'A infância é esse tempo em que tudo é possível', diz diretor de 'O Tesouro do Pequeno Nicolau'
Julien Rappeneau, em cartaz nos cinemas também com 'Meu Filho É Um Craque', fala sobre seus novos filmes e o próximo, que terá temática adulta
O cinema sempre fez parte da vida de Julien Rappeneau. Filho do diretor Jean-Paul Rappeneau, acostumou-se, na infância e adolescência, a frequentar os sets do pai. Eram filmes como O Selvagem, Que Figura Meu Pai, Cyrano de Bergerac, O Cavaleiro do Telhado e A Dama das Sombras, interpretados por grandes nomes do cinema francês - Yves Montand, Gérard Depardieu, Juliette Binoche.
Aos 51 anos, que acaba de completar - em 17 de dezembro -, Julien conversou por Zoom com o Estadão. Conta que, apesar da familiaridade, o cinema não foi sua opção inicial. Foi jornalista e tornou-se roteirista antes de virar diretor. As circunstâncias de mercado fazem com que esteja em cartaz com dois filmes nos cinemas brasileiros. O Tesouro do Pequeno Nicolau vem somar-se a Meu Filho É Um Craque. São dois filmes sobre a infância. O que torna o tema tão atraente para Julien Rappeneau?
"A infância é esse período em que tudo parece possível. Se você tem condições, como eu tive, por conta de minha família, vive numa espécie de inocência, antes de ser testado pela vida e o mundo. Gosto de retratar esse período, a camaradagem, as primeiras decepções, os primeiros amores. Dizem que a infância determina os adultos em que nos transformamos, então o rito de passagem é uma consequência. Que bom que os dois filmes estejam em cartaz nos cinemas, no Brasil, mas suas gêneses foram diferentes. Meu Filho É Um Craque foi um filme que escolhi fazer, O Pequeno Nicolau surgiu de um convite do produtor. Apesar disso, o considero tão meu quanto o anterior. O fato de ter feito os dois filmes não me transforma num diretor de filmes infantis, sobre crianças. Meu próximo filme será diferente, com temática adulta."
O Tesouro do Pequeno Nicolau é o terceiro filme da série adaptada das tiras de René Goscinny e Sempé. Sucede a O Pequeno Nicolau, de 2009, e As Férias do Pequeno Nicolau, de 2014. Os dois primeiros foram realizados por Laurent Tirard, com base nos personagens criados por Goscciny e Sempé. Le Petit Nicolas surgiu nos anos 1950 e virou uma referência para os franceses, como O Sítio do Picapau Amarelo para os brasileiros. "Não perdia as tiras e os álbuns quando era garoto e, depois, como meu pai havia feito conosco, passei a comprar e ler as aventuras de Nicolau para meus filhos." Quando coloca no plural, Julien refere-se ao irmão Martin, que também virou artista e tem o crédito da trilha de O Tesouro do Pequeno Nicolau.
Na trama do filme, Nicolau forma o grupo dos inseparáveis com os colegas de classe. A vida é feita de brincadeiras na sala de aula, no pátio da escola e no campinho de futebol, onde o grande desafio é recuperar as bolas que caem por trás da cerca, na casa da vizinha idosa, que tem um cachorro. Os inseparáveis consideram-se também invencíveis. A crise instala-se quando o pai de Nicolau recebe uma proposta irrecusável - a de virar o patrão em outra cidade. A perspectiva de mudança mexe com todo mundo, especialmente com o garoto. Nicolau e seus amigos farão de tudo para inviabilizar a mudança, mas não será fácil.
"É uma história muito bonita sobre a camaradagem masculina. Nicolau levará esses amigos para a idade adulta, les inséparables. A passagem do tempo, representada pelo eclipse, fará com que esses amigos se reencontrem 32 anos depois, agora com seus filhos."
Ambos os filmes, Nicolau e Meu Filho É Um Craque, ao falar de filhos, falam também sobre pais. "É inevitável. A infância e a adolescência carregam a questão familiar, sejam a família de sangue ou a dos amigos, que elegemos. No meu caso, talvez pela própria figura de meu pai, a paternidade é uma coisa importante. Ele próprio fez um filme sobre o tema. O diferencial é que meus pais da ficção, o de Nicolau como o de Fourmi, não se assemelham em nada a Jean-Paul. Mas o tema é forte, é universal." Sobre seus atores, Maléaume Paquin em Meu Filho É Um Craque e Ilan Debrabant no Tesouro do Pequeno Nicolau, só tem elogios. Escolheu-os num longo processo de casting. "Ilan já tinha alguma experiência. Nem ele nem os demais garotos que faziam os amigos se conheciam. Foi maravilhoso vê-los criar no set a amizade tão necessária na tela."