Amyr Klink diz que diretor de '100 Dias' foi ousado por fazer história bonita e feliz sem política
Travessia feita há 42 anos que era considerada impossível é tema de '100 dias', novo filme de Carlos Saldanha. Ao 'Estadão', Amyr, que é interpretado por Filipe Bragança, avalia homenagem em vida e critica 'arrogância brasileira'
Amyr Klink não é de se render ao sentimentalismo clichê. Foge de respostas muito emocionais e prefere falas técnicas, baseando o sucesso de sua travessia de 100 dias no Atlântico Sul, que começou há exatamente 42 anos, em muito estudo. Mas, ao falar sobre 100 Dias, filme dirigido por Carlos Saldanha sobre a viagem que mudou a sua vida, sempre se mostra emocionado.
"É um reconhecimento que nem sei se mereço. Foi uma experiência muito intensa", diz, em conversa com o Estadão. Estrelado por Filipe Bragança, o filme estreia no dia 29 de outubro exclusivamente nos cinemas e explora o período em que Amyr partiu de Namíbia, no dia 10 de junho de 1984, em direção ao Brasil sozinho e a remo. A travessia era considerada impossível à época.
"Não queria provar nada nem entrar no Guinness. Eu me encantei ao estudar por que tantos remadores fracassaram. Aprendemos muito mais com os erros dos outros do que com sucessos", relembra. O longa será inspirado por Cem Dias Entre Céu E Mar (Companhia de Bolso), livro escrito por ele e lançado logo em seguida, o que provoca certo receio em Amyr.
O navegante ainda não assistiu ao filme completo, apenas a algumas cenas quando esteve no set de gravação. "O processo é uma loucura. O Filipe entrou e saiu do barco mais vezes do que eu em 100 dias", brinca. Questionado pelo Estadão como será sua reação ao ver a produção completa pela primeira vez, Amyr é sincero: "Provavelmente não vou gostar muito, porque em transposições o livro normalmente ganha".
Mas o escritor reconhece o esforço de Saldanha e disse ter se emocionado com "o preciosismo da produção". Ele próprio fez questão de citar ao diretor exemplos em que o filme superou o livro, como Expedição Kon Tiki (2013). "O filme foca no Atlântico e, embora falte muita coisa, foi feito com um senso de realidade e carinho que o torna verdadeiro."
Amyr Klink critica expectativa por Oscar a cada lançamento de sucesso
Em tempos recentes de vitória e presença no Brasil no Oscar, 100 Dias surge quase como a "fórmula do sucesso": uma história forte, com apelo internacional, uma superprodução e dirigida por um diretor brasileiro radicado e conhecido internacionalmente. Mas Amyr critica esse "efeito Oscar" que agora paira sobre as produções brasileiras.
"Acho muito pretensioso para nós brasileiros. Cada vez que temos um sucesso, já falamos em Oscar ou Copa. Essa arrogância brasileira é muito ruim", diz ele, que completa afirmando que "muitos filmes brasileiros de sucesso recente tinham um viés político excessivo". Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, retrataram o período da ditadura militar sob diferentes perspectivas.
"Chega, né? Tem outros temas. O Saldanha foi ousado ao não colocar viés político, construindo uma história bonita e feliz", comenta. Amyr ainda estende as críticas aos brasileiros ao debater a falta de reconhecimento de ídolos no País.
"No futebol, temos atletas únicos, mas jogamos pedra no Neymar por inveja ou ciúme. Apesar de não concordar com todas as atitudes dele, tenho orgulho de termos um ídolo mundial", afirma sobre o jogador, atualmente lesionado e de fora da estreia do Brasil na Copa do Mundo.
'Se você não consegue fazer um barco com as próprias mãos, não merece navegar'
Amyr está acostumado a receber relatos de jovens que, inspirados por Cem Dias Entre Céu E Mar, lhe pedem conselhos para reproduzir a travessia. "Acho engraçado por um lado, mas triste por outro, porque muitos se inspiram mas nunca colocam em prática. Já recebi muitos jovens que queriam fazer a travessia, mas já chegavam com assessor de imprensa e nutricionista, sem ter o barco. Eu digo: se você não consegue fazer um barco de R$ 50 mil com as próprias mãos, você não merece navegar."
Agora, o escritor acompanha o jovem Rafael Garcia, um brasileiro que mora na Nova Zelândia e, até o momento, tem conseguido fazer a travessia. "Ele está agora a cerca de 400 milhas da Ilha de Santa Helena. Acompanho apenas a posição dele. É engraçado comparar o tempo dele com o meu de 40 anos atrás; ele está uns 25 dias atrás de mim, então estou ganhando", brinca.
Ganhar um filme e completar uma travessia de 100 dias no Atlântico Sul podem parecer sonhos distantes para muita gente, mas Amyr conta que ainda "tem centenas" de sonhos a realizar. "Mas tenho sido feliz porque coisas improváveis aconteceram, como minha base em Paraty e meu escritório ser no mar. Na Noruega, falamos de 'barcos felizes' e 'barcos tristes'. Tive o privilégio de comandar apenas barcos muito felizes", diz.
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