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Em 'O Convite', Olivia Wilde filma o colapso (e a reinvenção) de dois casamentos

Diretora e atriz do longa conta como um filme espanhol, uma citação de Oscar Wilde e os conselhos de Diane Keaton viraram a comédia mais comentada do Sundance 2026

8 jul 2026 - 18h13
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Antes de decidir dirigir e estrelar O Convite, a cineasta e atriz Olivia Wilde fez o que qualquer bom leitor de roteiro adaptado deveria fazer: foi atrás do original. Assistiu ao filme espanhol de Cesc Gay que deu origem à história bem antes de ler uma linha sequer do script escrito por Will McCormack e Rashida Jones. Queria entender por que aquela premissa — um casal em crise que convida os vizinhos para jantar e vê a noite descambar — já tinha sido adaptada em tantas línguas diferentes. "Deve haver um núcleo muito autêntico ali", contou em coletiva para jornalistas internacionais, na qual a diretora falou por quase uma hora sobre o longa que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 9.

'O Convite', filme de Olivia Wilde, fala sobre dois casais enfrentando seus fantasmas nos relacionamentos
'O Convite', filme de Olivia Wilde, fala sobre dois casais enfrentando seus fantasmas nos relacionamentos
Foto: O2 Play/Divulgação / Estadão

O filme reúne Wilde e Seth Rogen como Angela e Joe, um casal que atravessa um momento delicado do relacionamento, e Penélope Cruz e Edward Norton como Piña e Hawk, os vizinhos convidados para o que deveria ser um jantar qualquer. Rodado inteiramente em um único apartamento em São Francisco, o longa foi comprado pela A24 depois de um leilão disputado durante o Festival de Sundance deste ano e chega precedido de elogios de veículos como Variety, que o descreveu como um exercício no estilo Woody Allen, e o New York Post, que já o chamou de comédia mais engraçada do ano.

O que separa O Convite de uma comédia de costumes convencional é o processo pelo qual ele foi construído. Wilde diz que sempre sonhou em replicar a lógica de produção de filmes como 12 Homens e uma Sentença e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?: ensaiar e rodar em ordem cronológica, deixando o material vivo o suficiente para mudar durante as filmagens. "O roteiro mudou muitíssimo entre o momento em que eu li e o momento em que rodamos, e mudou de novo até terminarmos as filmagens, por causa desses atores extraordinários e de toda a especificidade que eles trouxeram", disse ela, na coletiva.

Parte desse processo incluiu a terapeuta e autora Esther Perel como consultora do workshop. Foi dela, segundo Wilde, a ideia de que um relacionamento pode conter várias relações — que talvez todo vínculo esteja destinado a terminar em algum momento, mas que seja possível recomeçar com a mesma pessoa. "Isso me marcou profundamente quando ouvi a Esther falar sobre o assunto, há muitos anos, e abalou minha visão de mundo", contextualiza Wilde. "Achar que estar sempre reinventando a relação, individualmente e como casal, faz do casamento algo muito menos anti-romântico."

Depois de 'Não se Preocupe, Querida', Olivia Wilde faz um filme menor e mais autoral, mesmo sendo um remake
Depois de 'Não se Preocupe, Querida', Olivia Wilde faz um filme menor e mais autoral, mesmo sendo um remake
Foto: O2 Play/Divulgação / Estadão

Esse conceito de reinvenção é o que sustenta a citação de Oscar Wilde que abre o filme: a ideia de que estar sempre apaixonado é a razão pela qual nunca se deveria casar. A diretora reconhece a dívida com Woody Allen, que costuma abrir seus filmes com citações, mas espera que o espectador saia do cinema pensando de outro jeito. "Espero que, ao final, as pessoas pensem sobre essa citação de um jeito um pouco diferente", arrisca.

Mais do que uma comédia sobre sexo, Wilde insiste que o filme é sobre a coragem de dizer a verdade para quem mais nos conhece. "Queríamos investigar o que acontece quando duas pessoas confundem intimidade com fusão. A ideia de 'ainda somos casados, nossas vidas se fundiram, logo somos íntimos', quando na verdade elas não poderiam estar mais distantes", afirma. É por isso que o filme se apoia tanto em espelhos e vidros: personagens que dividem o mesmo espaço sem nunca realmente se enxergarem. Uma frase dita por Piña resume o que a diretora quis dizer com isso: "as pessoas esquecem que merecem mais" — algo que Wilde diz sentir muito profundamente, "principalmente pelas mulheres".

A casa, a fita e a musa

Filmar tudo num único apartamento foi um desafio assumido de saída, e Wilde cita Amor, de Michael Haneke, como referência de como um espaço fechado pode parecer vivo com o trabalho certo de som e luz. No roteiro original, o apartamento era descrito como um espaço aberto, de planta integrada — foi a diretora, ao lado do diretor de arte Jess Gonchor e do diretor de fotografia Adam Newport-Berra, quem criou os cantos e as divisões que permitem aos personagens se esconder, se aproximar e se afastar ao longo da noite.

Wilde, na coletiva, confirmou o efeito buscado. "É uma sensação de labirinto, de proximidade, de estar perto, mas com privacidade suficiente para ter momentos secretos", explicou. As cenas em que os casais se separam em pequenos grupos, os chamados "tours pela casa", nasceram de improviso durante os ensaios e acabaram largamente construídas em cima do que o elenco descobria explorando o cenário.

Seth Rogen e Olivia Wilde interpretam um casal em 'O Convite'
Seth Rogen e Olivia Wilde interpretam um casal em 'O Convite'
Foto: O2 Play/Divulgação / Estadão

O Convite foi rodado inteiramente em película 35mm — uma escolha rara para uma comédia contemporânea e, segundo Wilde, decisiva para o resultado final. A diretora bancou o custo do filme do próprio bolso antes da venda para a A24 (foi reembolsada depois pela Annapurna), "porque eu não ia deixar a gente fazer esse filme sem 35mm".

Sem monitores, sem produtores no set, apenas elenco e equipe reduzida, ela descreve o barulho da câmera rodando como algo que lançava um tipo de feitiço sobre a cena. "Acho que dá pra sentir, quase ouvir, quando o filme está prestes a rodar. Isso cria um tipo de zumbido diferente no ar, muda o clima da sala", diz. Um lembrete físico de que o tempo de filmagem era finito, o que, paradoxalmente, elevava o nível de atenção e de jogo dos atores em vez de restringi-lo. "Há essa ideia equivocada de que, com película, você não pode se permitir surpresas, porque o material é finito, mas na verdade acho que isso eleva o padrão de todo mundo", diz.

O filme é dedicado a Diane Keaton, que dirigiu Wilde quando ela ainda era atriz e a incentivou a assumir a cadeira de direção. "Ninguém sentiria esse filme mais do que a Diane", disse Wilde, lembrando que a atriz foi uma mentora que a encorajou a dirigir e que, décadas antes, havia redefinido a imagem da mulher intensa e instintiva que o cinema costumava tratar como menos inteligente. "Ela me disse para colocar meu coração para fora. E este filme é, sem dúvida, a coisa mais vulnerável e pessoal que já fiz. Pensei nela o tempo todo."

Estadão
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