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'Uma Infância Alemã': Fatih Akin conta história real de menino de bom coração numa família nazista

Filme do diretor alemão é baseado na meninice do seu amigo Hark Bohm, filho de um oficial nazista nos últimos dias da Segunda Guerra

29 jun 2026 - 10h48
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O cineasta alemão de origem turca Fatih Akin costuma fazer filmes vibrantes e crus. Quem viu Contra a Parede (2004), vencedor do Urso de Ouro em Berlim, e Em Pedaços (2017), que deu a Diane Kruger o prêmio de atriz em Cannes, sabe disso. Por isso seu mais novo longa-metragem, Uma Infância Alemã, que estreou nesta quinta-feira, 25, no Brasil, surpreende. Trata-se de uma narrativa clássica, feita para um público mais amplo, sobre o pequeno heroísmo de um menino nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Nanning (o ótimo Jasper Billerbeck) vive na Ilha de Amrum, na região conhecida como Frísia no norte da Alemanha, que inclusive tem seu próprio idioma. Seu pai é um oficial nazista, e sua mãe, que acaba de dar à luz, está em depressão, piorada pelo suicídio de Adolf Hitler. O menino precisa se virar para conseguir algum dinheiro e, vendo a mãe naquele estado, resolve alegrá-la com sua comida favorita: pão branco, manteiga e mel, todos artigos raríssimos em um país destruído pela guerra que causou.

Em 'Uma Infância Alemã', Nanning (Jasper Billerbeck), filho de um oficial nazista, tenta alegrar a mãe, que sofre de uma depressão piorada pela morte de Hitler
Em 'Uma Infância Alemã', Nanning (Jasper Billerbeck), filho de um oficial nazista, tenta alegrar a mãe, que sofre de uma depressão piorada pela morte de Hitler
Foto: Gordon Timpen/Divulgação / Estadão

Seus desafios são vários, da maré cheia que isola o lugar onde mora ao desequilíbrio do tio, também oficial nazista, que talvez possa fornecer os artigos desejados. Ele também enfrenta a resistência de alguns moradores locais, que conhecem a lealdade da família de Nanning ao nazismo e simplesmente estão cansados do regime. Uma Infância Alemã lembra outros clássicos com crianças protagonistas, seja Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio de Sica, Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), de Abbas Kiarostami, e O Balão Branco (1995), de Jafar Panahi, tratando um tema pesado com a delicadeza do olhar infantil.

O interesse de Akin pelo projeto, que foi um sucesso de bilheteria na Alemanha, é fácil de explicar: foi um favor. Seu professor Hark Bohm, colaborador de grandes nomes do cinema alemão, como Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders e Werner Herzog e corroteirista de Em Pedaços, pediu ao ex-aluno para assumir Uma Infância Alemã quando já estava doente (ele morreu em novembro de 2025, poucos meses depois da estreia mundial no Festival de Cannes).

Akin cresceu assistindo às obras de Bohm. "Ele é um ícone do cinema alemão, mas sempre foi um outsider porque fazia muitas produções sobre crianças", disse em mesa-redonda com a participação do Estadão, em Cannes. "Hark fez um filme em 1988, chamado Yasemin, que me fez querer ser um cineasta alemão. Porque até então eu achava que precisava ir para Hollywood. Mas ele rodou na minha rua, com personagens turcos, e eu fiquei bravo com a maneira como ele os retratou. Eu era adolescente e pensei: 'Vou me tornar diretor e fazer melhor'. Então ele me influenciou muito, e depois nos tornamos amigos."

Foi Fatih Akin quem incentivou Bohm a escrever Uma Infância Alemã. Inicialmente, a ideia do veterano era contar a história de Konrad Morgen, um oficial da SS encarregado de investigar membros da organização em suspeitas de corrupção. Mas o orçamento era alto, e nenhum órgão público ou estúdio quis financiar uma produção sobre um nazista que fez coisas boas. Bohm ficou chateado porque, com a idade avançada, seria seu último projeto. Akin então insistiu para saber por que ele tinha interesse na história sobre um nazista. "Ele respondeu: 'Minha mãe era nazista. Meu pai era nazista. Mas eu os amo porque eles são meus pais. Por isso queria fazer esse filme'", contou Akin. Bohm contou que seu pai foi preso na sua frente na ilha de Amrum, ao fim da guerra.

Akin, que também é produtor, falou para ele escrever aquela história de sua infância. "Temos Roma (de Alfonso Cuarón), Belfast (de Kenneth Branagh), Os Fabelmans (de Steven Spielberg). São todos sobre infância. Disse a ele que deveria fazer um filme sobre a sua." Nanning, embora tenha pais apoiadores de um regime sanguinário, é um menino de bom coração, que vai percebendo aos poucos como sua família está do lado errado, embora nunca deixe de amá-los.

'É responsabilidade de todos nós'

Mesmo tendo incentivado Bohm a escrever sua história, Akin hesitou um pouco na hora de aceitar a tarefa. Afinal, sua obra é autoral. "Você vai gastar muito dinheiro, trabalhar bastante e viver com esse filme o resto da sua vida", disse. Foi em um almoço com Thierry Frémaux, diretor artístico do Festival de Cannes, que se convenceu. Dois outros cineastas franceses estavam na mesma mesa, e Akin perguntou suas opiniões. "Eles me disseram para fazer. Que, mesmo sem ter uma conexão pessoal com o material, eu a encontraria no caminho."

Nanning (Jasper Billerbeck) e Herrmann (Kian Köppke), personagens de 'Uma Infância Alemã', filme do diretor Fatih Akin
Nanning (Jasper Billerbeck) e Herrmann (Kian Köppke), personagens de 'Uma Infância Alemã', filme do diretor Fatih Akin
Foto: Gordon Timpen/Divulgação / Estadão

E foi o que aconteceu. Primeiro, como em todo filme que faz, pensar em um gênero cinematográfico ajudou. Nesse caso, poderia ser uma aventura nos moldes de Conta Comigo (1986), de Rob Reiner, ou dos livros de Mark Twain.

Segundo, embora tenha sido uma coincidência Bohm decidir fazer Uma Infância Alemã em um momento de ascensão da extrema-direita na Europa, o timing não passou despercebido por Akin. Sendo um alemão de origem turca, é de se pensar que ele não carregue a culpa pelo nazismo - seus pais chegaram à Alemanha depois da guerra. Mas o diretor disse que sente, sim.

"Antes, eu pensava: 'O Holocausto não é culpa minha, esse trauma não está no meu DNA. Os alemães que lidem com isso'", afirmou. "Mas, quando fiz O Corte (produção de 2014 sobre o genocídio armênio perpetrado pelos turcos), aprendi que o Holocausto foi apenas outro genocídio. Então não importa se foram os alemães que fizeram com os judeus, os turcos com os armênios. Humanos fizeram contra outros humanos. E eu sou humano. Por isso me sinto responsável. É fácil se isentar da responsabilidade, é como uma fuga. Mas é responsabilidade de todos nós."

Pode ser que, por causa de suas origens, Fatih Akin consiga dar a Uma Infância Alemã uma leveza que um cineasta alemão de ascendência alemã não fosse capaz. "Não sei dizer. Por exemplo, em A Fita Branca (longa de 2009 de Michael Haneke que se passa na Alemanha no começo do século 20, captando a atmosfera que levou às duas grandes guerras), as crianças são horríveis desde o princípio. Em seu cinema, Haneke cria um mundo sem amor. Eu não o critico por isso, mas tenho uma atitude diferente porque sou outra pessoa, de outra época. Se isso tem a ver com minha ascendência ou com meus pais, não sei. Precisaria ir ao analista para descobrir."

Estadão
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