios segue a proposta da HQ de exaltar as diferenças entre os dois kryptonianos, numa tentativa de não repetir o mesmo erro de décadas atrás.
O filme também terá o trabalho de introduzir Lobo (Jason Momoa), querido anti-herói dos quadrinhos, nos cinemas pela primeira vez. Embora não esteja em Mulher do Amanhã, o mercenário espacial serve para continuar o povoamento do DCU com personagens de comportamentos e morais distintos, algo que vem sendo trabalhado na franquia desde seus primeiros lançamentos como Pacificador e Comando das Criaturas. Essa adição, assim como o vindouro filme Cara de Barro, servem para deixar o universo cinematográfico mais heterogêneo, refletindo o que acontece nos gibis da DC e se opondo à concorrência da Marvel, cujas produções são criticadas há anos por seguir uma fórmula repetitiva.
Com direção de Craig Gillespie (Eu, Tonya) e roteiro de Ana Nogueira (The Blacklist), Supergirl já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Além de Alcock, o elenco conta com Eve Ridley, Jason Momoa, Matthias Schoenaerts, David Krumholtz e Emily Piggford. David Corenswet também tem participação confirmada como o Superman.
O Supergirl de 1984 pode ser conferido na HBO Max. A série de 2015 não está disponível para streaming no Brasil.
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