Fantasia aposta em trama delirante para abordar o destino
Com filmografia pequena, o belga Jaco van Dormael ficou conhecido no Brasil há mais de uma década por títulos como Toto Le Héros e O Oitavo Dia, que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes, dramas interessantes e voltados a uma realidade conturbada. Por isso também surpreende que Mr. Nobody, apresentado na competição oficial de Veneza, adote a linha da fantasia delirante e com toques futuristas que não se encaixa no cinema anterior do diretor.
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Novos caminhos são bem-vindos e necessários quando funcionam. Não é o caso aqui, embora haja atenuantes. A produção que representa a França na mostra, com elenco de língua inglesa formado por Jared Leto e Sarah Polley, por exemplo, tem premissa atraente, mas se desenvolve com altos e baixos numa narrativa repetitiva.
O encadeamento da história deve muito ao cinema recente de Michel Gondry e Charlie Kaufman (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças), aquele de idas e vindas no tempo e muita imaginação por parte dos personagens. Em vários tempos e situações, conta-se a história de Nemo Nobody, o último ser humano mortal num futuro próximo que fala de sua trajetória para um jornalista.
Seu conceito na vida se baseia nas escolhas feitas, ou não. A partir dele, o filme mostra três possibilidades de vida diferentes que poderiam ter ocorrido a Nemo, e que ele considera que de fato aconteceram. Quem lembrar do "efeito borboleta" que gerou um filme homônimo, e diz respeito ao retorno à infância para corrigir erros do futuro, não se engana. Dormael chega a citá-lo no filme.
Na coletiva de imprensa, o diretor considerou que seu novo trabalho não se distancia tanto assim dos precedentes. "Concordo com aquela definição de que fazemos sempre o mesmo filme, apenas alterando a forma, adotando um novo tema", disse. "É um filme sobre a complexidade da vida, dúvidas sobre ela, sobre o que ainda não sabemos; a razão de estarmos aqui, para onde vamos etc".