Em 'Sirât', festa no deserto faz Europa encarar seus privilégios, diz atriz; leia entrevistas
Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2025 e representante da Espanha no Oscar, filme terá sessões na Mostra de Cinema de São Paulo
Antes de começar a apresentar sua história, Sirât se explica. O letreiro inicial avisa que o termo que dá nome ao filme significa "a ponte que conecta o inferno e o paraíso", uma passagem "mais fina que um fio de cabelo". E nos primeiros minutos, quando um pai e um filho passeiam entre os corpos dançantes de uma rave que ocorre no meio de um deserto, fica claro que a ideia de purgatório está tanto na liberdade quanto na falta dela.
A atriz diz que, ao expressar seu receio, foi ouvida. "Há momentos na vida em que esse tipo de droga não vai ser tomado, não somos selvagens. No momento em que eu disse isso, Oliver pegou a caneta e começou a escrever. Isso me deu muita confiança."
As atrizes iniciantes, de passagem pelo Brasil para o lançamento do filme na Mostra, contam que todo o elenco ajudou a criar seus personagens, que não por acaso levam seus mesmos nomes. Durante a preparação, um grupo de quase 30 pessoas chegou a morar junto em uma casa alugada para as pessoas se conhecessem melhor e criar o entrosamento necessário à história.
"Oliver já sabia que estava lidando com pessoas alternativas, corajosas e que ousaram tomar decisões na vida que normalmente outros não tomariam", inicia Stefania. "Essa foi uma das razões pelas quais essas cinco pessoas estavam lá. Estão nos chamando de 'raveiros', mas a palavra é muito mais ampla. Acho que somos pessoas alternativas. E ele sabia que essas pessoas seriam capazes de aproveitar suas experiências de vida para expandir o que ele fez no filme."
Europeus dançantes, colonização e guerra
Mas se engana quem espera de Sirât um filme sobre a viagem espiritual de um pai e filho que encontram um grupo de amigos libertários. O filme propõe debates sobre a ocupação de territórios em conflito, crise climática, a travessia feita por refugiados e a empatia estendida a pessoas que enfrentam riscos em busca de uma vida mais segura. Em suma, é o retrato de um mundo que dança à beira do colapso.
"Uma das perguntas mais interessantes que ouvi do público foi sobre colonização, sobre europeus indo fazer sua música em países onde, às vezes, a cultura não está aberta a isso", recorda Jade. "Dentro do filme, também pode haver outra interpretação da colonização. Tive a sensação de que éramos nós que estávamos nos aproximando de um povo que já conhece o exílio, a imigração, e que estávamos indo pedir ajuda."
Tanto Jade quanto Stefania admitem que, a princípio, não compreendiam muito bem os diálogos que o filme propunha sobre Estados em guerra, mas afirmam que compreendem o filme como um convite para enxergar-se no lugar do outro.
"[No filme], falamos sobre Terceira Guerra Mundial e o quanto estamos próximos disso. Sempre houve guerras, mas as pessoas precisam agir e fazer algo para ajudar. Nós europeus, e o mundo em geral, tendemos a virar a cabeça e não olhar. E este filme te força a olhar", opina Oukid.
Ela prossegue: "Na França, querem fazer com que o mundo das raves seja visto como extremista. Estão tentando aprovar uma lei para isso. O filme estreou lá em 10 de setembro, e nesse dia havia uma mega manifestação marcada. Muitos cinemas participaram do ato mas deixaram Sirât em exibição, justamente porque fala sobre todas essas questões." O protesto, marcado pelo movimento popular Bloquons Tout ("Vamos Bloquear Tudo", em tradução livre), aconteceu um dia após a nomeação do primeiro-ministro Sébastian Lecornu, em meio a um clima de instabilidade política no país.
"Os europeus tendem a enterrar a cabeça na areia em vez de olhar para o problema, porque não lhes falta nada", complementa Gadda. "Uma das coisas que me deixou desconfortável em Cannes foi que, ao mesmo tempo em que eu estava lá, estava acontecendo um genocídio em Gaza, sabe? E familiares estavam morrendo, e eu não conseguia deixar de pensar nisso. Não posso enfiar minha cabeça debaixo da terra. Tenho muitos amigos que estão nas flotilhas [de ajuda humanitária] agora mesmo."
Sirât na Mostra de SP
Sirât ainda tem exibições programadas para os dias 22 e 24 de outubro. Veja a programação completa no site da Mostra.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.