Diretor de 'A Semente do Fruto Sagrado', concorrente de 'Ainda Estou Aqui', relembra fuga do Irã
Mohammad Rasoulof conversou com o 'Estadão' sobre a importância de seu novo filme, a indicação ao Oscar e o cinema como forma de ir além
Mohammad Rasoulof é, hoje, um refugiado. Afinal, o premiado cineasta iraniano precisou fugir de seu país de origem após rodar seu novo longa-metragem, A Semente do Fruto Sagrado, em segredo - pouco tempo depois, também, de ter sido solto da prisão por conta de uma anistia geral. É a opção que teve: precisava continuar fazendo cinema, sua paixão e profissão, assim como também precisava apontar os abusos atuais do governo iraniano.
Tudo aconteceu quando o governo do Irã descobriu, após meses acompanhando secretamente os passos de Rasoulof, que o cineasta estava não apenas fazendo um novo filme em terras iranianas, como também havia uma boa dose de crítica contra o governo. Hoje, ele está em algum lugar na Alemanha após amigos o ajudarem a atravessar inúmeras fronteiras. Mas ainda olha para os lados.
A história do filme gira em torno de uma família passando por um momento dúbio: por um lado, o pai agora tem um cargo importante de juiz; do outro, trabalha oprimindo a sociedade iraniana. "Era intrigante para mim entender como alguém podia se tornar parte de um sistema que oprime seus próprios compatriotas e os coloca em situações desumanas", explica o diretor ao Estadão.
"A ideia para o filme surgiu há cerca de quinze anos, logo após meu terceiro filme. Na época, eu estava lidando diretamente com as forças de segurança no Irã, passando por processos de reentrada, interrogatórios, tribunais e sentenças. Eu comecei a me perguntar: o que nos coloca em lados opostos da mesa? O que nos leva a entrar em conflito, mesmo sendo parte de um mesmo país e cultura?", ele conta.
"Mais tarde, quando estive preso, tive uma conversa com um dos detentos que me marcou profundamente. Ele me disse que sentia vergonha de si mesmo, que se odiava e, às vezes, pensava em cometer suicídio. Ele contou que seus filhos constantemente o questionavam: "Por que você trabalha para esse sistema? Por que assumiu esse papel? Que tipo de vida é essa?". Essa conversa acendeu uma ideia em mim: havia uma história de família ali, um conflito geracional entre pais e filhos, entre quem serve ao sistema e quem o questiona."
Rasoulof diz que sente "muita saudade do Irã". "Foi ali que cresci, que aprendi a olhar para o mundo e a compreender outras culturas. Minha conexão com a minha terra natal é muito forte e desempenha um papel central na minha vida. No entanto, é importante distinguir entre o Irã como país e cultura, e a República Islâmica como sistema de poder. Por mais que eu tenha sofrido e sido oprimido pelo regime, isso não afeta minha relação com o país e com o povo iraniano. Na verdade, conforme o tempo passa, sinto-me ainda mais conectado à minha cultura, à minha língua e às pessoas do meu país. Eu sei que, um dia, voltarei ao Irã. Mas preciso tomar a decisão certa, no momento certo, para evitar problemas futuros."
Em meio a esse contexto, a indicação ao Oscar teve importante significado. "Eu não imaginava, inicialmente, que meu filme sequer seria considerado, já que sabia que o Irã não iria submetê-lo e não imaginava que a Alemanha o faria. Mas sempre sonhei em ser indicado ao Oscar. É algo muito importante, não apenas pelo reconhecimento pessoal, mas também porque traz visibilidade para as histórias que quero contar e para as questões que considero essenciais."
Para ele, a arte tem o poder de atravessar fronteiras e conectar pessoas em diferentes partes do mundo. "As histórias e imagens que o cinema leva de um país para outro podem despertar empatia, consciência e solidariedade humanas. Esse é um dos papéis mais importantes que o cinema pode desempenhar culturalmente", diz.
"Um exemplo que posso dar é de uma exibição recente do meu filme em Kiev, na Ucrânia. O povo ucraniano está passando por uma situação extremamente difícil, e muitos deles veem o Irã como um dos responsáveis indiretos pelo que acontece no país. Ao assistirem ao filme, alguns disseram que ele os ajudou a separar a política e o regime islâmico do povo iraniano. Acho que isso é algo muito significativo que o cinema pode fazer: mostrar nuances e criar espaços para compreensão."
A Semente do Fruto Sagrado está em cartaz nos cinemas e pode ser visto no streaming, pelo Telecine.