Festival de Recife evidencia fase crítica do cinema nacional
Foi uma noite de temperatura quente e abafada do lado de fora do Cine Teatro Guararapes, mas amena no palco da premiação do 13º Cine PE Festival do Audiovisual do Recife. Nessa noite de domingo, o evento distribuiu seus Calungas de forma equânime, evitando polêmicas ou radicalismos, o que não é o mais adequado quando se trata de uma vitrine que busca consolidar a produção independente e o novo. Houve prêmios para todos os cinco longas-metragens concorrentes, decisão que sempre acarreta algum ruído, ao menos em alguma das categorias.
Não se pode tirar o mérito do júri em ter apostado numa produção que gerou faíscas nas discussões aqui em Recife. Alô, Alô, Terezinha, de Nelson Hoineff foi o filme vencedor de forma plena, na medida em que também foi o preferido do júri popular, ou seja, do público que o saudou efusivamente após a sessão. Mas como considerar o caso do prêmio de roteiro para Um Homem de Moral, assinado pelo diretor Ricardo Dias, senão uma tentativa de agradar um pouco cada concorrente. Trata-se de um documentário, e como tal, a roteiro não comporta tanto significado como no caso da ficção, valendo aí mais uma montagem ágil, como acontece também ao documentário de Hoineff, vencedor na categoria. Os méritos do filme de Dias, que são muitos, diga-se, se circunscrevem principalmente à excelência técnica, confirmada na premiação com a melhor edição de som. De forma mais abrangente, presta-se igualmente muito bem a um prêmio especial do júri, que por si só engloba todos o outros méritos.
No caso mais delicado, os prêmios para Praça Saens Peña (melhor diretor, atriz, ator e atriz coadjuvante, além do prêmio da crítica) se justificam pelo princípio de que o júri viu o filme que a platéia não conseguiu ver devido a sérios problemas técnicos de projeção. Numa comparação, os espectadores, incluindo aí convidados e imprensa, acompanharam a história como se estivessem num veículo com vidros protegidos por insulfilm. Um borrão só. Desde este momento, ficou constatado que não se poderia - e mais importante, não se deveria - analisar o filme a partir da péssima cópia em DVD que o diretor trouxe como única opção depois de uma série de contratempos que não vale a pena detalhar.
O Cine-PE avisou da qualidade ruim que a exibição teria, mas o diretor Vinícius Reis aceitou o risco e pediu em uma conversa no dia seguinte que não se considerasse o filme sob essa película de escuridão como o definitivo. Não foi o que parte da crítica presente na cobertura do festival decidiu fazer. Mesmo com apelos de que a fita não estaria em sua plenitude, os jornalistas defensores de um prêmio para o filme foram maioria e consentiram na indicação como o preferido. Nesta tendência de agradar a todos, alguns prêmios cabem no bom senso e são defensáveis, a exemplo da melhor direção de arte e fotografia para Mistéryos e trilha sonora para Estranhos.
Pondo de lado as decisões de júri, sempre prontas a gerar debates, o quadro da premiação reflete um problema muito maior e complicado do que sugere uma noite de premiação. Ao menos desde 2007, a pequena parcela de produção de filmes nacionais, aliada à falta de qualidade e originalidade, e ainda a política de alguns festivais, vêm minando a boa representação do cinema brasileiro nesses eventos. Em uma conversa informal com jornalistas, o organizador do Cine-PE, Alfredo Bertini, alertou para a piora do quadro em curto prazo, já que não há dinheiro nem para os diretores filmarem nem para os festivais se manterem nas mesmas condições de razoável funcionamento nos últimos anos. "É possível que não haja filmes nem para os festivais do segundo semestre", disse, referindo-se a Gramado e Brasília, os principais do calendário.
Como se fosse uma força contrária a esse momento de crise, os curtas-metragens se mostraram a força criativa mais potente e arejada deste festival. E quando há essa diversidade e qualidade, a premiação se mostra igualmente positiva e só tem a ganhar com uma posição mais radical. Um bom exemplo foi a atitude de comprovar o talento dos filmes Muro e Superbarroco, ambos contemplados com a chancela do Festival de Cannes - o primeiro com um prêmio no ano passado e o segundo a testar sua competência na Croisette, a sede do festival, a partir de 13 de maio próximo. Houve ainda distinções juntos a belos projetos como Os Sapatos de Aristeu e Nós Somos um Poema. Ao menos nesse recorte, a crise ainda não chegou.
Tom musical
Uma das marcas desta 13ª edição do Cine-PE foi a feliz coincidência sonora de reunir produções ligadas à história musical do País. E a programação se fechou nessa noite de domingo justamente com um retrato documental do "doutor do baião" Humberto Teixeira, cearense morto em 1979. Teixeira, compositor, político e homem ligado à difusão da música nacional no exterior e incentivador da lei de direitos autorais é pai da atriz Denise Dummont, um ícone do cinema de tom erótico-carioca dos anos 80. Foi ela quem decidiu há mais de sete anos documentar os passos do pai, para ela mesma uma figura distante e, para o Brasil, o músico esquecido que compôs Asa Branca. O resultado está em O Homem que Engarrafava Nuvens, exibido fora da competição, e que agradou ao público.
O filme, dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira, ajuda a recompor essa personalidade difícil na convivência familiar, que proibiu Denise de usar seu sobrenome quando ela decidiu ser atriz, mas criou a filha depois que a mulher (e mãe de Denise), a também atriz Margarida Jatobá, o abandonou para se casar com o radialista Luiz Jatobá. Embora de execução primorosa, com vários momentos emocionantes - como o encontro de mãe e filha, com revelações duras - o filme se prolonga um tanto em depoimentos desnecessários, mas fechou na chave emotiva e com dimensão de reabilitação o festival.