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Estreia de Tom Ford como diretor silencia críticos

4 dez 2009 - 07h35
(atualizado às 07h36)
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É surpreendente que Tom Ford, o ex-diretor criativo das grifes Gucci e Yves Saint Laurent que transformou sexualidade vulgar em alta costura nos anos 1990, não tenha tentado dirigir um filme antes.

Foto: Divulgação

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Em uma quarta-feira recente, Ford cruzou o jardim do Beverly Hills Hotel para encontrar uma convidada com quem almoçaria. Seu caminhar era deliberado, com os braços levemente arqueados emoldurando seu torso rígido. Ao se aproximar da mesa, ele tirou seus óculos escuros. Ele cheirava a essência de baunilha. Ao se sentar, Ford encostou o queixo em seu ombro esquerdo - um gesto feito conscientemente para realçar o melhor lado de seu rosto, ele posteriormente revelou. E deu um oi.

Representado para causar impacto visual, o momento foi muito parecido com uma cena de seu filme de estreia como diretor, A Single Man, em que o protagonista, George Falconer, arruma meticulosamente o terno e a gravata que usará em um funeral.

A criação mais instigante de Ford - mais do que as calças de cintura baixa de veludo que ele introduziu em 1994 ou o anúncio do perfume Opium de 2001 mostrando uma Sophie Dahl nua e contorcida - é sua personalidade pública. Tanto que Ford conta que seus amigos recentemente lhe disseram terem ficado surpresos ao descobrir que alguém tão aparentemente calculado pudesse fazer um filme tão cheio de alma.

Ford não é de expor sentimentos magoados. "Penso em mim como um produto", ele disse enquanto arrumava a disposição de seu garfo e faca. Mas claramente ser menosprezado assim machuca. "Tinha um amigo que conhecia há 15 anos que disse 'Sempre pensei em você como uma bela caixa preta laqueada com uma alça de platina dos anos 1920, mas nunca achei que houvesse algo dentro dessa caixa'", Ford contou. "Respondi, 'Você é meu amigo e não sabia que havia algo mais além da superfície?'"

A Single Man, que estreará em cinemas americanos selecionados no dia 11 de dezembro, ganhou a aclamação dos críticos, particularmente pelo retrato sensível que Colin Firth faz de George, um professor gay dos anos 1960 que contempla o suicídio depois que seu parceiro de longa data morre em um acidente.

Tais elogios são uma espécie de triunfo para Ford, que foi forçado a financiar o projeto de quase US$ 7 milhões com seu próprio dinheiro, após deixar a Gucci em 2004 e anunciar que iria se tornar diretor de filmes. Foi uma transição que alguns no mundo da moda consideraram fazer total sentido, dada a sua atenção meticulosa à superfície - enquanto outros acharam que a empreitada estava condenada ao fracasso, pela mesma razão. Até a Weinstein Co. escolher A Single Man no Festival de Cinema de Toronto em setembro, o filme não tinha distribuidora.

Mas esse tipo de amor tem limite em Hollywood. Para que Ford tenha um sucesso autêntico, o filme precisa atrair o maior público possível, da mesma forma que Brokeback Mountain atraiu em 2005 (esse filme ganhou US$ 83 milhões nas bilheterias dos EUA.) Se A Single Man também conseguir abocanhar algumas indicações ao Oscar, a atenção poderia impulsionar Ford de volta ao familiar papel de árbitro cultural. Quando questionado a respeito, ele foi cauteloso em fazer previsões. Mas esse é um papel do qual ele sente muita saudades desde que deixou a Gucci. Nos anos 1990, Ford era discutivelmente o estilista de moda mais influente de sua geração, recriando o chic dos anos 1970 com um sex appeal sem sutilezas. Sob sua direção, Gucci e posteriormente Yves Saint Laurent prosperaram, com Ford supervisionando cada aspecto criativo - moda, publicidade, até mesmo a decoração das lojas - e transformando-as em grifes sem as quais as pessoas não conseguiriam viver. Mas depois de uma briga rancorosa com seus chefes, ele deixou a Gucci e se juntou às levas de profissionais desempregados outrora poderosos.

Ao anunciar que seu próximo passo seria a produção de filmes, ele começou a passar mais tempo em Los Angeles, onde tem uma residência com seu parceiro de longa data, Richard Buckley. "Ele disse, 'Certo, filmes!'", conta Lisa Eisner, editora que conhece Ford há duas décadas.

Agora com 48 anos, Ford admite que não estava preparado para a transição. Seu advogado havia lhe dito que tirasse uma folga antes de embarcar em outro projeto de alta visibilidade. Mas Ford recusou o conselho. "Pensei comigo mesmo, 'Vou ficar louco'", ele disse. "Eu não tinha mais uma voz na cultura contemporânea."

Como muitos executivos enfrentando uma crise de carreira, Ford entrou num conflito de identidade. Ele disse que lutou contra a depressão e encontrou significado espiritual nos escritos de Eckhart Tolle. A produção de filmes também foi algo que lhe deu humildade. "Pensei: 'quem precisa de um filme de Tom Ford?'". Na Gucci, ele era uma superestrela que criava 16 coleções por ano. Mas em Hollywood, ele era apenas mais um cineasta, embora tivesse amigos bem relacionados.

Como Eisner colocou: "Você é o rei do mundo até deixar de ser. Para ele, havia muito tempo ocioso e ele não é disso".

Em 2006, Ford comprou os direitos de A Single Man, romance de 1964 escrito por Christopher Isherwood, bem como o roteiro de David Scearce, que Ford decidiu reescrever. Para se preparar, ele leu livros, incluindo On Directing Film, de David Mamet. Ele mostrou um esboço inicial a um executivo de estúdio, que lhe disse para contratar um profissional. Ele tentou colaborar com um roteirista, mas eles discordaram. Ao todo, Ford conta que revisou o roteiro 15 vezes em menos de dois anos. A história séria - suicídio, morte, romance trágico - se distanciava do Tom Ford da Gucci que gostava de provocar. (Em um de seus anúncios mais controversos para a Gucci, uma mulher arranca a calcinha revelando pelos no formato de "G").

"Quando ele me mostrou o roteiro, fiquei chocada", disse Arianne Phillips, figurinista do filme. "Se esse era um filme que Tom Ford, 'o diretor', queria fazer, eu não conhecia o Tom Ford, 'a pessoa'".

Eisner acrescentou, "Quando as pessoas pensam em Tom, elas acham que ele faz sexo um milhão de vezes por dia".

O tema do filme também dificultou que Ford conseguisse um estúdio para financiá-lo. Seus amigos lhe aconselharam a produzir um curta para mostrar o que ele podia fazer. Ford disse que havia feito um acordo verbal com dois investidores no ano passado, mas o negócio foi cancelado depois da queda do mercado de ações.

Seus agentes, ele disse, lhe aconselharam a não bancar a produção sozinho. Mas Ford ganhou muito dinheiro na Gucci e decidiu financiar o filme mesmo assim. Além disso, ele podia se dar ao luxo de ter algo que cobiçava muito: controle criativo completo.

Em uma cena, o conteúdo da gaveta de medicamentos de George aparece separado por divisórias, muito parecidas com as da gaveta de Ford em sua casa. "Projetei tudo aquilo", ele disse. "Cada pedaço disso sou eu". Em outra cena, Charley, amiga próxima e ex-namorada de George, interpretada por Julianne Moore, se maquia antes do jantar, aparecendo com um olho nu e outro já elaboradamente maquiado. "Era arte e artifício em um único momento", Moore disse. "Ele era cuidadoso sobre o que desejava comunicar".

Mas existem também paralelos sombrios. Quando George se prepara para cometer suicídio, ele se enfia em um saco de dormir, com a arma na mão, para não manchar o lençol branco da cama; Ford disse que um parente seu morreu dessa forma, chegando até mesmo a separar as roupas para seu funeral, assim como George faz no filme.

Claro que dirigir atores é diferente de orientar modelos em anúncios ou na passarela; os atores falam e, muitas vezes, respondem. O que pode surpreender os espectadores que assistirem ao filme são as interpretações ricamente humanas que Ford extraiu - ou, pelo menos, possibilitou. Na filmagem breve de 21 dias, diretor e atores discutiram sobre os personagens com antecedência, ou, quando Ford desejava algo específico, isso era colocado no roteiro. "Nunca me intrometi para dizer a eles como interpretar uma fala", ele disse.

Ele deu liberdade a Moore e Firth. "Em certo momento, comecei a cantarolar e balançar os ombros", Moore disse sobre uma cena em que Charley se maquia. "Não estava no roteiro, mas parecia adequado. Não teria conseguido fazer isso se Tom tivesse ficado em cima de mim, me dizendo o que fazer".

Isso dito, ela acrescentou, "Tom ficou completa e absolutamente no controle o tempo todo". Em 14 de setembro, o Teatro Isabel Bader, do Festival de Cinema de Toronto, se encheu com executivos de estúdios, diretores, agentes de talentos e curiosos que desejavam ver o que havia levado cinco anos para Ford produzir. O filme havia sido calorosamente recebido dias antes no Festival de Cinema de Veneza, onde Firth ganhou o prêmio de melhor ator. E embora o filme também tenha sido aplaudido em Toronto, apenas um comprador apareceu: a Weinstein Co., que pagou US$ 2 milhões pelos direitos de distribuição nos Estados Unidos e na Alemanha, segundo pessoas informadas da venda.

O problema, disse o executivo de um estúdio rival que decidiu não fazer uma oferta, não foi a produção de Ford. O filme é complicado de ser promovido. Mesmo agora, a Weinstein Co. tem sido criticada por cortar o trailer original de Ford, eliminando um beijo entre George e seu parceiro. Ford disse que concordou em mudar o trailer apenas para que o filme fosse mostrado para um público maior.

Ford passou tanto tempo de sua vida trabalhando em sua personalidade pública que nos perguntamos se esse filme é outra tentativa de repaginar e promover Tom Ford, o produto. Ele insistiu, "Foi a coisa menos calculada que já fiz".

Como se estivesse esperando o momento certo, Jason Reitman, diretor indicado ao Oscar por Juno, se aproximou da mesa de Ford no Beverly Hills Hotel. Ele havia visto o filme em Toronto e queria dizer a Ford o quanto havia gostado.

Ford se iluminou com o visitante inesperado. Anteriormente, ele estava discutindo como diferentes espectadores ¿ homens gays, mulheres heterossexuais - reagiram a um momento pungente em que Charley declara seu amor a George e ameaça sua amizade. "Você se emocionou, apesar de ser heterossexual?", Ford perguntou a Reitman sobre a cena. Reitman pareceu confuso. Ele perguntou se Ford estava lhe dando uma cantada. "Não, não estou dando em cima de você", Ford disse.

Reitman não se lembrava da cena. Quando a convidada de Ford começou a explicar a importância particular da cena no filme, Reitman a repreendeu: Filmes "não devem ser contados dessa forma", ele disse. Ele continuou o sermão enquanto Ford assistia de olhos arregalados e rindo de nervosismo. A entrevista de Ford havia descarrilado. "É melhor você se retirar agora", ele disse a Reitman, cujo último filme é Up in the Air. Ele estendeu a mão para se despedir. "Foi ótimo encontrá-lo". Reitman, no entanto, continuou falando. "Você vai me matar mesmo, não é?", Ford disse a ele.

Depois que Reitman foi embora, Ford se virou para a convidada e disse, "Eu apenas perguntei: 'O que você achou?'". Da próxima vez, é melhor se ater ao roteiro.

Traduzido por Amy Traduções.

Fonte: Redação Terra
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