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Em 'Socorro!', Sam Raimi faz espécie de releitura inusitada e enérgica de 'A Lagoa Azul'

Longa-metragem imagina como as relações de trabalho se transformam quando um chefe e sua funcionária ficam presos em uma ilha deserta

1 fev 2026 - 17h20
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Se Náufrago imaginou como seria a vida solitária numa ilha no meio do oceano e A Lagoa Azul emocionou gerações com a história de dois jovens igualmente perdidos, Socorro! é a união violenta dessas duas histórias. Dirigido por Sam Raimi, cineasta por trás de A Morte do Demônio e da primeira trilogia do Homem-Aranha, o longa-metragem tem uma proposta ousada: falar sobre um chefe e uma funcionária presos numa ilha no meio do nada após a queda de um avião.

Ele é Bradley (Dylan O'Brien, de Maze Runner), o novo chefe de uma firma importante e que assume o cargo após a morte do pai. É a síntese de um machista no poder: gosta só dos amigos da fraternidade, passa o tempo no escritório jogando minigolfe e privilegia os homens do escritório. Quem sofre com isso é Linda (Rachel McAdams), a outra pessoa na ilha e que é diminuída, o tempo todo, pelo novo chefe - aliás, tudo indica que ela seria demitida após a tal viagem. Só que acontece o acidente de avião e apenas os dois sobrevivem.

Raimi, sempre astuto na maneira de dirigir suas histórias, nunca deixa Socorro! cair naquilo que já foi visto em Náufrago ou em A Lagoa Azul. Além de ser um filme de sobrevivência, sobre duas pessoas tentando se virar numa ilha deserta, o longa fala, principalmente, sobre relações de poder. Bradley exerce um controle excessivo sobre Linda - manda e desmanda, dá ordens sem sentido, a diminui. Mas como fazer isso numa situação assim?

'Socorro!' coloca Rachel McAdams em um papel muito diferente do que o público está acostumado
'Socorro!' coloca Rachel McAdams em um papel muito diferente do que o público está acostumado
Foto: 20th Century Studios/Divulgação / Estadão

Sociedade deserta

A ausência de sociedade, neste caso, não provoca loucura, amizades com bolas de vôlei ou romances inesperados. É uma completa inversão de papéis, com Linda sendo muito mais necessária para Bradley do que o contrário. O chefe não consegue sobreviver sem ela. Com roteiro de Damian Shannon e Mark Swift, ambos de Baywatch: S.O.S. Malibu, o filme se torna um exame curioso, e um tanto inesperado, sobre essas relações e como nada se mantém no ar fora da sociedade que criou padrões e afins.

Raimi ainda coloca uma boa dose de sadismo dentro dessa relação - violência, bastante inesperada em alguns momentos, e até mesmo uma dose de cenas escatológicas. Tudo, porém, com sentido. Nada é à toa ou jogado: é sempre com o olhar afiado para a sociedade.

Como seriam as relações de trabalho sem o atual tecido social: é isso que 'Socorro!' busca reimaginar
Como seriam as relações de trabalho sem o atual tecido social: é isso que 'Socorro!' busca reimaginar
Foto: 20th Century Studios/Divulgação / Estadão

Tudo bem que Socorro! perde o fôlego lá pela metade, quando o jogo de gato e rato entre os dois protagonistas se torna cansativo e até mesmo um pouco previsível. Dá para imaginar os próximos passos, as próximas decisões, os próximos erros. Rachel McAdams e Dylan O'Brien ajudam a segurar a atenção, com atuações bem acima da média - ela, principalmente, faz um papel totalmente diferente do visto em produções como Diário de uma Paixão e Questão de Tempo. Mas é impossível ignorar a situação de roteiro em círculos, sem ir para frente.

No geral, porém, é mais um bom filme de Sam Raimi, que volta à boa forma após o apenas mediano Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. Criativo, provocativo, engraçado mesmo quando tudo parece estar desabando: é um diretor que parece ser um refresco em tempos tão turbulentos e que mostra como é bom o cinema com cineastas tão originais.

Estadão
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