'Michael' é um deleite musical, porém uma cinebiografia desonesta de Michael Jackson
Desde 'Bohemian Rhapsody' não se espera muita veracidade da vida dos astros, mas a trajetória do autor de 'Thriller' é repleta de momentos imperdoáveis
Nos momentos iniciais de Michael (em cartaz a partir da quinta-feira, dia 23), os rebentos da família Jackson acabam de chegar de uma apresentação no final do anos 1960 quando o patriarca, Joe (Colman Domingo, com toda perversidade e cafajestice a qual o personagem tem direito), exige que o grupo faça um novo ensaio. Na visão de Joe, a performance deles deixou a desejar. Michael Jackson (Juliano Valdi) ousa retrucar o pai - e leva uma das muitas surras que marcariam sua trajetória profissional e pessoal.
Já as cenas derradeiras de Michael se passam no Dodgers Stadium (Los Angeles) em dezembro de 1984, durante a turnê do álbum Victory, dos Jacksons. Michael (agora vivido por Jaafar Jackson, sobrinho do popstar, com uma semelhança e desenvoltura assustadoras), avisa ao público que aquela é sua última performance ao lado dos irmãos.
Michael, o filme, teve uma filmagem tão atribulada quanto a vida de seu personagem principal. O orçamento da produção ficou entre US$ 155 milhões e US$ 170 milhões, sendo que US$ 15 milhões foram gastos na filmagem de cenas adicionais. Isso se deve à alteração do final da produção: a ideia inicial era trazer à tona as acusações de pedofilia do cantor: ao invés do momento de glória da turnê de Bad, a produção terminava com a polícia chegando a Neverland, rancho do popstar.
A opção pela glória ao invés da infâmia logicamente vai reacender o interesse do público por Michael Jackson -que ainda é uma figura presente, tanto na postura de astros do quilate de Bruno Mars quanto a turma do k-pop, que faz uso das coreografias e do visual do cantor americano. Michael detém o posto de autor do disco mais vendido de todos os tempos (Thriller, que contabiliza cerca de 70 milhões de cópias vendidas) e derrubou a barreira que separava a música afro-americana do universo pop. O êxito de canções como Beat it e Billie Jean uniu as paradas em torno de seu nome.
No Spotify, ele tem cerca de 64,8 milhões de ouvintes mensais e 40,5 milhões de seguidores, o que o torna no 27º artista mais escutado na plataforma de streaming. A produção seria então um excelente adendo a franquias como Michael Jackson ONE, do Cirque du Soleil, em cartaz em Las Vegas desde 2013, e MJ The Musical, espetáculo encenado nos palcos da Broadway desde 2021, e vencedor de quatro Tony, o Oscar dos musicais americanos.
Deleite musical com cenas estupendas
Musicalmente, Michael, o filme, é um deleite. Somente uma figura insensível à soul music ficaria imune aos momentos iniciais, quando I Wanna Be Startin' Somethin', faixa de abertura de Thriller, explode nas caixas de som -aliás, é recomendável que se assista à produção em salas IMAX.
A produção de vídeos como Beat It, cuja coreografia ele ensaiou com integrantes das gangues de Los Angeles, ou as sugestões que ele dá durante as filmagens de Thriller -Michael pede para que as câmeras foquem em seus pés, ao invés de captar as emoções de seu rosto- são igualmente estupendas.
A lendária aparição na celebração de aniversário da Motown, em 1983, quando interpretou Billie Jean e fez pela primeira vez o moonwalk, passo que ajudaria a eternizar, é replicada em seus mínimos detalhes -a única "ousadia" é a presença do menino Michael (aparição relâmpago de Valdi, que o interpretou na fase criança) na plateia, como se naquele momento o astro se reconectasse com o passado.
Michael, contudo, é uma cinebiografia desonesta. Tudo bem que desde que Bohemian Rhapsody, aquela fantasia em torno da vida de Freddie Mercury, arrecadou mais de US$ 900 milhões no mundo inteiro, que não se espera muita veracidade da vida dos astros. Contudo, a trajetória do autor de Thriller é repleta de momentos imperdoáveis.
Berry Gordy e Quincy Jones viraram meros coadjuvantes. Os dois têm menos tempo de tela do que o motorista/segurança do cantor e John Branca -este último é também produtor do filme, mas sua presença constante deve ser mera coincidência. Diana Ross, figura importante na carreira de Michael (embora o filme faça justiça à cantora Gladys Knight, a verdadeira descobridora dos Jackson 5), é ignorada, assim como Janet Jackson -que se recusou a participar da produção.
A relação de Michael Jackson com a Motown foi menos amistosa do que está retratado nas telas. Ele e os irmãos abandonaram a companhia porque queriam royalties maiores e controle total na produção de seus discos -exigências que foram negadas por Gordy. A negociação que rendeu a performance no especial da companhia, onde Jackson mostrou Billie Jean, também foi deixada de lado. E, nesse caso, Michael não delegou a tarefa a um terceiro: fez questão de jogar duro com Berry Gordy e venceu.
Outros assuntos polêmicos na vida do cantor ganham uma pincelada aqui e acolá. As provocações de Joe Jackson sobre a aparência do filho, que o fizeram afinar o nariz; a informação de que ele teria vitiligo, o que explica a brancura dos últimos tempos, e o acidente durante a filmagem de um comercial de uma marca de refrigerantes, cujo maior efeito colateral foi o vício em analgésicos para atenuar as fortes dores que ele sentia.
Em resumo, Michael pode até não ser o filme que irá decifrar o mito por trás do popstar. Mas é um bom porquê de ele ainda ser reverenciado por tanto tempo.
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